Em 21 de fevereiro de 1874, o veleiro La Sofia, oriundo de Gênova, na Itália, atracou no porto de Vitória, no Espírito Santo, trazendo a bordo cerca de 380 famílias italianas. A chegada marcaria o início da imigração italiana em massa para o Brasil.
De 1870 a 1920, segundo o IBGE, 1,4 milhão de italianos entraram no Brasil. Ao longo de décadas, foram mais de 11 milhões. Não há dúvida de que os italianos ajudaram a formar nosso caldeirão cultural e tiveram papel crucial na formação de nossa identidade. Tanto que, no dia 21/2, se comemora o Dia do Imigrante Italiano.
Esses italianos se espalharam principalmente pelas regiões Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) e Sudeste (São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo). Só não ocuparam de forma massiva o Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país.
A partir da segunda metade do século XIX, o Brasil experimentaria mudanças na paisagem geográfica e cultural, perpetuando, até hoje, tradições trazidas pelos italianos, tanto na gastronomia quanto na música e nos costumes. A cultura italiana marcaria fortemente territórios.
No entanto, a maioria dos italianos veio para trabalhar em fazendas de café e substituir a mão de obra escravizada, após a promulgação da Lei Áurea em 1888. Muito além da imigração, o turismo estimulou essa troca de experiências de forma mais contínua e constante.
Turismo
Em 2023, segundo a Embratur, 129.400 turistas italianos desembarcaram no Brasil, 2,2% do total de estrangeiros no país. A Itália aparece em décima posição no ranking de destinos emissores de turistas para o Brasil.
Hoje, cerca de 30 milhões de descendentes de italianos vivem no país, de acordo com a da Embaixada da Itália no Brasil, metade deles no Estado de São Paulo. Boa parte está ligada direta ou indiretamente ao turismo.
Nesta matéria, elegemos destinos para você, viajante, fazer uma imersão na cultura desses ítalo-brasileiros.
Antônio Prado (RS)
A cultura italiana se espalhou por diversos municípios gaúchos, como Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Garibaldi e Veranópolis, mas Antônio Prado, a 180 km de Porto Alegre, é considera a mais italiana do Brasil. A cidade possui 48 imóveis tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), construídos entre o final do século XIX e início do século XX, sendo o mais completo conjunto arquitetônico, em madeira, da imigração italiana no Brasil.
A cidade foi fundada em 1886 e recebeu esse nome em homenagem a Antônio da Silva Prado, um fazendeiro paulista que era ministro da Agricultura na época. Incentivador da abolição da escravatura, ele foi responsável por promover a vinda dos imigrantes italianos e instalar os primeiros núcleos coloniais no Rio Grande do Sul.
Além do passeio pelas construções da cidade, vale conhecer a Casa de Neni, de 1910, onde funcionava uma ourivesaria, hoje sede da Central de Informações ao Turista e do Museu Municipal; o Moinho Francescatto e a Ferraria Marsílio, na Linha 21 de Abril. O turismo de experiência oferece visitas a vinícolas, inclusive com pisa da uva, cervejarias, docerias e roteiros de turismo rural (Recantios Coloniais) e de cicloturismo. Acesse Antônio Prado.
Nova Veneza (SC)
A cidade mais italiana de Santa Catarina tem cerca de 95% de sua população formada por descendentes de italianos. O idioma é inclusive ensinado nas escolas. O turista logo percebe essas influências em suas edificações centenárias, nos inúmeros restaurantes de comidas típicas, que servem massas, pizzas, galetos, polentas, gelatos e vinhos, e nas tradições, como as canções, as danças e até o dialeto falado por boa parte dos moradores, a língua vêneta.
Por volta de 1891, cerca de 400 famílias de Veneza, na Itália, desembarcaram no sul de Santa Catarina, fundando um vilarejo batizado como “Colônia Nuova Venezia”. Hoje, a cidade guarda alguns símbolos venezianos ganhados como presente, como uma gôndola em um lago artificial na praça Humberto Bortoluzzi e uma ponte dos Namorados, inspirada em uma ponte construída em 1936 que servia de ponto de encontro dos casais da época.
