Nas rodinhas de conversa, sempre tem alguém que diz ser portador de intolerância à lactose, sem poder usufruir as delícias da bebida que nos acompanha desde criança. A impressão é de que, por um motivo qualquer, multiplicaram os casos de pessoas que não conseguem digerir a lactose no intestino. Mas as pesquisas mostram que, se algo realmente aumentou, é a intromissão de alguns influencers onde não são chamados – no caso, o consultório de um médico especialista.

“Há o impacto de influencers e também de alguns profissionais de saúde que respondem a qualquer queixa gastrointestinal com a prescrição de ‘suspende lactose, suspende glúten’, mesmo sem prova de que há intolerância. Esse mesmo tipo de profissional traz a informação de que o leite seria ‘inflamatório’, como parte do mantra ‘você está inflamado’, também sem base científica”, lamenta Sandro Rodrigues Chaves, gastroenterologista da Rede Mater Dei de Saúde.

Siga O TEMPO no Google e receba as principais notícias
Seguir no Google

O que vem acontecendo, segundo o especialista, é um maior entendimento da doença e diagnósticos mais recorrentes. “A avaliação da literatura científica não mostra aumento da prevalência real — quantidade de casos na população, que é estável há décadas. Com diagnósticos mais frequentes e maior conscientização social, como campanhas educativas e a pressão da indústria com produção de produtos sem lactose, a intolerância fica mais ‘percebida’”, explica Chaves.

No Brasil, um estudo de 2009 (não há dados mais recentes) apresenta uma prevalência de hipolactasia de 62,8%. A hipolactasia é a diminuição ou ausência da produção da enzima lactase no intestino delgado, gerando a intolerância à lactose. Sem essa enzima em níveis adequados, o organismo perde a capacidade de quebrar e digerir a lactose (o açúcar do leite) em glicose e galactose, impedindo a absorção. O problema é quando esse açúcar não digerido vai para o intestino grosso.

“Ele passa “inteiro” para o intestino grosso, com bilhões de bactérias/grama de fezes, que usam a lactose como alimento, produzindo gás carbônico, gás sulfídrico e metano (produzem distensão e dor abdominais) e líquidos (produzem diarreia)”, explica Chaves. É possível viver bem sem o leite de vaca, com uma gama de produtos substitutos à disposição do consumidor, mas esse diagnóstico, é preciso reforçar, tem que partir de um especialista. E não de quem acha que “você está inflamado”.

Se, no lugar da intolerância, o caso for alergia à proteína do leite, um diagnóstico errado pode ter sérias consequências. “Ninguém deve ser tratado de qualquer ‘potencial” doença sem ter o diagnóstico confirmado. Existe uma grande diferença entre intolerância que é a deficiência da enzima lactase e a alergia que é reação aos componentes do leite”, diferencia Maria Isabel Toulson Davisson Correia, especialista em Terapia Nutricional/Nutrição Clínica, que também trabalha na Rede Mater Dei.

“Quando há alergia real, há uma reação anafilática, com manifestações cutâneas, respiratórias (edema de glote) e sistêmica (choque e diminuição de pressão) e inflamatórias, ameaçadoras da vida, e que requerem hospitalização”, detalha o gastroenterologista. Por isso, enfatiza, o diagnóstico não deve ser feito sem a avaliação clínico-laboratorial adequada. “Uma boa entrevista clínica (anamnese) e exame físico bem executado são essenciais”.

A intolerância pode se manifestar com os sintomas de distensão abdominal, dor abdominal, diarreia, náusea. Mas eles também estão presentes em condições graves como doença celíaca, doença inflamatória intestinal (doença de Crohn ou retocolite), tumores malignos do trato gastrintestinal, insuficiência pancreática exócrina e pancreatite crônica, além de outras condições menos graves, síndrome do intestino irritável, parasitoses intestinais e diarreia funcional.

Chaves também chama a atenção para um fato cada vez mais recorrente: “restrições alimentares estão na moda, e podem ser a fonte de deficiências nutricionais e gatilho de distúrbios alimentares, como a ortorexia e anorexia”. Outra situação que o gastroenterologista faz questão de desmentir é que a intolerância abrange todos os componentes do leite. É possível, inclusive, beber leite normalmente, mesmo aqueles com intolerância comprovada.

“Pessoas com intolerância à lactose comprovada por testes ou clinicamente têm capacidade de ingerir 100-200 ml de leite comum, ao longo do dia, sem sintomas”, destaca. Hoje, frisa Chaves, há grande quantidade de produtos sem lactose no mercado, tornando-se assim desnecessária a opção de abolir o leite e seus derivados. “Basta tomar leite sem lactose e usar a enzima lactase (amplamente disponível) quando for ingerir um alimento com lactose, como sorvetes, molhos brancos, bolos, pizzas”, observa.

No caso de alergia à proteína do leite, o produto e seus derivados precisam ser excluídos. Maria Isabel lembra há outras fontes de cálcio como sardinhas e salmão em conserva com espinhas, tofu, sementes de gergelim ou chia, bebidas enriquecidas, vegetais como couve. “O importante é a pessoa ser orientada para quem com os vários alimentos que têm cálcio, possa alcançar as necessidades diárias em torno de 1000mg”, ressalta a especialista.