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Opinião

O capitalismo para 2022

Publicado em: Qua, 26/01/22 - 03h00

É importante iniciar este artigo afirmando que me considero um economista bastante ortodoxo; ou seja, sou contra invencionismos para solucionar problemas econômicos e acredito em teorias fundamentadas e testadas. Ao mesmo tempo me considero um economista com viés liberal clássico, com fundamentações teóricas e empíricas em casos da sociedade, entretanto entendo que o capitalismo possui, de maneira geral, falhas de mercado, e, por isso, o Estado é necessário como agente redistributivo ou reorganizador de falhas para que, de fato, o mercado funcione por meio da oferta e da demanda. 

Ademais, sou bastante crítico à ideia da obra “O Capital no Século XXI”, de Thomas Piketty. A ideia central de Piketty é simples: os ricos ficam mais ricos enquanto os pobres continuam pobres. “O dinheiro tende a se reproduzir”, escreve ele em “O Capital”. De acordo com seu argumento, a desigualdade se expande quando o capital – a combinação de ativos físicos, como terras, fábricas e equipamentos, e ativos financeiros, como lucros, dividendos e juros – cresce mais rápido do que a economia subjacente que o sustenta. Ele argumenta que tais condições se mantiveram no século XIX e prevê que continuarão no século XXI. 

Na última década, Kevin Murphy e Robert Topel, em colaboração com pesquisadores como Gary Becker, ganhador do Nobel de Chicago Booth e outros, deram uma explicação alternativa para a divisão de renda, também baseada no sistema de livre mercado. Seu debate com Piketty é uma batalha de ideias clássicas e, muitas vezes, animadas, mas a pesquisa de Murphy e Topel sugere soluções com as quais, surpreendentemente, até o economista francês pode concordar.

Em seu artigo mais recente sobre desigualdade, Murphy e Topel demonstraram pela primeira vez que, “nos Estados Unidos, o crescimento dos salários de indivíduos pouco qualificados estagnou após meados da década de 70... Enquanto os indivíduos perto do topo da distribuição salarial desfrutaram de um crescimento salarial rápido e sustentado”. Para explicar por que isso aconteceu, eles se concentram no “capital humano”, a combinação de habilidades e treinamento que os indivíduos trazem para o mercado de trabalho. Murphy e Topel argumentam que “os fundamentos do mercado que favorecem os trabalhadores mais qualificados são a força motriz que há por trás do aumento da desigualdade”. 

Esses fundamentos são a oferta e a necessidade básica de que haja trabalhadores qualificados. O crescimento da demanda por mão de obra qualificada excedeu em muito o crescimento do número de trabalhadores qualificados, observam Murphy e Topel, de modo que o preço relativo da mão de obra qualificada aumentou. Resultado: aumento da renda relativa para trabalhadores altamente qualificados; ou seja, apesar de existir um ponto importante na acumulação de riqueza ao longo do tempo, o fator efetivamente determinante para a diminuição da desigualdade é o investimento em educação.

Neste contexto, quando a maior parcela da população passa a se sentir mais pobre, com menos acesso a produtos e serviços do que uma pequena parcela, a causa fundamental disso está no nível educacional e na capacidade produtiva dessa grande maioria da população que de fato tem baixa escolaridade ou capacidade de desenvolvimento inferior aqueles que são apenas 1% mais escolarizados. Não é à toa que, na China, as grandes universidades dos centros urbanos estão formando um conjunto de pessoas que rapidamente ascendem socialmente, enquanto os moradores do interior, com limitado acesso à escolaridade superior, mantêm um nível nitidamente inferior de desenvolvimento e consumo.

É importante lembrar que a desigualdade é, sem dúvidas, o maior desafio a ser resolvido pelo capitalismo no século XXI. Ela é ao mesmo tempo um risco de confiança da população no sistema capitalista como um todo e nas democracias liberais. Entretanto, é importante ressaltar que o capitalismo é dinâmico, ele se adapta, modifica-se e evolui. Foi assim com os descobrimentos, com o fim da escravidão, com o keynesianismo, com o neoliberalismo, com a geoeconomia e hoje com a desigualdade e a revolução verde. Vale ressaltar que essas mudanças não ocorreram sozinhas. Foi necessária uma mudança de concepção por parte dos governos, da academia, das instituições multilaterais e principalmente das sociedades como maneira de convergir interesses e evoluir conjuntamente. 

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