A maioria dos casos de racismo velado a brasileiros nas competições sul-americanas têm como centro a Argentina. Aspectos característicos da formação do povo argentino e o colonialismo reforçam esta identidade europeia, abominando qualquer estereótipo que não se enquadre dentro deste perfil. No ano passado, o presidente argentino Alberto Fernández deu uma desastrosa declaração em encontro com o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez. 

"Os mexicanos vieram dos índigenas, os brasileiros das selvas e nós, chegamos em barcos que vinham da Europa", disse Fernández, remetendo-se a uma canção do roqueiro argentino Litto Nebbia, de 1982. 

A música em questão era uma ironia ao mito eurocêntrico da formação do povo argentino, já que Litto posteriormente fala sobre a diversidade. Todavia é sempre presente na Argentina a discussão sobre a identidade do povo local. Destaca-se dentro dos estudos sobre a constituição da sociedade argentina o autor Domingos Faustino Sarmiento, que inclusive chegou a ser presidente do país em 1868. Dentre seus escritos está o livro 'Civilização e Bárbarie', que trazia em conceitos a ideia de que 'o argentino é um europeu nascido na América'. 

Inspirado no modelo de desenvolvimento dos Estados Unidos, Sarmiento acreditava que a miscigenação foi a pior herança pela Espanha e Portugal, já que teria feito prevalecer 'raças' na região incapazes de serem civilizadas. Em contrapartida, a colonização inglesa na América do Norte não admitiu a incorporação indígena, propiciando que as colônias, quando iniciaram o processo de independência, fossem capazes de manter suas tradições cristãs graças à pureza da raça europeia. Sarmiento então incentiva a imigração, acreditando que o progresso só viria com uma população de matriz europeia. 

Leia mais: Racismo é o adversário: a tragédia sem fim nos campos sul-americanos e nacionais

Alguns pontos são importantes. A região sul do continente sul-americano, onde está a Argentina, não recebeu a mesma proporção de escravos que o Brasil, por exemplo. Estudiosos apontam que 200 mil foram levados à região, mas eles eram consideráveis, chegando, inclusive, a ocupar metade da população em algumas cidades.

Mas o processo de imigração europeia para a região entre o fim do século 19 e o início do século 20, mudou o panorama. Foram quase 7 milhões de imigrantes espanhóis e italianos. O que se verificou no país foi um processo de embraquecimento e apagamento das suas raízes africanas e indígenas. Porém, uma pesquisa da Universidade de Brasília, realizada em 2008, apontou que 31% dos argentinos atuais possuem origem índigena e 9% origem afrodescendente. 

Mas é preciso salientar que os brasileiros não estão isentos a esse discurso, como retrata Adilson Moreira, Doutor em Direito e autor do livro “Racismo Recreativo”. 

"Os argentinos desenvolveram o mito da pureza e da homogeneidade racial como elemento da identidade nacional, e disso desprezam e fazem chacotas dos brasileiros. Já os brasileiros brancos, por outro lado, desenvolveram estas práticas, sendo abertamente racistas, mas sustentados pela piada, pelo ambiente, pelo comportamento coletivo", pontuou o docente.

O que dizem os jornalistas esportivos argentinos sobre os casos de racismo no país? 

O TEMPO Sports conversou com jornalistas argentinos que discutiram o tema, trazendo à tona a visão que possuem dos sucessivos episódios, como destacou Javier Lanza, editor de esportes do A24.com.  

"O racismo é desprezível em todas as suas formas e a Argentina não está isenta dele. Isso é demonstrado pelos repetidos eventos que ocorreram com as equipes argentinas nesta edição da Copa Libertadores. Eu acho que o torcedor se esconde atrás do fato de que tudo acontece em campo para trazer à tona seus instintos mais baixos e é por isso que os eventos que eles se arrependem mais tarde acontecem", lamentou o jornalista argentino. 

Para Javier Lanza, o racismo na Argentina é uma questão cultural. Mas o profissional de imprensa espera que as novas gerações consigam romper com essa sucessiva cadeia de ataques e agressões. Ele também criticou as punições impostas pela Conmebol. 

