Paulo Diniz

PT sem rumo escuta um Lula sem novidades

Publicado em: Ter, 07/05/19 - 03h00
audima

O ano de 2018 passou sobre o PT como um caminhão sem freios. O curioso é que isso nada tem a ver com os resultados eleitorais de outubro último: nas urnas, o PT conseguiu obter a maior bancada da Câmara dos Deputados, elegeu quatro senadores e três governadores, além de ter ido ao segundo turno presidencial com um candidato desconhecido e sem carisma – feitos dignos de inveja. Tampouco a operação Lava Jato foi responsável por abater tanto o partido no ano passado.

Na verdade, o mal que vitima o PT é a perda de sua racionalidade, de sua razão de ser, de sua lógica interna. Sem consistência em seus ideais, o PT divide esforços, deixa de ser convincente e acaba ofuscado por todos os demais partidos de esquerda que, durante os anos de bonança, se abrigaram sob suas generosas asas.

Um episódio recente é capaz de ilustrar o quão perdidos estão corações e mentes dos petistas: durante alguns dias, os petistas se animaram efusivamente com a troca de farpas, via redes sociais, entre o presidente Jair Bolsonaro e o ator José de Abreu. Voltando de suas férias na Grécia, Abreu foi recebido por uma multidão no aeroporto e, declarando-se presidente, escalou os ministros de seu governo alternativo direto de uma mesa de bar. A euforia se esvaneceu rapidamente, e os petistas logo voltaram para uma longa e infrutífera campanha pela libertação de Lula.

Ao contrário do que muitos poderiam pensar, tirar Lula da prisão não é um objetivo que unifica e incendeia o partido. O caso de Lula se desenrola, há anos, em centenas de complicadas chicanas processuais, a ponto de muitas vezes, ser difícil compreender se o ex-presidente ganhou ou perdeu com a decisão da vez. Enquanto parte da militância petista tenta entender os resultados que saem da Justiça Federal em Curitiba, Brasília, Porto Alegre e Rio de Janeiro, além das decisões individuais e colegiadas do STJ e do STF, os políticos eleitos pelo partido vivem outro dilema. Querem construir suas bases pessoais de apoio para conduzir seus mandatos da melhor maneira possível e, dentro de dois ou quatro anos, buscarem se reeleger.

A questão é que, mesmo antes da prisão de Lula, o PT já se encontrava sem rumo. A gradual transformação de um partido orgânico e plural na extensão institucional de seu líder, conduzida pelo próprio Lula a partir de 2003, foi gerando dissidências e ressentimentos que, muitas vezes, nem os benefícios de se estar no poder conseguiam aliviar.

Dividido e sem ideias que orientassem militância e lideranças: foi assim que o PT recebeu a recente entrevista concedida por Lula, a primeira após um ano de isolamento. Sem nenhuma palavra, ideia ou orientação novas, Lula apenas difundiu sua imagem. Com isso, levou lenha aos setores petistas que abraçaram seu culto personalista, enfraquecendo as lideranças que buscavam caminhos alternativos, seja para o partido ou para seus próprios mandatos.

Quem não tem direção nunca chegará a lugar nenhum. Por mais que ainda tenha força nas urnas, o PT não tem porto seguro no horizonte.

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