A dublagem é um assunto controverso. Enquanto cinéfilos e grande parte da crítica analisam que a substituição das falas do idioma original interfere negativamente nas produções cinematográficas, existem espectadores, e, obviamente, atores dubladores e donos de estúdio de dublagem que a defendam como uma opção para quem não tem condições – ou mesmo não quer – assistir com legendas. Independentemente das discussões que se formam em torno do tema, a produção e o consumo de conteúdo dublado têm avançado significativamente nos últimos anos no Brasil, tanto no cinema como na televisão.
Serviços de filmes e séries de televisão via streaming, como Netflix e Amazon – para quem não sabe, a empresa norte-americana é dona da provedora de conteúdo online Prime Video –, têm investido pesado na dublagem. No fim do mês passado, a Netflix divulgou dados que apontam que a dublagem é preferência por aqui. O maior exemplo é a série “Arrows”, assistida na opção dublada por 93% dos brasileiros. Depois dela, está “Diários de um Vampiro”, com 92%. Já a produção original “Os 13 Porquês” foi vista dublada por 84% dos que estão em território nacional.
Nossa repórter foi dublada nesta matéria abaixo!
“A Netflix aqueceu muito o mercado de dublagem de séries, uma vez que esse tipo de produção ocupa 80% do negócio dela”, pontua Ana Lúcia Peçanha, proprietária do All Dubbing Group Estúdio Dublagem, sediado no Rio de Janeiro e que produz conteúdo para séries, como “The Flash” e “Hawaii Five-0”.
“Agora, a Amazon também está investindo em séries”, complementa, ao destacar que o estúdio tem dublado a série “Wolfblood”, transmitida no Prime Video.
Telona. O consumo de filmes dublados no cinema aumentou significativamente nos últimos anos. É o que avalia o gerente geral da rede Cineart, Lucio Otoni. “Em alguns complexos, esse formato atingiu 90% de participação do mercado na venda de bilhetes do cinema”, avalia.
E, se em 2015 seis em cada dez brasileiros preferiam ouvir áudio português nos cinemas – conforme pesquisa divulgada pelo Filme B, plataforma que monitora dados do cinema no Brasil –, hoje o número pode ter aumentado. “Está acontecendo um ciclo vicioso. Quanto mais gente assiste a filmes dublados, mais o distribuidor acredita que precisa ofertar esse tipo de conteúdo”, diz o crítico de cinema Pablo Villaça.
Telinha. Por muitos anos, a dublagem dominou majoritariamente a TV aberta, e, nos últimos tempos, tem avançado também sobre a TV por assinatura. Pesquisa realizada pelo Ibope no ano passado revelou que 58% dos brasileiros que assinam TV optam por assistir com o áudio em português. “O mercado brasileiro da dublagem tem crescido muito com a difusão da TV a acabo. Os canais descobriram que é lucrativo trabalhar sempre com a dublagem”, avalia Zodja Pereira, atriz e proprietária do estúdio paulistano Dubrasil Central de Dublagem, responsável pela dublagem da sétima temporada de “Game of Thrones”, “Girls” e “Silicon Valley”, todos da HBO.
O avanço da dublagem sobre conteúdo cinematográfico e televisivo, porém, não significa melhora no serviço. Pelo contrário. Com aumento da demanda, mas mesma quantidade de atores dubladores, a qualidade tende a cair. Estúdios de dublagem ativos começam a operar às 10h e só param às 22h. Com o aumento da demanda por produção para TV por assinatura ou serviços via streaming, um conteúdo chega pela manhã em um estúdio – como um episódio de uma série de TV – e, à noite, já precisa estar pronto. Em um mesmo dia, um ator pode interpretar até cinco vozes de personagens.
A carioca Mabel Cezar, 42, é uma dessas. Trabalhando com dublagem há 22 anos, a atriz empresta a voz a personagens como Luluzinha, Minie, Janet Jay Kyle (Tisha Campbell-Martin), de “Eu, a Patroa e as Crianças”, e Piper Chapman (Taylor Schilling), de “Orange Is The New Black”. Sua rotina contempla um constante “entrar e sair de personagens”.
“Estava interpretando um reality show pesado. Fui ao banheiro e, quando voltei, já fiz uma personagem louca de uma série da Netflix. Logo em seguida, já estava interpretando uma novela mexicana. É preciso estar muito presente no que se faz”, fala.
Trabalhando por tanto tempo com dublagem, a atriz afirma ter passado por “todos os estúdios do Rio de Janeiro e São Paulo” e faz um parâmetro do trabalho com o passar dos anos. “Quando comecei a dublar, o trabalho era feito em conjunto. Nos anos 2000, começamos a trabalhar sozinhos. A gente não vê nada sobre o personagem antes de chegar no estúdio”, diz Mabel.
