Na arquibancada, a agressão é contínua. Um ciclo vicioso que não tem fim. Reverbera. Um constrangedor sentimento para um continente - a América do Sul - , que possui uma dívida incalculável com a população africana. Afinal de contas, o tráfico negreiro foi responsável pelo deslocamento forçado de 12,5 milhões de pessoas da África, sendo que um terço foi para a América Portuguesa. Simplesmente o maior deslocamento involuntário de pessoas durante toda a história. Quando se pensa em evolução como sociedade, os campos de futebol deveriam abrigar todas as raças. 

Leia a parte 2 da matéria: Colonização, eurocentrismo e o futebol: o racismo na Argentina em análise 

Deveriam. Mas não o fazem. Pelas arquibancadas sul-americanas, o que se vive é uma tragédia. Uma mácula que escancara a realidade do racismo estrutural de um continente construído com sangue e exploração. Os Libertadores que no fundo são Aprisionadores.

A edição 2022 da principal competição de clubes da América do Sul, a Copa Libertadores, chegou a registrar cinco episódios de injúria racial em um espaço de 15 dias. Até o fim do mês passado, incluindo também a Copa Sul-Americana, foram incríveis 10 episódios de racismo direcionados a torcedores brasileiros.

Três destes episódios envolveram injúrias raciais a corintianos em partidas contra o Boca Juniors. Números grotescos que fizeram a Conmebol se mover em sua inércia e tirar as vendas que tapavam os olhares de seu Comitê Disciplinar. Anteriormente, a penalização para casos de racismo era de US$ 30 mil, o que contribuía para certas situações inusitadas, como a do próprio Corinthians, que foi mais penalizado em multas por questões operacionais, desembolsando US$ 63 mil, do que o Estudiantes, da Argentina, punido em US$ 30 mil por atos racistas de seus torcedores na partida contra o Red Bull Bragantino, no dia 26 de abril, em solo argentino.

No olho do furacão, após a pressão dos clubes brasileiros. a Conmebol alterou suas normas e definiu sanções mais pesadas contra atos de discriminação “por motivação de cor de pele, raça, sexo ou orientação sexual, etnia, idioma, credo ou origem”.

A famigerada multa de US$ 30 mil foi modificada para US$ 100 mil e agora o Comitê Disciplinar pode punir os clubes com fechamento parcial do estádio ou até partidas sem torcida. Era evidente que a punição branda incentivava a impunidade. 

"Até 2021, as punições eram US$ 30 mil e eram poucas penalizações, por mais que a gente falasse de vários outros casos, o Observatório mostrasse, dados que a imprensa vêm trazendo, eram poucos os casos que chegavam até a Conmebol e poucos casos que a entidade punia. A mudança em 2022 é porque existe uma pressão muito grande dos clubes brasileiros, da CBF, dos patrocinadores e aí a Conmebol está mudando o comportamento", destacou Marcelo Carvalho, fundador e atual diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol. 

"Uma ressalva importante, no Brasil, o STJD aponta 'vou julgar o caso tal e tal' e aí o caso será julgado, a data da audiência é divulgada. Existe um rito. Na Conmebol isso não existe. Ela informa o resultado do que ela julgou. Então, muitas vezes, não se tem notícia do que foi decidido nos casos dos anos anteriores. Não sabemos se a Conmebol julgou ou não julgou. Não só para casos de racismo, mas para qualquer infração. Eles não dão esse tipo de explicação. Simplesmente ela se reúne com seu comitê disciplinar, julga e depois informa o resultado", acrescentou Marcelo, em contato com O TEMPO Sports.  

O racismo na América Latina: contexto histórico 

A formação da América Latina guarda suas peculiaridades. Destaca-se a postura de teóricos e estudiosos da região que ligavam o atraso dos países do bloco à uma 'América enferma' por sua miscigenação Entre o final do século 19 e o início do século 20, as teorias racistas se intensificaram com o desenvolvimento científico. Durante este período, houve inclusive uma tentativa de promover uma 'limpeza racial' no continente, incentivando a importação de imigrantes europeus e o retorno de descendentes africanos à África.

