Literatura

Marco de 20 anos da Guerra do Iraque inspira reedição de 'Diário de Bagdá'

Ainda sem título, a publicação busca dar conta do que a invasão representou para o Iraque e para a geopolítica global

Por Agências
Publicado em 19 de março de 2023 | 14:55
 
 
 

A Guerra do Iraque não tinha completado um ano quando o livro "Diário de Bagdá" foi lançado, ainda em 2003.

A obra do repórter Sérgio Dávila, hoje diretor de Redação da Folha, e do fotógrafo Juca Varella apresenta a cobertura dos primeiros 30 dias do conflito para este jornal, o único veículo brasileiro a enviar jornalistas ao solo iraquiano naquele momento.

No marco de duas décadas do conflito, completado nesta segunda-feira (20), o livro dá origem a um novo projeto, a ser lançado nos próximos meses pela DBA, mesma editora do original.

Mais do que uma reimpressão, a ideia é adicionar uma camada de reflexão à edição original --cujos textos originais, segundo Dávila, foram escritos "a quente", ainda sob a adrenalina de mísseis e bombas, nas semanas após o retorno para casa.

"Passados 20 anos, sabe-se muito mais sobre o conflito do que naquele momento", diz o jornalista. A começar pelo fato de que a justificativa dada para a invasão pelo então presidente norte-americano George W. Bush --de que o ditador do país, Saddam Hussein, escondia armas de destruição em massa no território-- nunca foi comprovada.

Ainda sem título, o novo livro busca dar conta do que a invasão liderada pelos americanos representou para o Iraque e para a geopolítica mundial duas décadas depois.

Para isso, acrescenta um relato da volta de Dávila e Varella a Bagdá em 2013 por ocasião dos dez anos do início do conflito; textos de Varella sobre suas idas ao país em 2005 e 2010, quando ele participou da cobertura das eleições locais; e dois ensaios inéditos de Dávila.

O retorno à capital iraquiana em 2013, também em cobertura para a Folha, é citado por ambos como uma experiência que, de certa forma, obscureceu a percepção de que a ocupação ocidental poderia resultar em um sistema melhor do que a ditadura sangrenta vigente antes da invasão.

Ao fugir de Bagdá pela Expressway 1, que liga a cidade à fronteira com a Jordânia, em abril de 2003, Dávila e Varella conjecturavam se, ao voltar à rodovia dali a algum tempo, não se deparariam com uma estrada cheia de lanchonetes McDonald's e shopping centers como resultado da ocupação americana.

Uma década depois, no entanto, encontraram a capital iraquiana tão ou mais perigosa do que na época da guerra. Em 2013, homens-bomba explodiam em pontos espalhados pela cidade como antes faziam os mísseis lançados pela coalizão ocidental. "A diferença é que o perigo vinha do céu durante o conflito e, dez anos depois, vinha de quem estava do seu lado", lembra Dávila.

"Em 2013, encontramos um país ainda tentando se reconstruir daquela destruição de 2003, tanto física quanto moralmente", afirma Varella, hoje editor de Fotografia na Empresa Brasileira de Comunicação (EBC).

Para Dávila, os dez anos que se passaram desde aquela viagem até 2022 só confirmaram seus temores de então. A solução propagandeada pelos EUA para o Iraque, da instauração de uma democracia nos moldes ocidentais, nunca foi realizada de fato. E o vácuo de poder subsequente à invasão permitiu a ascensão do Estado Islâmico (EI), autor de muitos ataques terroristas perpetuados no Oriente Médio e no Ocidente ao longo das últimas décadas.

Segundo o publisher da DBA, Alexandre Dórea Ribeiro, a intenção é tornar o novo livro mais acessível. Com capa dura, a versão anterior tinha um preço alto para o momento em que foi lançado.

(CLARA BALBI | FOLHAPRESS)

 

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