A conversa foi por telefone, mas teria o mesmo sabor – desse que deseja durar horas a fio – se fosse num café badalado de Nova York, num boteco belo-horizontino bem tradicional ou na feira de domingo no bairro Liberdade, na capital paulista.
Isso porque Paulo Azevedo consegue intercalar momentos de humor requintado, de generosidade para falar de uma de suas grandes paixões, o teatro, e de inquietação sobre as novas descobertas como artista, sempre citando passagens poéticas.
Uma delas cabe com exatidão em sua vida: “Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”, do curitibano Leminski.
Mineiro radicado em São Paulo há cinco anos, o ator, diretor, dramaturgo, produtor cultural, performer e – ufa – jornalista é como o personagem que considera a jornada mais importante que o destino. “Eu estou num momento de assumir a pluralidade dos meus caminhos”, explica. Nesse contexto, produções para televisão, cinema, e, claro teatro entram no repertório de Paulo, um artista sempre curioso que bebe em fontes diversas como literatura, música, dança e arte contemporânea para criar.
Brinco que ele teria o problema de trabalhar com artistas pouco abertos à colaboração. “É verdade, desde quando eu fazia teatro amador me intrometia no cenário, no figurino e no texto. Quando trabalhamos juntos, ao observar essa característica, o Luis Alberto de Abreu disse que eu era um homem do teatro. Claro que eu levei como um grande elogio, porém, fui fazendo outras escolhas”, comenta. O jornalismo foi uma delas. “Eu sempre quis trabalhar no ‘Agenda’ (Rede Minas), onde comecei como estagiário e cheguei a ser apresentador”, diz.
Paralelamente, Paulo Azevedo mergulhava na proposta de pesquisa de seu grupo, o Espanca!, um dos grandes expoentes do teatro de sua geração. O artista arrancou aplausos com montagens como “Por Elise” e “Amores Surdos”. Circulou por vários cantos no Brasil, seguiu além-mar, e poderia ter residência fixa na capital mineira a exemplo de muitos talentos de projeção nacional e internacional, como Grupo Corpo, Grupo Galpão e músicos do Clube da Esquina
Em meio a citação dessas referências, ele faz questão de dizer que ama a cidade, que suas “escolas” sempre serão, entre outros, o Oficinão do Galpão, o Oficcina Multimédia, as diretoras Rita Clemente e Yara de Novaes – com quem está trabalhando atualmente. Ao mesmo tempo, não deixa de apontar uma visão crítica sobre a ausência de políticas culturais robustas em Belo Horizonte.
“Um exemplo é esse fechamento do Teatro Francisco Nunes por anos”.
“A minha opção de me mudar foi muito pensada, veio ao encontro do desejo de me colocar num mercado amplo, competitivo. Não houve nenhum rompimento, ao contrário. Eu sempre volto, não só para visitar a família e os amigos”. E pode ser que um dia volte – para uma casinha na roça – ou vá para um lugar mais distante ainda – um apartamento em Paris.
O pai é de Piauí, a mãe de interior de Minas Gerais – lembrando a letra de “Paratodos”, de Chico Buarque –, por isso, Paulo, tão versátil quanto inquieto, não vê dilemas quanto a itinerância, ou como o argentino Hector Babenco fez questão de lembrá-lo: “Você só precisa de uma base, o seu lugar é o mundo”.
A base, no caso, vem proporcionando troca de experiências como participar de oficinas do encenador norte-americano Bob Wilson, desenhar projetos com a atriz mineira Fafá Rennó, passar temporadas no Rio de Janeiro filmando com Ricardo Miranda, nome emblemático do cinema nacional nos anos de 1960.
Paulo reconhece que não foi só a perseverança e a sorte que o levaram a trabalhar com projetos de grande visibilidade. “Eu acredito que fui dando um passo de cada vez, sempre aberto às possibilidades. Eu amo o que faço e sou muito disciplinado. Claro que tem essa curiosidade imensa e um pouquinho de cara de pau também”, diverte-se.