Sérgio Sampaio foi um dos mais ignorados gênios da música brasileira. Autor do mega-hit "Eu Quero é Botar Meu Bloco Na Rua", que vendeu 500 mil cópias do compacto, ele sempre foi cobrado para compor outro sucesso do mesmo calibre.

Nunca conseguiu. Na verdade, ele mesmo não queria ficar preso ao hit. Queria mostrar outras músicas, outros estilos. Esse tipo de atitude marcou toda a sua curta, mas prolífica, carreira. Distante das grandes gravadoras que queriam o sucesso fácil, Sampaio lutou para ter sua música ouvida.

Irônico, ele sempre achou curioso o fato de "O Bloco", uma marcha-rancho com letra triste e de cunho político, mas de refrão forte, ter virado hino de Carnaval. Não tinha percebido que seu desabafo também estava agarrado na goela de inúmeros brasileiros.

Contratado pela Phillips justamente por causa do "Bloco", Sampaio concebeu um disco homônimo que agradou aos executivos, mas com uma ressalva: não tem outro "Bloco".

Sampaio exasperava-se: "Mas Bloco só tem um, meu Deus". O disco trouxe músicas do quilate de "Filme de Terror", "Cala a Boca, Zebedeu", "Pobre Meu Pai", "Viajei de Trem", "Odete" e "Eu Sou Aquele Que Disse". Até fez mais um ou dois sucessos relativos, mas nunca atingiu o mesmo patamar anterior. Apesar da vendagem recorde do compacto, o disco cheio, de 1973, não foi bem.

É certo que alguma responsabilidade sobre o fracasso cabe ao próprio compositor. Sem saco para fazer a divulgação do disco e vivendo o auge do desbunde, enfurnado em noitadas regadas a bebida e cocaína, Sérgio faltava a entrevistas, desmarcava aparições na TV, viajava sem avisar. Enfim: preferia a farra aos compromissos profissionais.

Sua relação de afeto e desprezo ao sucesso do "Bloco" gerou pelo menos uma boa história: conta a lenda que Sérgio sempre quis que Roberto Carlos, seu conterrâneo de Cachoeiro do Itapemirim, cantasse uma música sua. Depois de algum tempo, Roberto mandou um recado dizendo que queria outro "Bloco". Sérgio não teve dúvidas.

E compôs "Meu Pobre Blues", música em que desancava o ídolo e que é impossível de ser cantada de outro modo que não imitando o jeito do Rei: "E agora que esses detalhes/ já estão pequenos demais /e até o nosso calhambeque não te reconhece mais/ eu escrevi um blues/ com cheiro de uns dez anos atrás/ que penso ouvir você cantar". Mais ácido impossível.

Antes disso, Sérgio, junto com Raul Seixas, Miriam Batucada e Edy Star, outros malditos da MPB " time que se completaria com Jards Macalé, Jorge Mautner, Luiz Melodia, Tom Zé e Walter Franco, todos à revelia, diga-se ", aproveitando uma viagem da cúpula da CBS (aonde Seixas era produtor artístico), gravaram "Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das 10".

Molecagem
A matriz da CBS reagiu a esse disco com um telegrama perguntando "what is this"". A molecagem acabou sendo a estréia de Sérgio em disco e trouxe "Chorinho Inconseqüente", "Todo Mundo Está Feliz" e "Eu Não Quero Dizer Nada", algumas das mais sarcásticas músicas do compositor capixaba. Diz a lenda que Raul foi demitido após a aventura.

Não é verdade. Produtor renomado, descobridor de talentos eficaz e grande fabricante de hits, Raul levou uma reprimenda, mas a verdade é que a gravadora não queria dispor de seu talento (como produtor, bem entendido. Como cantor, nem pintado de ouro).

Depois Sérgio lançou "Tem Que Acontecer" (1976) " que não aconteceu ", pela Continental, e o independente "Sinceramente", de 1982 " que não conseguiu nem esgotar sua pequena tiragem de 4.000 cópias. Apesar de ambos contarem com composições fantásticas, não tiveram a repercussão devida. Sempre se pode confiar na estupidez humana. A carreira errática e a saúde frágil levaram o músico a um retiro em Cachoeiro.

Morte
Casado novamente com a baiana Regina Pedreira, Sérgio estava tentando retomar sua carreira em Salvador.

