Belo Horizonte

Idoso fica 40h no telefone e paga R$ 300 mil a bandidos por falso sequestro

Homem acreditou que filha havia sido raptada e que ele estava sendo monitorado

Sex, 24/05/19 - 19h47
Segundo a delegada Maria Alice Faria, que está à frente do caso, a situação foi menos arriscada porque família procurou ajuda da corporação

As possibilidades que poderiam justificar o desaparecimento de um casal de aposentados desde a última quarta-feira (22) até o fim da tarde desta sexta-feira (24) em Belo Horizonte eram tantas para a família que as fotos e características principais do homem de 69 anos e da mulher de 67 anos foram divulgadas em massa nas redes sociais.

Mas a história acabou ganhando outros contornos quando mais de R$ 300 mil foram transferidos das contas dos aposentados para um desconhecido. Perturbados com um falso sequestro da filha, eles passaram quase 48h no telefone sob constante ameaça de criminosos, que os manipularam e aplicaram um dos golpes mais comuns dos estelionatários.

No fim da noite de quarta-feira, o aposentado recebeu a ligação informando que a filha havia sido sequestrada. Ao ouvir os gritos de uma mulher ao telefone e perceber que os criminosos pareciam estar vigiando os movimentos do casal, o homem acabou acreditando e não percebendo que se tratava de um golpe. Os bandidos disseram, na ligação, que a filha deles estava sendo abusada e afirmavam mentiras que, por coincidência, acabaram batendo com a realidade do momento. Frases como: “estamos vendo o senhor mexer os braços de tal forma”, “coloque os braços para fora da janela para que possamos vê-lo” e “jogue um papel na rua”, foram contadas.

Para impedir que o casal entrasse em contato com alguém ou tivesse algum auxílio de familiares e vizinhos, os criminosos convenceram o aposentado, que atendeu a ligação, a retirar o telefone de casa do gancho e se hospedar com a mulher em um hotel na região Centro-Sul da capital. Com as constantes ameaças, os bandidos começaram a dar ordens para que as vítimas transferissem grandes quantias em dinheiro.

Cientes dos limites de depósitos e transferências das instituições bancárias, eles obrigaram o casal a percorrerem três agências bancárias para mandarem o dinheiro. Em pequenos depósitos, a quantia, para a Polícia Civil, pode ter chegado a mais de R$ 300 mil. 

“O meu pai nunca foi de sair sem dar notícia, sem deixar recado. A ligação não completava e o celular e os dados móveis estavam desligados. O telefone de casa ficou dando sinal de ocupado muito tempo até que a moça que trabalha lá chegou e achou a situação bem estranha e colocou o telefone no gancho, aí a gente começou a mobilizar para tentar encontrá-los. Ela acionou a gente porque achou estranho os dois não estarem logo pela manhã, as gavetas do meu pai reviradas”, afirmou a filha do casal, a enfermeira Débora Mendonça Soares, 36. 

O pesadelo só teve fim quando, após a Polícia Civil entrar em contato com as agências bancárias informando o crime, uma das instituições informar que o casal estaria naquele momento no local realizando uma transferência. Os policiais foram até o local e conversaram com o aposentado, que só então, após quase 48h, desligou a ligação com os bandidos.

O reencontro, segundo Débora, foi de muita alegria e alívio. “Foi muito emocionante. Eles estão muito abalados porque o meu pai é uma pessoa muito ativa. Ele ficou extremamente abalado. A filha sequestrada no caso seria eu, então no momento em que ele me viu ele ficou muito emocionado,  foi muito emocionante o reencontro e, saber que eles estão bem, é o mais importante de tudo agora”, disse. 

Segundo a delegada Maria Alice Faria, que está à frente do caso, a situação foi menos arriscada porque família procurou ajuda da corporação. “É importante que a família entenda a gravidade do desaparecimento, que pode decorrer por várias formas, como desse caso que é uma causa criminosa. É importante comunicar logo quando perceber a quebra na rotina. O familiar precisa procurar uma delegacia para iniciarmos de imediato as buscas. Não existe 24h nem 48h, nem um minuto sequer”, disse.

A delegada ainda ponderou os cuidados a serem tomadas para evitar cair nesses golpes. “Que as pessoas fiquem atentas também pois são golpes que geralmente oriundam de presídios e são muito reais. Tão logo iniciem esse telefonema informando que o familiar está em risco, é importante que a pessoa pense e raciocine, desligue o telefone e procure localizar essa pessoa que em tese está apontada como vítima de um crime, para que possa agir de forma consciente”, completou.

A filha do casal, Débora, pontuou que a persuasão dos criminosos não foi amadora. “Eles foram mesmo sujeitos a uma violência psicológica porque eles acreditavam que estavam sendo monitorados. Meu pai é uma pessoa extremamente inteligente. Às vezes, a pessoa acha que porque 'eu sou advogado' não vou cair nesse golpe. Meu pai é uma pessoa extremamente inteligente e ele sofreu uma violência psicológica mesmo e acabou caindo”, afirmou. 

A Policia Civil informou que vai investigar o caso. “Nós não temos ainda todos os detalhes. Estamos ainda fazendo os levantamentos de como de fato aconteceram todos os fatos e estamos em apuração para concluirmos o que aconteceu. Os dois são idosos, estão muito desgastado, sem dormir. É um crime gravíssimo, de extorsão, no qual eles não puderam ter sequer um descanso mental para raciocinarem o que estavam vivendo”, afirmou a delegada Maria Alice Faria.

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(2) comentários

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Pobre Plebeu 7:57 AM May 25, 2019
Quantos séculos a mais necessitaremos para bloquear acesso e uso de celulares em presídios? Antigamente, quando pessoas simples caíam nos golpes eram achincalhadas por policiais. Hoje em dia, médicos, advogados e até policiais, viram vítimas. Depende só do meliante ter a sorte de pegar a pessoa num momento de fragilidade psíquica... Se há uma dica possível: não dê ouvidos a estelionatários ou ele 'compra' a sua consciência. Bloqueadores de celulares já nos presídios.
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Toma jeito 8:26 PM May 24, 2019
"Enquanto existir são jorge, cavalo não anda a pé"... é infelizmente a realidade mostra que estes idosos fazem parte de uma estatística alarmante, pessoas que ainda caem em golpes mais velhos que a serra... é como comprar relógio "de ouro" na porta da rodoviária... golpe do bilhete... enfim, me pergunto em que planeta estão estas pessoas com tanta informação disponível, seja no rádio ou na TV. Não tenho dó destas pessoas, infelizmente o sentimento é de indignação mesmo. Como pode isso?
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