História tenebrosa

Avião usado em 'voos da morte' da ditadura retorna à Argentina

Três Mães da Praça de Maio e duas freiras foram jogadas vivas ao mar de dentro desta aeronave, que não vai mais voar e será exibido como 'testemunho da crueldade'

Por Agências
Publicado em 24 de junho de 2023 | 19:24
 
 
 

O avião Skyvan PA-51, usado em 1977 para lançar vivas ao mar três Mães de Praça de Maio e duas freiras francesas em um dos "voos da morte", foi recebido neste sábado, em Buenos Aires, por um grupo emocionado de parentes de vítimas da ditadura.

"O avião é algo tenebroso para nós, mas, tendo o identificado e encontrado, não podemos permitir que siga voando", disse à AFP Mabel Careaga, uma das responsáveis pela repatriação do aparelho que pertenceu a Prefeitura Naval, para ser exibido como testemunho da crueldade da ditadura (1976 - 1983).

Na última década, o avião permaneceu nos Estados Unidos, em uma empresa que o usava em voos de paraquedismo.

A aeronave aterrissou na noite de sexta-feira (23) em Tucumán e seguiu viagem até Buenos Aires, onde parentes de vítimas o receberam neste sábado (24), em meio a abraços e emoção. Um ato oficial está previsto para a próxima segunda-feira (26).

Mabel Careaga é filha de Esther Ballestrino, que foi lançada ao mar deste avião militar junto com as também fundadoras da organização Mães da Praça de Maio, Azucena Villaflor e María Ponce, as religiosas francesas Alice Domon e Léonie Duquet e outros sete ativistas em um voo realizado na noite de 14 de dezembro de 1977, segundo a reconstituição judicial.

"É horrível demais imaginar minha mãe ali", assinalou Careaga, que, ao lado de Cecilia de Vicenti, de 62 anos e filha de Azucena, quer que o aparato fique em exposição no prédio da Escola de Mecânica da Marinha, antigo centro clandestino de detenção por onde passaram cerca de 5.000 presos e que hoje é o Museu de Memória ExESMA, em Buenos Aires.

A iniciativa tem o apoio do governo, mas foi rejeitada por algumas organizações de direitos humanos, que preferem "não fazer show da morte". "O avião faz parte da história, que é dolorosa, mas é preciso contá-la", opinou De Vicenti.

Cerca de 30.000 pessoas desapareceram durante a ditadura argentina, segundo grupos de defesa dos direitos humanos. Os aviões Skyvan realizaram mais de 200 voos noturnos suspeitos entre 1976 e 1978, segundo os registros da Prefeitura Naval. Também houve voos das outras forças militares. (AFP)

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