São Paulo. Há duas narrativas, em tempos distintos, que correm paralelamente no filme "O Outro Lado das Redes" (um dos destaques da programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo), mostrando o desenvolvimento de uma investigação jornalística sobre os malefícios do Facebook, a partir das revelações de uma funcionária, e a preparação do dono da big tech, Mark Zuckerberg, para uma acusação formal na Justiça.
Juntando os dois pontos, logo se imagina que, em algum momento, essas narrativas irão se cruzar, sugerindo que o levantamento feito pelo jornalista Jeff Horwitz, com a preciosa ajuda da engenheira Frances Haugen, dará frutos. A "revelação" do final, apesar de a história ser real e recente, aponta para um outro desfecho, sobre o poder gigantesco das redes sociais em nossas vidas.
Se fosse realizado da forma tradicional, sem essa distinção clara entre os tempos narrativos e o "lado" de Zuckerberg plenamente incorporado à trama principal, teríamos possivelmente um thriller policial bem eficiente, mas desprovido da carga reflexiva que o diretor e roteirista Aaron Sorkin quer dar: o desfecho da história de Jeff e Frances significa apenas uma pequena vitória.
Diante do que a Meta - dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp - representa no mundo atual, Sorkin nos faz temer ainda mais o que está por vir, ao exibir, nos letreiros, que Zuckerberg, mesmo com tantas derrotas nos tribunais, não mexeu um dedo para rever os seus conceitos morais em nome da liberdade de expressão. Pelo contrário, ele deixou a rede ainda mais "livre".
Nesse viés mais perturbador, sobre um homem que construiu uma grande máquina manipuladora, a segunda narrativa se torna mais reveladora. Tudo acontece basicamente entre quatro paredes, quando Zuckerberg é bombardeado por questões e se mantém imponente, como se fosse o dono do mundo - muito dessa imagem se deve à atuação mimética de Jeremy Strong.
O que vemos é uma luta entre Davi e Golias. Coincidência ou não, os atores que interpretam Frances e Jeff - Mikey Madison e Jeremy Allen White, respectivamente - são baixinhos. O incrível e árduo trabalho da dupla parece não arranhar o rosto impassível do megaempresário. Num instante-chave, quando ele tem o poder de decidir a continuidade ou não do ataque ao Congresso americano, em 2021, ele reluta até o último momento.
Apesar de objetivos e caráteres bem distintos, Frances, Jeff e Mark têm algumas semelhanças entre si que Sorkin faz questão de ressaltar. Eles são nerds solitários, cada um em sua área. Jeff é um jornalista das antigas, obcecado pela informação. Frances domina a sua área com maestria, talvez mais do que deveria. Já Mark estampa ele mesmo o estímulo antissocial de suas criações.
Em raríssimos momentos, a não ser quando falam de obsessões, algo de suas vidas particulares é relatado. Não têm um passado, um romance. Mal têm uma casa. São assexuados, por assim dizer, diferentemente da imagem externada por Mikey no papel que lhe deu o Oscar de melhor atriz, como a prostituta de "Anora". O tesão deles é completamente canalizado para aquilo que fazem. Já Zuckerberg parece um robô, como uma criação dele próprio.
Entender essa obstinação ajuda a entrar no conceito proposto por Sorkin. A rede social já é distração demais para que ele se atenha a pormenores em seu filme. O título em português já diz muito sobre os seus propósitos, ao lembrarmos que o cineasta é o mesmo de "A Rede Social" (2010), que faz um retrato mais glamurizado sobre o início do Facebook, pelas mãos de dois jovens estudantes de Harvard.
Dirigido por David Fincher, com roteiro de Sorkin, "A Rede Social" é uma biografia comum e hoje anódina em vista do que as redes sociais promoveram na cultura mundial. Por isso a cena inicial de "O Outro Lado das Redes" é tão importante, ao acompanharmos a mente de uma mulher antes progressista, que é levada pelos algoritmos para o lado mais sórdido que a humanidade poderia ter.
(*) O repórter viajou a convite da organização da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
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