A literatura médica ganhou espaço neste período e dentre os nomes defensores desta 'purificação racial' estava o médico eugenista brasileiro Renato Kehl, que encarava a miscigenção racial como a motivação para a degeneração dos brasileiros, prejudicando o processo de desenvolvimento do país. Kehl defendia leis severas que estabelecessem as condições para a entrada de imigrantes no Brasil, além da esterilização e do controle matrimonial. 

O positivismo florescente na América Latina também neste período histórico aprofundou as diferenças raciais na região, com os índios, negros e mestiços sendo associados à ideia de crise e fracasso frente ao progresso, como aponta os autores Patricia Funes e Waldo Ansaldi, no artigo “Patologías y rechazos. El racismo como factor constitutivo de la legitimidad política del orden oligárquico y la cultura política latinoamericana”. Os vários teóricos da época, como o peruano Francisco García Calderón, apresentavam como solução para “o problema das raças” a intensa imigração europeia. Para Calderón, sem a contribuição de uma população “nova” (branca) a América cairia em um irreversível e lamentável estado de barbárie.

A visão purificadora é umas das heranças malditas das tensões raciais no continente. Um branqueamento forçado que encontrou morada entre os intelectuais latino-americanos como a solução para sanar a 'enfermidade' do bloco.  

Relembre 5 episódios de racismo no futebol sul-americano nesta temporada 

Millonarios-COL x Fluminense - Pré-Libertadores 

As injúrias raciais começaram ainda na fase preliminar da Copa Libertadores, quando o Fluminense foi até Bogotá, na Colômbia, e venceu o Millonarios por 2 a 1. Naquela ocasião, em uma página do TikTok da torcida do time rival, circulou um vídeo dos jogadores do Flu sendo xingados de 'macacos, macaquinhos da favela'. O Millonarios não foi punido, assim como os torcedores envolvidos no episódio. 

River Plate-ARG x Fortaleza - 2ª rodada da fase de grupos 

O Fortaleza foi até o Monumental de Núñez enfrentar o poderoso River Plate de Marcelo Gallardo. O time cearense acabou não levando a melhor no confronto, sendo derrotada por 2 a 0. Presentes no estádio, os torcedores do Leão do Pici foram vítimas de racismo. Um torcedor do River foi flagrado atirando bananas em direção aos brasileiros. A Conmebol decidiu punir o time argentino pelo caso em R$ 150 mil. O 'hincha' responsável por atirar bananas foi suspenso por seis meses do direito de comparecer aos jogos do River, além de passar por um curso especializado. 

Disgusting scenes in the Libertadores tonight; A River Plate fan threw a banana at Fortaleza fans.

Will you do anything about this @CONMEBOL ? Probably not 😂pic.twitter.com/nvHpPLTSLU

— Brasil Football 🇧🇷 (@BrasilEdition) April 14, 2022

Estudiantes x Bragantino - 3ª rodada da fase de grupos 

Em mais um caso deplorável, os torcedores do Massa Bruta foram alvos de ataques racistas na derrota do Red Bull Bragantino para o Estudiantes por 2 a 0. Os brasileiros foram alvos de gestos e insultos raciais, além de um vídeo mostrar torcedores do Estudiantes se dirigindo aos gritos de 'mono', que é macaco em espanhol, aos brasileiros. Ao Estudiantes foi aplicado à multa máxima, à época, da Conmebol: US$ 30 mil. 

