BRASÍLIA " Carlos Cortez não está dormindo direito. Acorda às 5h30 e não consegue pregar os olhos. Tudo pela expectativa de exibir pela primeira vez "Querô", longa concorrente ao troféu Candango no 39º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme passa hoje à noite e Cortez só pensa nisso.

Entre os principais selecionados deste ano, ele é o caçula. "Querô" é seu longa de estréia. "Só tem barra pesada disputando aí", conta, em descontraída conversa com o Magazine. Cortez está seguro em ao menos uma coisa: acredita ter realizado um trabalho de impacto, que "vai surpreender".

"É um filme sobre abandono, solidão e falta de perspectivas. Isso é uma coisa universal porque todo mundo tem medo de ser deixado de lado", reflete. "Querô" é adaptação do livro escrito pelo dramaturgo Plínio Marcos e publicado em 1976.

Retrata a vida do jovem Jerônimo, adolescente morador de Santos (SP) cuja mãe se suicidou enfiando a cabeça numa bacia de querosene " daí o apelido do protagonista que dá título à história.

"Esse menino está largado. Ele não vai à escola, não pertence ao tráfico, não tem absolutamente nada. Querô e sua turma são invisíveis, é como se não existissem dentro da sociedade", diz Cortez.

Inicialmente, a idéia do cineasta era documentar a "experiência heróica" de Plínio Marcos no teatro brasileiro. Propôs ao próprio escritor essa vontade. "Ele mandou eu me foder e disse que só seria objeto de documentário depois que morresse", relata Cortez.

"Então pedi que ele liberasse o "Querô", e passei a desenvolver o roteiro". Plínio morreria naquele mesmo ano (1999), mas Cortez seguiu em frente na busca por recursos financeiros que viabilizassem o projeto " finalizado com orçamento de R$ 3,5 milhões.

Contou com apoio criativo fundamental de Fernando Meirelles e Bráulio Mantovani, respectivamente diretor e roteirista do estouro "Cidade de Deus". A dupla aconselhou o diretor a não se preocupar com o roteiro se quisesse dar total autenticidade à realidade exposta no filme.

"Segui à risca, e tive muito medo de não dar certo. Mas eles me mandaram radicalizar, e foi o que fiz. O elenco não tinha acesso ao roteiro. Trabalhamos o improviso, a naturalidade. Todas as falas dos garotos que estão no filme são deles mesmos. O roteiro serviu mais para nós, da equipe técnica".

São 45 adolescentes em cena, escolhidos num exaustivo processo de seleção e oficinas coordenadas pelo preparador Luiz Mário Vicente. Foi ali que chegaram a Maxwell Nascimento, protagonista de "Querô".

"Ele demonstrou intensa agressividade e uma doçura fundamentais ao personagem. Era desse contraponto que a gente precisava, e o Max atingiu à perfeição. Tudo é contado do ponto de vista desse moleque".

Cortez relembra que Plínio Marcos se referia ao personagem como "Querozinho", tamanho carinho tinha por ele. "Tentei transmitir isso na tela", diz ele, que rodou o filme no porto de Santos.

Para Cortez, "a força política do filme foi colocar na tela, de forma totalmente espontânea, meninos que conhecem aquele universo". "Isso provocou um efeito inverso: antes eles eram anônimos; agora já são saudados como artistas pela comunidade".

Carlos Cortez evita fazer relações de seu trabalho com "Pixote " A Lei do Mais Fraco" (1981), clássico brasileiro de Hector Babenco. "Não assisti ao "Pixote" nos quatro anos dedicados a "Querô" justamente para evitar qualquer tipo de influência. Trilhei um caminho totalmente meu".

O repórter viajou a convite do Festival de Brasília