A melhor época para visitar a cidade de pouco mais de 13 mil habitantes, localizada ao sul de Santa Catarina, é em junho, durante seus eventos mais populares: a Festa da Gastronomia Italiana, na segunda quinzena, quando também se comemora a emancipação da cidade, e o Carnevale di Venezia, quando as pessoas saem às ruas com trajes coloridos e mascarados ao som de marchinhas italianas. Há, ainda, desfiles de blocos temáticos e carros alegóricos na rua dos Imigrantes, no centro. Acesse Nova Veneza.
Pedrinhas Paulista (SP)
A cidade paulista com pouco mais de 3.000 habitantes tem um apelido curioso: “Roma Brasileira”. O motivo não é apenas a influência dos imigrantes italianos, que se instalaram na região do Vale do Paranapanema por volta de 1952, mas pelas inúmeras construções inspiradas no estilo romano, como a Câmara Municipal, a prefeitura, o Cine Teatro, o Museu dos Pioneiros, a Igreja de São Donato e o Sino Cinquentenário. Alguns atrativos fazem referência mais explícita, como a praça Roma, com sua Loba Capitolina, e o coliseu.
Pedrinhas Paulista celebra em agosto a tradicional Macarronada de São Donato, sua festa mais popular. A festividade inclui a apresentação de danças típicas italianas, como a tarantela. Recentemente, a cidade começou a diversificar suas atividades turísticas e lançou um Programa de Turismo Rural. Acesse Pedrinhas Paulistas.
Santa Teresa (ES)
De acordo com o portal Imigrantes, criado pelo governo federal, 36.666 pessoas emigraram da Itália para o Espírito Santo até o fim do século XX, oriundos das regiões de Trento, Veneto e Lombardia, localizadas ao norte da Itália. Eles se estabeleceram primeiramente em Santa Leopoldina. Em 26 de junho de 1875, criaram Santa Teresa, hoje reconhecida por lei federal como a primeira cidade fundada por imigrantes italianos no país.
Os imigrantes deixaram sua marca em cada aspecto do lugar, como a Catedral de Santa Teresa de Ávila, a praça Augusto Ruschi, a Casa Lambert, uma das primeiras construções da cidade, o Museu da Cultura e Imigração Italiana e o Memorial Casa do Cedro. Um dos locais em que há perceptível influência italiana é a Coronel Bonfim Júnior, mais conhecida como “rua do Lazer”, espaço cercado de casarões preservados, onde se encontram vários restaurantes que servem produtos típicos da Itália.
Uma pequena capela construída em 1912 por imigrantes italianos é dedicada à Nossa Senhora de Caravaggio e faz parte de um circuito homônimo, de 14 km em chão batido, composto por mais de 30 empreendimentos que oferecem o turismo de experiência. O passeio inclui degustação de espumantes, cachaças e licores, almoços em cantinas, visitas a lojas de artesanato, rampa de voo livre, mirantes, trilhas, visitas à Vinícola Rassele e à fábrica de biscoitos, além do Museu de Biologia Professor Mello Leitão. Acesse Santa Teresa.
São Paulo (SP)
Em seu livro “Do Outro Lado do Atlântico: Um Século de Imigração Italiana no Brasil”, o escritor Angelo Trento conta que, a princípio, a maior parte dos imigrantes italianos veio para o Brasil para trabalhar nas fazendas de café. Como não conseguiam juntar muito dinheiro, foram para os centros urbanos. Em 1901, dos 50 mil trabalhadores das fábricas de São Paulo, 90% deles eram italianos.
Na capital paulista, eles se instalaram nos bairros populares do Brás, Mooca, Lapa, Santa Cecília, Barra Funda e Bixiga. Boa parte dessa história é contada com detalhes no Museu da Imigração, na Mooca. Um roteiro italiano em São Paulo deve passar invariavelmente pelo Bixiga, famoso por abrigar um grande número de cantinas italianas tradicionais. Em agosto, acontece a Festa da Achiropita nas ruas 13 de Maio, São Vicente e Luís Barreto. Durante o ano, são realizadas outras festas, como a de Nossa Senhora de Casaluce e de San Vito, no Brás, e de San Gennaro, na Mooca. Acesse São Paulo.