Laura Medioli

Aos poucos...
Publicado em: Dom, 21/04/19 - 04h30

Após esgotarem-se todas as possibilidades, Teresa resolveu finalmente deixar pra lá, propondo-se a apagar definitivamente da sua vida um relacionamento de 17 anos, estancar de vez aquela ebulição de sentimentos mesclados num liquidificador de mágoas, carências, afetos, ódio e amor. Permanecer como estava seria uma temeridade, uma completa anulação de si. Embora soubesse que, nem se quisesse, poderia zerar os sentidos. Começar de novo quando as marcas ainda estão expostas é um processo complicado, requer tempo para as cicatrizes.

Um ano inteiro perdido, hibernada no casulo materno, sem forças para reagir. O filho junto, dividindo o espaço com ela e os avós.

A antiga casa vendida “metade sua, metade minha, faça o que bem entender”, disse ele um dia, quando, com as malas na mão, simplesmente saiu. Lembra-se ainda hoje da pontada no estômago, do chão indo embora, a cabeça rodando, tudo em câmera lenta, o silêncio, o medo, a dor...

Através de uma amiga se informou da outra: bonita, jovem (talvez mais jovem do que deveria). Esperta e ingênua – tudo ao mesmo tempo. E foi no shopping, quando saiu para espairecer, que avistou o ex acompanhado da moça loira de cabelos longos. Nada mais doído que vê-los na fila do cinema. Quantas e quantas vezes insistira para assistirem a determinado filme, tão “a sua cara”. E ele, indisposto, pedia que esperasse um pouco, “logo, logo, estará na TV”. Não compreendia que o cinema envolvia todo um ritual, a conversa distraída na entrada, a pipoca enorme junto à Coca-Cola, a saída relaxada discutindo o enredo, momentos gostosos de entretenimento. Depois, a pizzaria, a conversa trivial, o chope gelado. E com uma ponta de tristeza, lembra-se de que há muito isso não fazia parte de sua rotina.

As amigas tentam, em vão, consolá-la, e ela, ansiosa, não se controla. Engorda horrores, sem se preocupar com a desleixada aparência. O pai observa calado, a mãe tenta conversar, incentivar um tratamento, uma análise, sei lá, qualquer coisa que a tire dessa situação de complacente derrota e inércia. “Análise custa caro, o que ganho no trabalho não permite extravagâncias”, costumava se explicar como a justificar o desânimo e a falta do querer.

Até que um dia, ao olhar-se no espelho, assusta-se. Aquela mulher interessante, cheia de vida, simplesmente havia desaparecido. Observa o rosto marcado, a pele seca, os cabelos mal tingidos, a boca sem cor. Como se tudo ali estivesse fora dos parâmetros, do mínimo exigido para sua dignidade.

Difícil o recomeçar. Mas recompor-se era imprescindível. Caminhadas matinais fazem-na sentir-se mais leve, mais viva. Boas leituras, bons filmes, boas companhias... Ausência de conflitos... Voltar a gostar de si.

E ele, nos raros fins de semana, quando vai ao encontro do filho, em pouco tempo percebe a mudança. Ela já não mais se esconde, ocultando fragilidades. Encara-o, consegue até sorrir. Comenta as notas do menino, que, apesar do ambiente carregado, conseguiu sobressair como aluno exemplar. Ele sorri constrangido, afinal, nunca lhe perguntou sobre a escola, vestibular, essas coisas. E se assusta com tamanha ausência. O quão pouco sabia do filho, adolescente cheio de dúvidas, espinhas, inseguranças e carências.

Lembra-se de como era antes, nos almoços de domingo, em que, juntos na cozinha, destruíam tudo numa bagunça homérica e, sob o espanto da mãe, faziam mexidos e macarronadas. Também do futebol na TV, às vezes no campo. Ambos atleticanos. E sente uma pontada de remorso, misturada à saudade de como eram felizes.

Passa a aguardar os fins de semana com ansiedade, na tentativa de recuperar momentos perdidos. Quer saber sobre a escola, garotas, amigos. E nessas idas e vindas, ela também passa a ser uma constante.

– Não se esqueça do agasalho! – grita da janela. “Mudou tanto e não mudou nada”, pensa ele enquanto tratam-se pela primeira vez, após a traumática separação, com certa cordialidade.

A mudança a cada dia torna-se mais visível. No trabalho, acrescida de disposição e vontade, chega a ser promovida. Aceita o convite do colega: “O filme é ótimo!”, diz o amigo no final da sexta-feira e, no sábado, na porta do cinema, se encontram. Sente-se observada e, surpresa, vê o ex acompanhado da garota. Com o coração em descompasso, cumprimenta-o com um leve sorriso. Vira-se de lado, sem deixar de notar a constante presença do olhar que vem de longe.

Com o tempo, percebe que pai e filho se encontram com mais frequência, nas terças, nas quintas e domingos. Não mais buzina na porta. Entra, senta-se na sala, vai à geladeira, se serve de água, cumprimenta a ex-sogra pela torta de maçã – deliciosa como sempre. Vai chegando de mansinho, sem alarde, com saudades...

Aos meus leitores e leitoras, na próxima quarta-feira, dia 24, às 15h, estarei na Academia Mineira de Letras (rua da Bahia, 1.466) para o bate-papo/palestra “Mulheres: Singular e Plural”. A entrada é franca, e será um prazer vê-los por lá.

(3) comentários

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Isa nigri 5:36 PM Apr 21, 2019
Ja imaginei o final feliz!
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Isa nigri 5:35 PM Apr 21, 2019
Adorei! Ja imaginei um final feliz!
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Edgard Pereira Pardinho 11:05 AM Apr 21, 2019
Sou seu fã.Não li todas as suas publicações,mas as que li,gostei muito.Valorizo muito as raízes familiares,e pelo que li,você teve "berço".Sucesso sempre!
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