Situado no cruzamento da avenida Augusto de Lima com a rua da Bahia, o quase septuagenário Conjunto Arcângelo Maletta é um dos mais icônicos edifícios de Belo Horizonte. O prédio, que foi point de diferentes gerações de jovens, artistas e intelectuais, tem no currículo a passagem de personalidades como Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, a turma dos músicos do Clube da Esquina e ainda hoje é referência para a vida boêmia da cidade. Seu uso é tanto comercial quanto residencial, com 642 salas, 146 lojas – entre restaurantes, bares, livrarias, sebos, salões de beleza – e 319 apartamentos. 

É ali, no 22º andar, em um apartamento de dois quartos e decoração modesta, que Dona Jandira organiza objetos para fazer uma exposição dos seus 20 anos de carreira como cantora. Intérprete de clássicos da música popular brasileira, Dona Jandira tem como principal característica o fato de ter iniciado a carreira artística tardiamente, aos 64 anos. “Nunca na minha vida pensei em realizar tudo que realizei. Eu quero mostrar para as pessoas que a vida não acaba com 50, 60 anos”, diz ela. 

As realizações de Dona Jandira na carreira musical começaram depois que ela se mudou de Maceió, capital de Alagoas, onde nasceu, estudou pedagogia, tornou-se professora, casou-se, teve dois filhos, netos, ficou viúva e se aposentou, e passou a viver em Ouro Branco, a 100 km de Belo Horizonte. Foram os trabalhos como artesã e comerciante, assumidos após a aposentadoria, que renderam uma proposta, em 1998, para trabalhar na cidade, onde ela fixou morada no distrito de Itatiaia, um charmoso vilarejo histórico. 

Já ambientada ao sossego da pequena comunidade, ela atraiu olhares curiosos quando foi flagrada cantando e, de imediato, recebeu um convite de uma funcionária da Prefeitura de Ouro Branco. “Estava cantarolando com meu violãozinho quando uma moça me abordou e convidou para desenvolver um trabalho com música na comunidade, mas eu expliquei a ela que não tinha condição disso. Eu não era profissional e só queria trabalhar com artesanato”, conta ela. Até que foi convencida, fundou com os moradores da região o coral infantojuvenil Os Bem-Te-Vis e precisou se inscrever na Ordem dos Músicos para realizar apresentações com o grupo.  

O ano era 2004, e na banca examinadora estava o músico, compositor e arranjador José Dias. “Quando ela chegou, já foi uma surpresa. Uma senhora de idade, que não era comum nesta prova, com lencinho na cabeça e um violão na mão. Quando ela cantou, fiquei abismado com a interpretação dela, muito forte e cheia de emoção. Foi para nós uma bela surpresa”, lembra ele. 

Raízes musicais 

A música sempre esteve presente na vida de Jandira Célia, como foi batizada pela mãe. Nascida em uma família de músicos, ela é filha de uma professora de piano e acordeom que costumava se apresentar na Igreja Nossa Senhora do Livramento, no centro de Maceió, e levava junto a filha. “Minha mãe descobriu que eu tinha ritmo e era entoada cantando ‘Renúncia’, de Nelson Gonçalves, quando eu tinha 4 anos. Ela formava o tom no violão, e eu entrava certinho. Ela fazia o ritmo, e eu estava lá”, conta Dona Jandira, que logo se põe a cantar a música: “Hoje não existe nada mais entre nós /Somos duas almas que se devem separar”. 

Apesar dos incentivos da mãe, a carreira artística nunca foi colocada em perspectiva. Dona Jandira atribui isso ao cuidado da mãe em preservá-la. “Eu sou nordestina, de cor, de uma família muito simples, sabemos que preconceito existe, sim, toda vida existiu. Por conta da época, minha mãe, discretamente, só me deixava cantar em locais mais íntimos, como aniversários de pessoas próximas e com ela na igreja. Ela nunca me proibiu, apenas me preservou”, diz a artista. 

Dias conta que saiu do teste da Ordem dos Músicos entusiasmado com o talento da intérprete e ficou com vontade de convidá-la para fazerem alguma coisa juntos. Sem pensar muito, no dia seguinte, fez a proposta. “Perguntei rapidamente ‘a senhora gostaria de tentar alguma coisa, eu não sou produtor, mas estou na música há muitos anos, toco, produzo discos, nunca peguei uma carreira, nunca lancei uma pessoa, mas podemos pensar em algo’, e ela topou”, lembra ele. 

Uma nova voz emerge  

Na semana seguinte, foram para o estúdio, onde ela gravou nove músicas, ao próprio gosto. Entre elas, canções de autores que a partir dali estariam sempre presentes nos seus repertórios: “Nunca”, de Lupicínio Rodrigues; “Onde Anda Você”, de Vinicius de Moraes; “Não Deixe o Samba Morrer”, de Aloísio Silva e Edson Conceição, imortalizada na voz de Alcione; e alguns boleros. Com o CD gravado na mão, Dias tratou de apresentar o material aos profissionais do mercado da música. “Sempre foi muito bem recebida. De cara, ela foi vista como um talento diferenciado”, afirma Dias.  

Em 1º de dezembro de 2004, Dona Jandira fez sua estreia nos palcos no Vinil Cultura Bar, uma casa de shows na Savassi, região Centro-Sul de Belo Horizonte. A partir daí, foi considerada uma grande revelação da música mineira. Foram 347 shows distribuídos em turnês anuais, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, o interior de Minas Gerais e uma ida a Évora, em Portugal, onde participou do festival Exib Música, em 2016. Todos eles detalhadamente registrados por Dias em uma planilha, que tem a última anotação em dezembro de 2019, logo antes do início da pandemia da Covid-19. 

Apesar do repertório repleto de músicas brasileiras que ficaram consagradas em décadas passadas, o público de Dona Jandira sempre foi formado por gerações mais novas. “Recentemente, fui prestigiar uma amiga em uma casa em Belo Horizonte e cantei, de Paulinho da Viola, ‘Coração Leviano’. Eu fiquei horrorizada com a recepção, a casa pegou fogo! Um público jovem, e todo mundo cantando. Parece que o público não vê em mim a idade que eu tenho”, diverte-se ela, que faz questão de se definir como uma “jovem senhora de 83 anos”. “A idade cronológica que eu tenho não sinto. Eu sinto que tenho, sei lá, uns 38 para 40 anos”, diz ela antes de dar a gargalhada que lhe é característica.