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História

Quando Eike saiu da trilha 

Nos anos 90, multimilionário fundou fábrica de veículos off-road em Minas, mas acabou “atolando o jipe na lama”

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JPX Montez
Jipe Montez foi o produto mais vendido pela JPX; projeto tinha origem francesa
PUBLICADO EM 28/08/13 - 03h00

Eike Batista, conhecido por dedicar-se a negócios em diversas áreas, também chegou a se aventurar no ramo automotivo. Nos anos de 1990, o multimilionário criou a JPX, que produzia jipes e picapes 4x4 em Pouso Alegre, no Sul de Minas. Porém, assim como ocorre atualmente com outras empresas comandadas por Batista, como a petrolífera OGX e a mineradora MMX, a pequena fábrica de veículos off-road enfrentou dificuldades financeiras, que resultaram em sua extinção.

A JPX foi criada em 1992, e o primeiro produto, o jipe Montez, chegou ao mercado em 1994. O veículo causava boa impressão frente ao Toyota Bandeirante, único concorrente na época, com design atual e motor a diesel conhecido como XUD-9A, de origem Peugeot, importado da França. O projeto era da Auverland, sediada no mesmo país e fornecedora de veículos ao exercito local.

Todo o conjunto mecânico era importado. O câmbio também era Peugeot, enquanto a caixa de transferência vinha diretamente da Auverland. Eixos e diferenciais eram da marca italiana Carraro. A planta de Pouso Alegre manufaturava o chassi e peças da carroceria, enquanto a maioria dos demais componentes era produzida por fornecedores brasileiros.

Assim como ocorreu no país de origem, as forças armadas brasileiras eram o principal foco de vendas da JPX. A frota do exército ainda era composta pelos velhos jipes Ford, com projeto Willys, e carecia de renovação. A fábrica mineira também deveria se tornar fornecedora das empresas de Batista, que precisavam de veículos 4x4, além do público civil.

O empresário Luiz Paulo Lamy, 54, ex-proprietário da concessionária Chevromec, que comercializava os produtos da JPX em Belo Horizonte, visitou várias vezes a sede da empresa e conheceu Batista pessoalmente. “A JPX era a menina dos olhos do Eike. Ele ia constantemente ao Sul de Minas e parecia gostar de ter uma fábrica de carros”, disse.

Problemas

Os produtos legitimamente nacionais, contudo, não atenderam as expectativas dos clientes. Segundo especialistas, consumidores e pessoas envolvidas com a marca, os problemas começaram com a adaptação do projeto francês às condições de rodagem do Brasil. Lamy destaca a baixa potência do propulsor 1.9 a diesel, de apenas 70 cv, que equipava o Montez: “Era um motor confiável, porém fraco”.

A Peugeot produzia um propulsor a diesel turbinado que poderia ser aplicado aos produtos da JPX, conhecido como XUD-9TF. Porém, ao em vez de importá-lo, a marca optou por aplicar um turbocompressor da marca IHI ao conjunto que já estava sendo utilizado, o que teria gerado controvérsias até mesmo entre os engenheiros da fábrica. O equipamento elevou a potência para 90,5 cv.

Lamy destaca que o equipamento proporcionou melhor desempenho aos veículos, mas acarretou um novo revés: superaquecimento, fazendo com que o motor “fervesse” e queimasse o cabeçote. “Era um problema generalizado. A gente participou de reuniões com a direção da marca e propôs soluções, mas eles não souberam entender os problemas”, disse. A marca chegou a adotar algumas medidas a partir de 1996, como troca do radiador, mudanças na grade dianteira e inserção de respiros no capô, para aumentar a refrigeração. “Foram paliativos, pois a falha nunca foi totalmente sanada”, contou o empresário.

O advogado e jornalista automotivo Roberto Nasser também aponta erros na tropicalização do produto, entre as quais a adaptação inadequada ao diesel comercializado no Brasil, que tem comportamento físico e químico diferente do similar encontrado na Europa, devido à aplicação de nafta em sua fórmula. “O combustível provocava uma desarmonia operacional, em especial em viagens longas, com dilatações não previstas e não suportadas,” explicou.

Início do fim

Os problemas de superaquecimento e medidas ineficientes tomadas pelo fabricante para solucioná-lo acabaram por desacreditar os produtos da JPX entre os consumidores. Além do mais, no fim da década de 90, as multinacionais do setor começaram a nacionalizar picapes 4x4, a Land Rover passou a montar o Defender no Brasil e a Troller era criada no Ceará.

Com volumes de vendas muitíssimo abaixo das previsões iniciais, a JPX começou a enfrentar problemas também com fornecedores. O Montez e sua variante picape, lançada posteriormente, continuaram sendo produzidos, mas em escala muito pequena e descontínua, até 2001.

No apagar das luzes, a marca finalmente adotou o motor XUD-9TF, que tinha vários aperfeiçoamentos internos. Mas era tarde: a fábrica arcou com os prejuízos acumulados e fechou.

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