Nas ruas e avenidas das metrópoles, a emissão quase constante de gases pelos veículos. Nos céus, as substâncias tóxicas que afetam silenciosamente a saúde de toda a população. A poluição do ar que faz parte da vida das grandes cidades do mundo há séculos pode ter relação com os óbitos pela Covid-19. É o que concluiu um estudo conduzido por oito pesquisadores americanos sobre a mortalidade da doença.
O trabalho reforça um outro levantamento, que apontou que a exposição contínua das pessoas aos poluentes emitidos nos céus no Norte da Itália e na China levou a casos mais graves da doença. Os dados revelaram que o risco de desenvolver sintomas graves era maior nessas regiões, além da mortalidade pela Síndrome Respiratória Aguda Grave, que contabiliza doenças como pneumonias, gripes e o coronavírus.
A relação entre os gases poluentes e os casos graves da Covid-19 pode ser explicada por duas versões. Na primeira, os pesquisadores acreditam que a poluição afeta os cílios do sistema respiratório – células que revestem as vias áreas e impelem o muco, além de micro-organismos infecciosos, de acessarem os pulmões.
Outra hipótese é um impacto indireto causado pelos gases, que agravam as doenças cardiorrespiratórias preexistentes. Com isso, a imunidade do organismo é menor e a comorbidade dificulta o tratamento da doença. Para o professor de patologia da Faculdade de Medicina da USP, Paulo Saldiva, o estudo mostra que a exposição contínua aos poluentes no ar reduzem os mecanismos que atuam na defesa do sistema respiratório.
"Esses mecanismos combatem os agentes infecciosos inalados. Há evidências suficientes na literatura médica mostrando que os pulmões de indivíduos expostos à poluição do ar desenvolvem uma inflamação crônica que se manifesta, produzindo mudanças na estrutura do epitélio respiratório", explicou. Conforme o especialista, essa situação ainda prejudica a defesa imune, que é uma segunda barreira contra micro-organismos patogênicos, como a Covid-19.
Fontes de população
A pesquisa reforça que os principais poluentes presentes no ar das cidades são lançados pelos veículos automotores, cuja frota cresce a cada ano em todo o Brasil. Entre os principais substâncias tóxicas, estão as partículas de diesel, aldehídos como acroleína, acetaldehído e formaldehído, e hidrocarbonetos aromáticos como benzeno e naftaleno.
O levantamento, que liderado pelo pesquisador Mike Petroni, do Centro de Medicina Ambiental da Universidade Estadual de Nova York, foi publicado na plataforma IOP Science.