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Alta do custo de vida leva muitas mães ao desespero no Reino Unido

A crise aumentou a pressão sobre os 2.500 bancos de alimentos do país, muito frequentados pelos britânicos mais desfavorecidos

Por Agências
Publicado em 26 de janeiro de 2023 | 11:22
 
 
 

No frio do inverno, Beautine Wester-Okiya caminha entre caixas de roupas de bebê doadas para os moradores de Hackney, um bairro do leste de Londres, onde a alta dos preços está causando um quadro de pobreza extrema difícil de imaginar em um país ocidental desenvolvido. "Nunca vi nada assim na minha vida aqui no Reino Unido", diz Wester-Okiya, que chegou da Malásia há 40 anos. 

A situação de penúria vivida por alguns moradores desse bairro popular da rica capital britânica se repete cerca de 140 quilômetros mais ao norte, em Coventry, cidade do centro da Inglaterra. 

Em um enorme depósito, funcionários da ONG Feed the Hungry embalam alimentos de emergência não apenas para crianças da Nicarágua, da Ucrânia e da África, mas também para famílias que vivem a alguns quilômetros de distância. 

O Reino Unido está sofrendo sua maior alta de preços — de combustível e calefação a alimentos e moradia — em décadas. 

A crise aumentou a pressão sobre os 2.500 bancos de alimentos do país, muito frequentados pelos britânicos mais desfavorecidos, para que ofereçam outros serviços, como roupas de bebê, ou assistência para a solicitação de benefícios sociais.

'Mães arrasadas'

"Temos mães suicidas (...) temos filhos que acabam de superar a pandemia para terem de enfrentar essa terrível crise de custo de vida", desabafou Wester-Okiya. "Mães arrasadas, lares arrasados, famílias arrasadas. As mães estão deprimidas, os filhos choram o tempo todo", relata ela. 

Há dois anos e meio, o Hackney Children and Baby Bank coordena a ajuda. A instituição enfrentou situações, como a dos migrantes que chegavam sem nada e refugiados ucranianos sem-teto. Agora, porém, muitos dos que precisam de sua ajuda são britânicos que nunca passaram por tantas dificuldades financeiras.

"Não estamos mais falando apenas de imigrantes, estamos falando de pessoas de classe média que precisam vender suas casas, pessoas como professores", diz Wester-Okiya. 

Diante do agravamento da crise, o banco do bebê ampliou sua ação para atender crianças maiores. A demanda por produtos de higiene pessoal é especialmente alta.

"Uma adolescente de 14 anos escreveu um poema terrível sobre o assédio que sofre por não poder se lavar", recorda ela. 

A menina contou que sua mãe cortava um sabonete em quatro e dava um pedacinho para cada membro da família. 

A próxima refeição

Em Coventry, uma cidade que já abrigou uma próspera indústria automobilística, a fome levou Hannah Simpson, uma mãe solo com quatro filhos, a visitar um banco de alimentos pela primeira vez. 

Esta mãe de 29 anos, cujo filho mais novo tem um ano, pula suas refeições para que os pequenos possam comer. Essa escolha cobra seu preço, deixando-a "esgotada".

“Tento esconder deles as minhas dificuldades (...) mas a minha filha disse outro dia na escola: 'estou preocupada, porque a mãe não está jantando com a gente, e não tem comida suficiente para todo mundo'”, explica. 

“É muito estresse. Tenho quatro filhos para cuidar e me preocupo onde vou fazer a próxima refeição”, desabafa.

Buscando ajudar as pessoas a sobreviverem no longo prazo, a organização Feed the Hungry, que administra os 14 bancos de alimentos da cidade, está desenvolvendo um projeto para ensiná-los a cozinhar, aproveitando ao máximo o que têm. 

'Venderam tudo'

Outro projeto oferece a possibilidade de comprar por 5 libras (US$ 6) alimentos no valor de 25 libras (US$ 31), dando às pessoas alguma “dignidade”, além de ajudá-las a lidar com a solicitação de benefícios sociais.

"Funciona. O único problema é que a demanda excede em muito o que podemos oferecer", lamenta o gerente de projeto da Pathfinder, Hugh McNeill.

As pessoas que chegam às suas instalações “não têm qualquer resiliência financeira. Já pediram empréstimos e venderam tudo”, explica. “Podem percorrer todo o país, e a situação é exatamente a mesma em todas as cidades e povoados”, garante. 

Wester-Okiya também vê o sonho de construir resiliência ainda distante. "Meu telefone não para nunca", afirma, agitando um smartphone que vibra constantemente com pedidos de ajuda. "O ano passado foi terrível, mas temo pelos próximos três meses", acrescenta.

(AFP)                
 

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