Paulo Diniz

Os sonhos que envelhecem

Publicado em: Ter, 12/03/19 - 03h00
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A biblioteca da Fundação João Pinheiro (FJP) tem uma peculiaridade em relação às suas congêneres de outras instituições de ensino superior: além do acervo de livros, possui uma grande quantidade de projetos de políticas públicas, voltados para Minas Gerais, sendo que alguns datam de mais de quatro décadas. Para o leitor que se interessa pela gestão pública, esse conjunto de projetos representa muito: fonte de ideias, inspiração para novas abordagens de problemas que persistem há gerações, referência sobre as tentativas e os erros que já aconteceram no passado, entre outras perspectivas técnicas.

Há também, entretanto, uma leitura humana que pode ser feita sobre tais projetos: cada um deles representa uma esperança de que o Estado adotasse novas práticas e, por consequência, o povo mineiro pudesse receber serviços de melhor qualidade. Quem pensa que não há beleza no mundo do planejamento público se engana, pois as prateleiras da biblioteca da FJP guardam ideias tão belas quanto as melodias do Clube da Esquina, compostas pelos poetas quase anônimos da burocracia mineira.

Nesse grande arquivo de projetos, nem todos os autores que sonharam em melhorar a vida do povo mineiro tiveram a chance de colocar suas ideias em prática. Muitos são os projetos que morreram ao nascerem, indo da concepção direto para as prateleiras do esquecimento quase completo. Assim, onde há poesia, também há tristeza: como estariam hoje Minas e seu povo se dezenas de bons projetos tivessem tido a chance de serem implementados?

O acaso escolheu, ao longo dos anos, quais seriam os planos colocados em prática. As teorias da gestão pública têm fórmulas refinadas para explicar esse processo seletivo. Mas, simplificando bastante o funcionamento das engrenagens burocráticas e políticas, temos mesmo apenas o cruel acaso.

Por exemplo, quando um governo busca os mais capazes para compor sua equipe técnica, é o acaso que determina aqueles que serão encontrados. Afinal, não há como manter a competência técnica como critério maior, quando se combinam outros fatores como confiança, referências pessoais influentes, compartilhamento de valores e linguagens profissionais, além da rede de contatos pessoais. Mesmo informais, alguns desses fatores não podem ser simplesmente esquecidos pelos ocupantes do poder. Assim, não basta ter em mãos os melhores projetos ou a capacidade de executá-los, é indispensável estar também no “lugar e hora certos”, munido da conjunção adequada de contatos pessoais e institucionais, para que se tenha uma chance junto ao poder.

Talvez não exista fórmula capaz de vencer o “poderoso acaso” na escolha das pessoas e projetos que terão chance numa gestão estadual. Afinal, organizações humanas padecem dos mesmos vícios dos indivíduos, e não há razões para que o Estado se enquadre como exceção a essa regra. Nas prateleiras da FJP, mausoléu de bons projetos e nobres intenções, muitos sonhos de uma Minas melhor envelhecem há décadas, contradizendo um dos mais belos versos do Clube da Esquina.

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