Lá, depois de dez NOVO HIME "Sem Saudades" é uma das músicas do novo disco de Francis Hime, "Arquitetura da Flor", que acaba de chegar ao mercado via Biscoito Fino. A faixa é uma parceria inédita dele, que assina a composição, com Cartola, de quem a letra a neta lhe confiou. No disco, a música é cantada por Zélia Duncan.

"Gozos da Alma", "A Invenção da Rosa", "A Musa da TV" e "Mar do Amor Total" são outras faixas inéditas contidas no álbum. BREGA NA TRAMA Conhecida por apostar em jovens artistas do segmento pop-rock, da eletrônica ou em representantes da MPB castiça, dita "de bom gosto", a gravadora Trama abre um precedente inédito ao lançar, agora, um DVD do programa "Ensaio", da TV Cultura, de 1994, com ninguém mais ninguém menos que Amado Batista.

No programa, o cantor recorda sua trajetória em depoimentos entremeados com números musicais como "Seresteiro das Noites", "Serenata" e "Sol Vermelho".

Este é o sétimo DVD da série lançado pela Trama. TOM E DOLORES Tom Zé (foto) e o DJ Dolores são os dois artistas brasileiros convidados a participar do Festival Mestiço, evento internacional que acontece entre os dias 10 e 13 de maio na cidade do Porto, em Portugal.

Realizado na Casa da Música, o festival terá apresentações de músicos portugueses, espanhóis, africanos e latino-americanos. Tanto Tom Zé quanto DJ Dolores levam na bagagem o repertório de seus álbuns mais recentes " "Estudando o Pagode" e "Aparelhagem", respectivamente.

SELEÇÃO DO MADA
O Mada, um dos maiores festivais do ano, que acontece entre os dias 4 e 6 de maio, em Natal, e normalmente abriga diversos representantes da cena independente, acaba de divulgar a programação deste ano. Participam O Rappa, Pavilhão 9, Agregados e Família do Rap, Dusouto, Volver, Negedmundo, Macaco Bong, Pitty, Cachorro Grande, Zeferina Bomba, Biquini Cavadão e Cansei de Ser Sexy, entre outros. anos sem gravar, ele produziu uma fita demo do que viria a ser seu disco de 1994, a ser lançado pela paulistana Baratos Afins.

Seu sonho era gravar um CD, tecnologia nova então. Porém os anos de abuso do álcool cobraram seu preço. Em 15 de maio de 1994 Sampaio morreu sem ver seu sonho realizado. Quem acompanhou a carreira do músico já tinha notícia dessa fita, que circulou bastante entre os fãs.

A fita (hoje já em versão digital) contém apenas Sérgio e seu violão, porém trata-se do melhor trabalho dele. E estava fadado ao esquecimento se não fosse a iniciativa do músico Zeca Baleiro. Baleiro remasterizou a base já existente, acrescentou instrumentos, fez os arranjos e "Cruel", o CD que Sérgio Sampaio tanto queria ver, finalmente vem à luz.

"Cruel" é desses discos que já nascem clássicos, provando o talento atemporal de Sampaio. Quem já estava acostumado à versão voz e violão estranha um pouco a primeira audição. Os arranjos são zecabaleirísticos demais, e, às vezes, alegrinhos demais.

Mas aos poucos o ouvido acostuma e o que sobressai é o imenso talento do músico. Dá um certo ciúme ver divulgadas aquelas músicas que só você e mais um restrito grupo possuíam. Mas canções como "Em Nome de Deus", "Polícia, Bandido, Cachorro, Dentista", "Magia Pura" ou "Uma Quase Mulher", entre outras não menos geniais, são simplesmente muito boas para ficarem escondidas.

E sua poesia, ao mesmo tempo romântica e extremamente ácida, pode encontrar melhor receptividade nos tempos de hoje. A preferência ainda é pela demo. A versão voz e violão de Sérgio ainda é superior ao disco lançado. É de se imaginar que resultado teria se o músico ainda estivesse vivo e tivesse controle sobre sua obra.

Ainda assim, a iniciativa de Zeca Baleiro deve ser louvada. Deve-se ressaltar o excelente trabalho gráfico, que inclui um belíssimo livreto com as letras e uma pequena biografia. Mas ainda falta um tanto de divulgação.

A coisa ainda está andando meio no boca a boca. Com tiragem de apenas mil cópias, Cruel está sendo vendido no site do músico maranhense (www.uol.com.br) com preço um tanto salgado de R$30, mais frete, e dificilmente chegará às lojas. Quem não quiser perder o bonde da história, e não quiser correr o risco que ficar sem o que já é o melhor disco brasileiro do ano, é bom correr.