Siga-nos nas redes sociais:

Ricardo Corrêa

Editor de Política de O TEMPO e escreve neste espaço diariamente

Política em Anáilse

PSDB trai Doria e vê que problema não era ele

Publicado em: Ter, 24/05/22 - 11h19
Na coluna Política em Análise, o editor-chefe de O TEMPO em Brasília, Ricardo Corrêa, fala sobre a desistência de João Doria e a disputa no PSDB. | Foto:

Foi preciso que o PSDB traísse o ex-governador de São Paulo João Doria para descobrir que o problema que atravanca a terceira via e, sobretudo, a definição sobre o futuro do partido não era ele. Após a desistência forçada de seu pré-candidato, os tucanos viram que o acordo para levar a legenda a apoiar a candidatura de Simone Tebet (MDB) não é tão simples assim e que há alas da sigla dispostas a dificultar qualquer entendimento que possa levar a uma unificação desse grupo de partidos que se colocam como oposição tanto a Lula quanto a Bolsonaro.

Mas antes de chegar nesse ponto, é preciso recapitular a saga de Doria até sua desistência. Aventado como provável nome ao Palácio do Planalto desde que chegou ao governo paulista, Doria nunca deixou de trabalhar pela candidatura, até que em meados do ano passado começou a sofrer pressões que visavam sua substituição por Eduardo Leite, então governador do Rio Grande do Sul. Após muito resistir, Doria aceitou participar de prévias e venceu a disputa. Os adversários de seu nome nunca aceitaram a posição dos filiados e, alegando que sua rejeição era muito alta, continuaram insistindo para que ele desistisse da disputa. Até que, acuado, na madrugada do dia 30 de março de 2022, João Doria tomou uma decisão e anunciou aos tucanos: desistiria da candidatura presidencial e ficaria no governo de São Paulo, implodindo as chances de vitória do vice, Rodrigo Garcia, que já estava pronto para assumir o seu lugar e concorrer como candidato à reeleição. Foi quando diversos líderes da sigla entraram em campo para fazê-lo mudar de ideia. Apoios públicos foram dados e uma carta foi assinada pelo presidente da legenda, Bruno Araújo, prometendo que ele poderia renunciar que seria o candidato a presidente da legenda. Doria renunciou e, um dia depois, já recomeçava o processo que visava sabotar sua candidatura.

O descumprimento de compromissos públicos e a traição ao principal nome da legenda no país custará caro ao PSDB. Será uma mancha para sempre na história do partido. Mesmo assim, grupos que defendem a unificação com o MDB em apoio a Simone Tebet acham que valeria o desgaste. Afinal, enxergam, corretamente, que a terceira via só teria uma remota chance na disputa se tivesse unida. Ocorre que, uma vez traído João Doria, o PSDB descobriu que o problema não era ele. Que a rejeição ao seu nome cultivada na oposição à esquerda e no rompimento com Bolsonaro após ser eleito ao lado dele, era a desculpa perfeita, mas não o que de fato impedia o PSDB de entrar pra valer na disputa presidencial.

Na complicada matemática da terceira via operada por alas tucanas, a saída de um dos dois candidatos gerou um resultado diferente de um. Imediatamente após o anúncio de Doria surgem especulações e defesas públicas dos nomes de Eduardo Leite (ele de novo) e Tasso Jereissati. Pressões enfáticas por candidatura própria.

Há de fato quem o faça por real interesse de que um nome da legenda, diferente de Doria, ajude a impulsionar o voto na bancada ou as pouco competitivas candidaturas aos governos nos Estados. Mas há também uma sabotagem operada por aliados de Lula e, principalmente, Bolsonaro, que tentam atravancar a vida da terceira via corroendo os acordos dentro das legendas que compõem essa discussão. Isso se deu no União Brasil, que acabou saindo do grupo após embates no grupo do DEM - que não queria briga com Lula para não prejudicar ACM Neto na Bahia -, no MDB - que tem diversas figuras do Nordeste apoiando publicamente o petista - e também acontece no PSDB, onde um grupo age nos bastidores para minar qualquer nome e favorecer Jair Bolsonaro. Às sombras, esse grupo trabalha por acordos para manter cargos relevantes no Congresso e apoio velado do Executivo.

Em meio à briga interna e eterna, o PSDB desmarcou a reunião da Executiva Nacional prevista para esta terça-feira (24). A essa altura, Simone Tebet já havia dito publicamente que esperava o anúncio oficial de apoio dos tucanos e do Cidadania (que estão federados à legenda de Bruno Araújo) para esta mesma data. Parece que não vai acontecer.

Se após muita briga o PSDB acabar por fechar com Simone Tebet, terá tirado do cargo seus dois governadores mais importantes, em São Paulo e no Rio Grande do Sul, para não ter candidato. Terá atrasado ao máximo a articulação da terceira via, afugentado aliados, aniquilado chances em Estados importantes e reduzido fortemente a chance de eleger uma bancada expressiva. Se fizesse tudo certo, o PSDB ainda assim teria enormes dificuldades de sobreviver em um cenário de polarização entre lulismo e bolsonarismo, que deve varrer os votos do centro das urnas nas eleições de outubro, tornando as bancadas não alinhadas aos dois menores do que são hoje. Em uma tática de autoextermínio, o destino tanto do PSDB quanto da terceira via é sombrio. Cedo ou tarde o preço desses erros ficará caro demais para pagar.

---

O TEMPO reforça o compromisso com o jornalismo mineiro, profissional e de qualidade. Nossa redação produz diariamente informação responsável e que você pode confiar.

Siga O TEMPO no Facebook, no Twitter e no Instagram. Ajude a aumentar a nossa comunidade.