"Na Argentina, os casos de racismo nesta Copa Libertadores foram relatados e os rostos dos racistas foram mostrados. Apontá-los como uma exceção seria hipócrita. Nenhum país está longe desses fatos. As punições econômicas da Conmebol são um band-aid para estancar o sangramento. O racismo é uma questão cultural, não algo relacionado apenas ao futebol", declarou Lanza. 

"Só que no futebol tem mais importância pelo alcance que alcança. Espero e acredito que as novas gerações, que não têm tantos mandatos culturais nas costas e vivem a vida com menos preconceitos, sejam as que realmente farão do racismo um "caso isolado" e não a representação de o que uma parte da sociedade pensa dentro de um partido", finalizou o jornalista. 

Quem também debateu o tema em contato com O TEMPO Sports foi o jornalista Nahuel Lanzillota, do diário Clarín. Para o profissional de imprensa, é preciso ressaltar que os responsáveis pelas injúrias raciais são uma mínima parcela de um todo que frequenta os estádios do país. 

"São casos lamentáveis que seguem acontecendo, seguem existindo. Também é muito difícil controlar o torcedor. Nos estádios temos públicos de 50, 60 mil torcedores, e sempre vai existir um, dois, cinco que fazem um gesto, discriminem. E isso é lamentável porque reflete a sociedade também. A grande maioria da sociedade se comporta bem, mas sempre vai ter uma mínima parte que é racista. Eu creio que os estádios são o espelho da sociedade e é sempre isso que acontece, dois ou três que atrapalham a festa. Não quero dizer que isso está certo. Pelo contrário. As sanções estão acontecendo", observou Nahuel. 

O jornalista do Clarín destacou a importância da imprensa e também da tecnologia para a exposição e consequente punição destes episódios. Nahuel também trouxe ao debate outras situações que ele, como observador, acredita que possam ser passíveis de punições dentro do futebol sul-americano.  

"Hoje em dia, com as câmeras, os smartphones, com a ajuda da tecnologia é possível detectar estes casos. É necessário que isso seja exposto, que a imprensa seja também a que expõe e a que o torcedor se dê conta de que estes gestos racistas serão expostos e que sanções acontecerão, seja perda de mando, a impossibilidade deles irem ao estádio, penas econômicas. Mas é preciso destacar também que todo o tipo de violência e agressão, preconceito e outras situações que vemos dentro de um estádio de futebol precisam ser coibidas, como os cânticos homofóbicos das torcidas", apontou o jornalista argentino. 

As 'hinchadas' e o machismo

O que Nahuel destacou em sua fala é algo que vem sendo debatido entre teóricos que acompanham o futebol argentino. Para muitos, além dos fatores históricos, o que sustenta o comportamento discriminatório das 'hinchadas' argentinas é o machismo. 

Os cantos discriminatórios estão presentes em quase todos os jogos de futebol e em todos os campos do país, com níveis variados e também repercussões díspares. Assim, ficam registrados discursos homofóbicos, antissemitas, xenófobos, racistas, classistas, além de infindáveis ​​ofensas e insultos que, embora muitas vezes não ultrapassem os limites do confronto dialético, às vezes levam a atos de violência física, confrontos armados e até mesmo assassinatos, como apontou recentemente Julián Martinez, integrante do Observatório da Discriminação no Esporte, em artigo na revista 'Inclusive 4'. 

"As campanhas de conscientização que visam combater a discriminação e a violência neste esporte não devem perder de vista aquele núcleo de onde emergem todos os slogans discriminatórios e ofensivos, que não é mais do que a masculinidade hegemónica e as formas concretas que assume no contexto do futebol. Erradicar, ou pelo menos reduzir, as manifestações violentas (verbais e físicas) inevitavelmente caminhará de mãos dadas com o questionamento daqueles comportamentos que a sociedade tem apresentado aos homens como desejáveis ​​e esperados", escreveu Julián. 

Os questionamentos apresentados por Julián Martinez não são uma exclusividade apenas do futebol argentino, mas, sim, de toda uma estrutura social que fez dos campos um lugar excludente, de racismo, xenofobia, misoginia, antissemitismo e outras agressões. Os agentes que fazem parte do jogo precisam se impor e combater o 'vale tudo' que macula os campos e transformar esta realidade, mesmo que de forma lenta, é uma obrigação. Enquanto condutas forem normalizadas por jogadores, instituições, torcedores e imprensa, não será possível dizer que o futebol é um lugar para todos.