Violência

Gangues armadas no Haiti levam missionárias do Brasil a encerrarem ação no país

Dados da ONU mostram que, entre janeiro e março, o número de homicídios no Haiti aumentou 21% em relação ao trimestre anterior (815 ante 673)


Publicado em 29 de abril de 2023 | 14:37
 
 
 
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O plano inicial, ao chegar ao Haiti em 2014, era ficar três anos. Mas a missão foi se prolongando, de modo que, quando teve de sair às pressas do país em fevereiro passado, a irmã Ideneide Rego, 56, já atuava havia nove anos junto a crianças e idosos haitianos.

"A princípio, parecia que o Haiti tinha conseguido caminhar com suas próprias pernas", relata ela sobre seus meses iniciais morando na ilha caribenha. Na época, quatro anos após um terremoto deixar mais de 220 mil mortos, militares brasileiros ainda lideravam uma missão de paz da ONU no país —a Minustah.

De lá para cá, tudo se agravou —em especial a partir de 2021, quando o assassinato do presidente Jovenel Moïse levou a um vácuo no poder. A violência de gangues armadas, um desafio crônico, imperou. E literalmente bateu às portas da missionária brasileira.

Num sábado de janeiro, o bairro no qual Rego e outra missionária moravam, na capital Porto Príncipe, foi tomado por uma das gangues locais, e a casa delas foi invadida. Os primeiros homens chegaram durante a tarde, e horas depois, já à noite, veio um novo grupo.

"Eles têm armas poderosíssimas. Reviraram tudo, pegaram nosso dinheiro, nossos pertences e computadores, mas escondemos os telefones dentro dos produtos de limpeza", conta Rego. "Eles ficaram cerca de uma hora e meia com a gente, apontando o revólver. De vez em quando, o líder deles ligava para saber quanto já tinham arrecadado."

Vizinhos acudiram as missionárias após a invasão, ajudando-as a embalar seus pertences em sacos e a transportá-los até um local seguro. Mas o episódio violento tornou inviável o trabalho missionário intercongregacional, liderado pela Conferência dos Religiosos e pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

As missionárias partiram então para a República Dominicana, país que divide com o Haiti a ilha de Hispaniola e serve de passagem para a maioria das pessoas que deseja deixar o território —para o Brasil, por exemplo, não há mais voos diretos.

Rego já planejava deixar o Haiti em meados deste ano. O objetivo, porém, era ceder seu posto a outras missionárias, o que não deve mais acontecer. De todo modo, a maneira como tudo ocorreu, um "interrompimento tão brusco", em suas palavras, tornou o distanciamento muito pior.
"É muito triste e doloroso saber o quanto nos esforçamos, quantas vidas o projeto salvou e, de repente, acabou tudo. Enquanto o Haiti estiver nessa situação, não tem condição. Se não tiver uma intervenção internacional, o Haiti jamais vai conseguir se levantar."

Em Porto Príncipe, as missionárias lideravam uma gama de projetos. Num deles, ensinavam bordados a mulheres, em especial às jovens, para que tivessem algum meio de ganhar dinheiro e assim não sucumbissem à prostituição. Uma vez por mês, faziam atividades com idosos.
Mas eram crianças e gestantes os grupos sociais mais beneficiados. As irmãs buscavam garantir a nutrição de 64 crianças. "A questão da fome é muito desumana lá. É um grito que ecoa aos céus. Há muitas crianças com desnutrição severa. Usávamos farinha enriquecida e, em alguns casos, também ajudávamos as famílias."

Havia ainda um projeto de reforço escolar com cerca de 70 crianças em que a alimentação também era peça-chave. "Muitas delas diziam que comiam até sexta-feira, porque no sábado e no domingo não tinham comida em casa. Algumas, de cinco ou seis anos, não comiam toda a comida: levavam a vasilha para partilhá-la com quem ficava em casa."

De volta ao Brasil, Rego ficou por alguns meses em Belo Horizonte até partir para a casa dos pais, em Teresina, no Piauí, de onde falou com a reportagem. Ela segue fazendo terapia, e sua próxima missão já está definida. Seu rumo em breve é Petrolina, no estado de Pernambuco.
Do Brasil, ela ainda recebe notícias que geram angústia. Na última semana, soube de um adolescente que ela tinha conhecido aos nove anos e que agora, aos 16, desapareceu após ser levado pela polícia. "Quando o conhecemos, ele nunca tinha ido para a escola. Tinha problemas de dicção, e o ajudamos com aulas de reforço."

Sem representantes eleitos e com instituições de Estado falidas, o Haiti não conta nem sequer com forças de segurança. Em 1995, o país desfez suas Forças Armadas. O que restou foi uma polícia nacional com baixos efetivos e pouco controle das fronteiras, diz Ricardo Seitenfus, ex-representante da OEA (Organização dos Estados Americanos) no país.

Em 2017, Jovenel Moïse iniciou um plano para reestruturar as Forças Armadas, mas a tarefa foi meramente "pro forma", diz Seitenfus, um dos maiores especialistas no país. Ele afirma que o Exército "tem pouquíssimos integrantes e não dispõe de treinamento ou equipamentos".

Na última semana, o secretário-geral da ONU, o português António Guterres, disse que a situação haitiana pode ser comparada a de um país que está efetivamente em guerra. "O grande número de mortes e o aumento da área controlada por gangues armadas fazem com que a insegurança na capital atinja níveis comparáveis aos de países em situação de conflito armado", declarou ele.

Dados da ONU mostram que, entre janeiro e março, o número de homicídios no país aumentou 21% em relação ao trimestre anterior (815 ante 673), e o número de sequestros subiu 63% (637 ante 391).

A impressão popular de que as armas se proliferam no país se sustenta também nos números. Um estudo do instituto suíço Small Arms Survey mostrou que, se a quantidade estimada de armas civis no país era de 270 mil em 2019, em 2022 ele saltou para 600 mil.

Enquanto o debate sobre a situação haitiana ocupa um lugar marginal nos fóruns internacionais, cresce o temor de quais soluções podem ser postas em prática pelo governo do premiê Ariel Henry. Papéis do Pentágono  vazados recentemente mostraram que o grupo mercenário russo Wagner, que atua na Guerra da Ucrânia e em países do Sahel e já foi acusado de violar os direitos humanos diversas vezes, sonda Porto Príncipe.

Para Seitenfus, o Brasil, em um momento de reestruturação de sua política externa, não deveria ser omisso. Com o conhecimento acumulado dos anos de missão militar e humanitária no Haiti, Brasília deveria atuar com maior ênfase no debate sobre o país. "Temos aqui, na nossa porta, chamando por uma ajuda, um país com o qual convivemos durante 13 anos. E agora simplesmente fechamos os olhos."  (Folhapress)

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