Cristovam Buarque

O monstro da corrupção
Publicado em: Sex, 12/04/19 - 03h00
Fiscalização rigorosa causa grandes filas na entrada do Mané Garrincha

Perto do discreto posto de combustíveis que deu origem ao nome da Lava Jato, está o monumental Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha, ostensivamente visível a quem circula na região. As duas construções estão ligadas pelo título deste marcante livro intitulado “Crime.gov”, dos policiais federais Jorge Pontes e Márcio Anselmo. Enquanto o posto simboliza a operação que desvendou a corrupção envolvendo bilhões de reais, desviados sob a forma de propina, o estádio é o monumento, a prova física, da corrupção. Quando decidi ler “Crime.gov”, achei que seria uma obra sem novidades. Mas ele vai além, ao descrever o momento em que perceberam que estavam diante do pedaço de uma enorme baleia: a moderna corrupção brasileira.

Outros livros descrevem prisões, delações, malas com dinheiro, mas “Crime.gov” mostra o sistema corrupto que se consolidou com comando central e ramificações em enraizada promiscuidade entre políticos e empresários; cobrando e pagando propinas, integrando o braço político e eleitoral com o braço executivo governamental, na definição de obras, agindo aqui e no exterior. “Crime.gov” nos mostra a maldita baleia do Estado corrupto e deve ser divulgado para esclarecer a dimensão dessa tragédia imoral.

O Mané Garrincha ainda seria uma corrupção, mesmo que nenhuma propina fosse desviada para o bolso de políticos. O desperdício de quase R$ 2 bilhões para a construção desse estádio, com sua monumentalidade, para jogos na Copa do Mundo, e praticamente inoperante depois, é roubo de dinheiro público que deveria ter sido usado em saneamento básico para famílias que moram pertinho dele, ou para equipar escolas degradadas, ou melhorar a saúde e a segurança. Independentemente da corrupção no comportamento de políticos propineiros, o Mané Garrincha e centenas de outras obras no Brasil representam a “corrupção nas prioridades” da política inconsequente e descomprometida com os interesses públicos.

Da mesma forma, perto do estádio, o prédio do Ministério Público Federal, apesar de não pesar sobre ele denúncia de “corrupção de comportamento”, e abrigar um serviço fundamental, inclusive na luta pela moralidade pública, representa uma forma de corrupção. Porque o uso de dinheiro público para construir prédios luxuosos representa uma “corrupção da ostentação”, que faz parte da ideia de “Crime.gov”. O uso de mordomias é “corrupção dos privilégios”, que rouba recursos públicos que poderiam atender as necessidades do povo.

O livro “Crime.gov” é uma excelente contribuição para o entendimento da baleia da corrupção no comportamento dos políticos, mas precisamos de outros que mostrem o monstro que caracteriza o sistema público, não apenas político, mas brasileiro nas suas diversas formas de corrupção. A leitura da obra de Jorge Pontes e Márcio Anselmo fica como um excelente livro que nos esclarece, nos horroriza e nos desperta.

(2) comentários

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Nestor Martins Amaral Júnior 4:40 PM Apr 12, 2019
O que dizer da verba indenizatória, criada pelos subversivos em benefício próprio, tão logo eles se apossaram do poder devolvido pelos militares? Aí estão políticos como FHC, Lula, Dilma artistas como Chico Buarque, dentre outros ladrões do erário que se dizem defensores do povo enquanto lhes roubam de forma sutil e perversa. Só Lula recebe a esse título R$45 mil por mês. Outra forma de corrupção é a Constituição corporativa que transfere renda do pobre para o rico protegida por cláusula pétrea.
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Antônio Jair 11:48 AM Apr 12, 2019
Infelizm/e ñ tem juiz no Distrito Federal, tipo machão anticorrupto total como "Dr. Sérgio Moro" ou "Dr. Marcelo Bretas" tomando conta d caso.Se tivesse, estariam na cadeia (s/ direito a habeas corpus d petistas do STF, Gilmar Mendesoltapresos, Ricardo Vergonhowski e/ou Dias Toffoli), todos os envolvidos neste esquema d desvio d milhões d Tesouro Distrital, q estavam no Governo do DF na época, chefiada por PeTralha governador (2011-15) Agnelo Queiroz (hoje c/ 07 processos tramitando na Justiça).
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