- Racismo hacia 20 personas llegadas desde Brasil para ver a su equipo, Bragantino, jugando en UNO y 57, raro que @Libertadores no haya emitido una sanción... En otros casos similares lo hicieron 🤷🏻🤦🏻 lamentable... todo lo que no queremos ser... pic.twitter.com/z8nKUwztfR

— unlobonapolitano (@lobonapolitano) June 7, 2022

Corinthians x Boca Juniors - Fase de grupos e oitavas de final 

O Corinthians venceu o Boca por 2 a 0 na NeoQuímica Arena, em São Paulo. Um torcedor do Boca foi preso após ser flagrado imitando um macaco em provocação aos torcedores do clube paulista. Ele pagou fiança após o episódio e foi liberado pela polícia brasileira. Lamentavelmente, o mesmo torcedor argentino foi às redes sociais ironizar o ocorrido, novamente utilizando-se de um ataque racista ao aplicar um emoji de macaco à sua postagem e a frase 'Aqui não aconteceu nada'. Os ataques racistas nos duelos entre Corinthians e Boca se estenderam aos outros confrontos, com casos sendo relatados na partida da volta, ainda pela fase de grupos, no dia 17 de maio, em La Bombonera. 

Mais um episódio de racismo em estádios de futebol aconteceu ontem à noite durante a partida entre Corinthians e Boca Juniors pela Libertadores. Torcedor argentino foi flagrado imitando um macaco, denunciado e preso por racismo durante o intervalo da partida na Arena Corinthians. pic.twitter.com/j1G4Yj7Rbq

— A Grande Verdade (@agrande_verdade) April 27, 2022

Pelos incidentes na Argentina, o Tribunal de Disciplina da Conmebol puniu com multa de US$ 100 mil (R$ 525 mil, à época) o Boca Juniors por atos racistas de seus torcedores. O time argentino, no entanto, não perdeu mando de campo. Um novo episódio na Arena Corinthians, pelo jogo de ida das oitavas de final, quando um torcedor argentino foi visto imitando um macaco, sendo detido pela Polícia ainda no primeiro tempo. O Boca fez uma campanha para que os seus torcedores não fizessem tais gestos na partida da volta, em Buenos Aires, jogo que terminou com a classificação corintiana nos pênaltis. 

Independiente-ARG x Ceará - 6ª rodada da fase de grupos 

Mais um ato de racismo vindo de argentinos contra brasileiros. Dessa vez, um torcedor do Independiente fazendo essa atrocidade para a torcida do Ceará. pic.twitter.com/gPJzVOxLUv

— Junior Venezi (@iAmVenezi) May 26, 2022

Pela Copa Sul-Americana, torcedores do Ceará foram vítimas de gestos racistas da torcida do Independiente, que imitou macacos na vitória do time nordestino por 2 a 0. A Conmebol decidiu punir a equipe argentina com a aplicação da mesma pena máxima dada ao Boca Juniors, a multa de US$ 100 mil. Porém, mais uma vez, a penalização de perda de mando ou jogo com portões fechados não foi aplicada. 

Palmeiras e Flamengo também alvos 

Mais racismo na Libertadores… Dessa vez, racismo da torcida da Universidad Católica à torcida do Flamengo. Já teve também contra o Corinthians, Fortaleza, Palmeiras e Red Bull Bragantino.

E aí, @Libertadores, cadê as atitudes e ações? Ou não vai fazer nada de novo? pic.twitter.com/1rmYhoXhzc

— Joao Victor Del Rio (@jvdelrio98) April 29, 2022

Episódios de racismo também foram relatados em jogos de Palmeiras e Flamengo na atual edição da Libertadores. No caso do Verdão, o caso aconteceu no Equador, em uma vitória brasileira por 3 a 1, ainda na fase de grupos. Um torcedor do Emelec foi flagrado nas arquibancadas chamando os brasileiros de macacos. O caso aconteceu um dia depois do primeiro incidente envolvendo o Corinthians na Libertadores. Já no caso do Flamengo, o episódio foi no Chile, em uma vitória sobre a Universidad Católica por 3 a 1, também pela fase de grupos. Há o registro de um torcedor chileno imitando um macaco para provocar os flamenguistas.