Paulo Diniz

O Ocidente e a China: um filme sem final feliz à vista

Publicado em: Ter, 09/04/19 - 03h00
Autoridades chinesas estão tentando reequilibrar a economia, reduzindo a dependência das exportações
audima

Lançado em 1988, “O Grande Dragão Branco” teria sido mais um dentre os filmes de ação que marcaram esse período se não tivesse obtido sucesso tão grande. O enredo simples, estrelado pelo belga Jean-Claude van Damme, mostra um lutador norte-americano que se aventura pelo submundo das competições clandestinas de Hong Kong, onde se depara com adversários mais cruéis do que poderia imaginar. Socos e pontapés à parte, o personagem de Van Damme acaba alcançando sua redenção pessoal, porém apenas após realizar uma radical mudança cultural: o lutador absorve filosofias de vida e métodos de luta próprios do Oriente, tornando-se apto para derrotar seus adversários com as próprias armas desses.

Roteiros de cinema, sobretudo aqueles que fazem sucesso, são produto imediato do momento em que foram criados. No caso da saga descrita acima, está evidente o impacto do choque cultural derivado da invasão dos mercados ocidentais por produtos japoneses durante a década de 1980. Mais modernas, baratas e resistentes, as exportações japonesas – sobretudo de veículos e itens eletrônicos – deixaram de joelhos as tradicionais marcas industriais dos Estados Unidos e Europa Ocidental, levando muitas dessas à falência. Afinal, era difícil convencer os consumidores exigentes desses países a comprar produtos ultrapassados e mais caros, apenas usando o nacionalismo como argumento.

A solução, como se percebe pelo enredo do filme, veio a partir da absorção da nova cultura, que tanto desafiava os ocidentais. Houve significativa abertura para a compreensão da forma como os japoneses organizavam suas empresas, encaravam mercados e tratavam seus clientes – em larga escala, isso se traduziu também na curiosidade para se compreender as visões coletivas de política e sociedade que predominavam no Japão. Algumas décadas depois, temos os sistemas produtivos ocidentais já bastante marcados pelo aprendizado dos anos 1980: como o lutador interpretado por van Damme, a superação dos desafios veio da absorção de elementos da cultura do adversário.

Entretanto, hoje o desafiante que vem do Oriente não é mais o Japão, mas sim a China. É curioso observar que não há a mesma disposição no Ocidente para a compreensão e aproximação dos modelos de produção e organização social chineses: talvez por se tratar de um caso raro de controle estatal sobre a economia, a política e até a vida privada de todo um país, o que confronta alguns valores básicos da cultura ocidental atual.

A relação entre a China e as principais potências do Ocidente, por isso, oscila do estranhamento à tensão já há alguns anos, sem que se possa identificar sinais de algum tipo de convergência futura. Nem mesmo a internet, que tem contribuído para disseminar culturas e aproximar diferentes povos ao redor do mundo, consegue romper esse ciclo de distanciamento: afinal, a China possui sua própria versão da rede, isolada de todo o restante.

Por enquanto, o grande dilema que vive hoje o Ocidente não caminha para um final feliz, como nos filmes.

 

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