Sicília

Dinastia do crime: mulheres assumem liderança em máfia italiana

Mulheres muitas vezes invisíveis, mas que desempenham um papel central na máfia siciliana

Por Agências
Publicado em 12 de março de 2023 | 17:08
 
 
 
normal

Assim como Rosalia, recentemente presa perto de Palermo, no sul da Itália, elas administram a rotina diária, repassam instruções e até ordenam assassinatos. Mulheres muitas vezes invisíveis, mas que desempenham um papel central na máfia siciliana.

Durante muito tempo, as mulheres associadas à Cosa Nostra, a máfia siciliana, nasciam para ficar viúvas, representadas no cinema como madonas dignas e dolorosas de véu negro conduzindo cortejos fúnebres.

No entanto, a realidade é mais complexa e a prisão em 3 de março de Rosalia Messina Denaro escancara o lugar ativo que muitas delas ocupam hoje no crime organizado, especialmente quando os homens estão escondidos, presos ou mortos.

Esta "madrinha" de 67 anos é descrita pela promotoria de Palermo como uma mulher de tradições "totalmente imersas em uma cultura mafiosa ortodoxa e granítica".

Irmã de Matteo Messina Denaro, o último padrinho da Cosa Nostra preso em meados de janeiro após 30 anos foragido, foi por causa dela, e apesar dela, que o homem mais procurado da Itália acabou preso.

Pessoa de confiança 

Rosalia, apelidada de "Rosetta", era a encarregada de transmitir os "pizzini", os pequenos textos manuscritos que passam de mão em mão e no qual estão detalhadas as ordens aos sócios ou mensagens pessoais.

"Somos perseguidos como canalhas, tratados como se não pertencêssemos à raça humana. Somos uma etnia que buscam erradicar", escreveu Matteo Messina Denaro em um dos papéis encontrados na casa de Rosalia pelos investigadores, segundo a ordem de captura da promotoria de Palermo, à qual a AFP teve acesso.

Em outra mensagem é possível ver o saldo mensal do "caixa" familiar alimentado com atividades ilícitas, e usado para pagar despesas diárias, alimentação dos detidos e despesas judiciais: "Saldo final novembro de 2011 - 81.970 euros".

Para Matteo Messina Denaro, condenado à revelia em 2000 à prisão perpétua por assassinatos e em 2020 pelo ataque ao juiz antimáfia Giovanni Falcone em 1992, as instruções eram claras: essas mensagens deveriam ser queimadas depois de lidas. Mas Rosalia às vezes preferia escondê-las a destruí-las.

Em dezembro de 2022, agentes da polícia entraram secretamente na casa da sexagenária em Castelvetrano, reduto da família, para instalar microfones e câmeras escondidos. Ao descobrir a perna oca de uma cadeira, encontraram dentro de um daqueles "pizzini" uma espécie de diário médico detalhando os cuidados prestados a um homem com câncer. O nome do paciente usado no bilhete, porém, era falso.

Convencidos de que o paciente era o padrinho foragido, os policiais seguiram as pistas e o prenderam pouco mais de um mês depois. Rosalia, que passou 30 anos de sua existência escondendo o irmão, acabou traindo-o sem querer.

"Durante décadas ela foi seu ponto de referência econômico e sua pessoa de absoluta confiança", disse a promotoria de Palermo. Ao gerir os assuntos do dia a dia, Rosalia "possibilitou à Cosa Nostra manter um chefe forte (...), o último assassino ainda livre, cuja fuga continuou a alimentar a lenda".

Dinastia do crime 

Rosalia, mas também suas irmãs mais novas Anna Patrizia, Giovanna e Bice, são filhas, irmãs e esposas de mafiosos. Seu filho está preso e a filha, advogada, é responsável pela defesa do tio. Foi assim que os Messina Denaro construíram uma dinastia do crime, na qual Rosalia era o braço operacional.

Ele assumiu o comando quando Anna Patrizia foi presa, condenada a 14 anos de prisão em 2018. Na época, Rosalia era encarregada de cobrar o dinheiro das extorsões e defender os interesses de seu irmão dentro da Cosa Nostra.

Embora o pertencimento a uma máfia seja sacramentado pelo rito do juramento, reservado aos homens, isso não impede que algumas mulheres desempenhem um papel fundamental na organização, aponta à AFP Federico Varese, sociólogo de Oxford. Algumas chegam "quase ao nível de padrinho".

E mesmo que suas mãos não estejam diretamente manchadas de sangue (salvo em alguns casos excepcionais), as mulheres da Cosa Nostra não são consideradas pelas autoridades como simples substitutas.

"Até a década de 1990, a ideia era que as mulheres não deveriam ser condenadas. Foram os magistrados e, paradoxalmente, as feministas, que disseram que isso era uma abordagem machista", aponta Federico Varese. (AFP)

Notícias exclusivas e ilimitadas

O TEMPO reforça o compromisso com o jornalismo profissional e de qualidade.

Nossa redação produz diariamente informação responsável e que você pode confiar. Fique bem informado!