A rotina de dubladora também é intensa para a mineira de Juiz de Fora Maíra Goés, 38. “A gente dubla tanto que muitas vezes nem lembra o que dublou”, diz Maíra. Mas se tem uma interpretação de que Maíra nunca vai se esquecer é da peixe Dory, dos filmes “Procurando Nemo” e “Procurando Dory”. “Começar a ser reconhecida pela voz é muito inusitado”, acentua Maíra.
Morando nos EUA, a dubladora belo-horizontina Isabelle Fontes analisa que a rotina fora do país é parecida com a praticada aqui. “Mas, no Brasil, os dubladores fazem muitas vozes para comerciais, diferente daqui”, conta.
Opção de conteúdo dublado e legendado para o espectador é a melhor alternativa
No meio de discussões favoráveis ou arbitrárias sobre o avanço da dublagem no Brasil, um contraponto faz-se necessário. De acordo com a professora de cinema da Escola de Belas Artes da UFMG Ana Lúcia Andrade, a alternativa mais justa é sempre produzir conteúdo dublado e legendado para qualquer tipo de produção. “A dublagem é importante para quem não consegue ler, como crianças ou surdo-mudos. Mas dublar todos os filmes é um absurdo. Tem que ter versão dublada para quem é cego ou não consegue ler e legendagem para quem é surdo”, afirma Ana.
“Não é só preferência ou mercado. É preciso estar atento ao público deficiente, tem que ter respeito com a produção original e é preciso um cuidado na escolha dos dubladores”, analisa a professora.
A publicitária Jessica Cirino, 25, por exemplo, reflete que “o conteúdo com o áudio original se mantém realmente fiel às emoções que os produtores querem passar”. Já a dançarina Natalia Nogueira, 29, acha “mais cômodo assistir a filmes dublados”.
Intervenção no original faz som perder qualidade
Efeitos sonoros de uma produção televisiva ou cinematográfica dubladas não são completamente substituídos. O que acontece é que, no momento da fala de um personagem, o som original é trocado pelo áudio em português, e uma mixagem de som é feita para adaptação para a língua nativa. “O áudio original é soberano”, avalia o crítico de cinema Rodrigo Fonseca.
Na opinião de Pablo Villaça, a qualidade da mixagem é baixa. “Um trabalho de pós-produção leva até sete meses para ser feito. Na dublagem, isso é refeito em cinco horas. A dublagem é uma linha de produção em que os atores não têm contato com a obra”, diz, ao exemplificar. “Para constatar que a qualidade de um som é ruim, é só perceber quando um personagem fala em outra língua que não a que está sendo dublada. Nesse momento, o som dá um salto, e isso mostra como a mixagem da dublagem é porca”, diz.
FOTO: Beck Studios/divulgação |
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‘Continue a nadar’ é o bordão mais famoso da personagem Dory, peixe da saga “Procurando Nemo” que ficou famosa na interpretação de Maíra Goés |
Técnica é incipiente
Apesar de existirem estúdios de dublagem em BH, a produção ainda é embrionária em comparação com Rio de Janeiro e São Paulo. Na capital fluminense, o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões (Sated-RJ) dá conta da existência de pelo menos 20 estúdios de dublagem e de 500 atores atuantes. Em São Paulo, os números são parecidos.
Em Belo Horizonte, essa contagem cai para 40 atores e três estúdios. E os números não são exatos. Ao contrário do que acontece no Rio e em São Paulo, o Sated-MG não propõe ações de regulamentação na profissão. Os dubladores, por exemplo, não têm piso salarial. No Rio, o sindicato prevê o pagamento de R$ 110,56 pela hora de trabalho. Em São Paulo, o valor vai para R$ 122. Em BH, a média de pagamento é de R$ 70 por hora, conforme diz a dubladora belo-horizontina Alessandra Carneiro, 30.
A atriz desenvolve trabalhos para três estúdios – DW, Pato Multimídia e Dub H (antiga Haja Comunicação). Ela já emprestou sua voz para personagens como Cecilia Roth, no filme “Tudo Sobre Minha Mãe” (Pedro Almodóvar, Espanha, 1999); Nicole Kidman, em “Reencontrando a Felicidade” (John Cameron Mitchell, EUA, 2011); e Yann, na série “Zoom: O Golfinho Branco”, da HBO. Ela atribui a pouca procura por dubladores de Minas Gerais ao preconceito do sotaque mineiro. “Estúdios do Rio e de São Paulo têm medo de perda de trabalho, uma vez que aqui existem muitos atores bons”, analisa.
Dono do estúdio Dub H, Victor Cabral analisa que o mercado do Rio e São Paulo é “prostituído”. “Em BH o mercado ainda é muito pequeno porque os estúdios do Rio e São Paulo não deixam a dublagem expandir no país”, analisa Cabral. Já Leo Moraes, dono da Pato Multimídia, comenta que os projetos de dublagem ainda são pequenos.