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Fernando Fabbrini

Planeta Dinamarca (parte 2)

Na Dinamarca existe um programa nos mesmos moldes do nosso 'Cidade Alerta'

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PUBLICADO EM 06/12/18 - 03h00

Terminei a crônica da semana passada contando sobre a TV infantil na Dinamarca. Mas vocês sabiam que lá também existe um programa nos mesmos moldes do nosso “Cidade Alerta”, de conteúdo policial e sensacionalista? É a diversão favorita de meu genro, porque para nós, brasileiros, parece um programa de humor. Vamos ao roteiro.

Noite, rua escura. Um carro de polícia está estacionado. Música instrumental de suspense ao fundo, como de praxe. Tchan! Tchan! Tchan... Um ciclista emerge da bruma e é abordado por dois oficiais. Seguindo o padrão dos programas do gênero, o rosto do ciclista é desfocado, preservando sua privacidade. Ouve-se um tenso diálogo entre o cidadão e a autoridade. Liberado pelos policiais, o ciclista vai embora após alguns minutos. Corta para o mesmo oficial, agora sentado à sua mesa de trabalho, na delegacia. Paternal, fala para a câmera:

– Noites com neblina podem ser perigosas. Você corre mais risco de ser atropelado por um automóvel! Por isso, jamais se esqueça de usar sua lanterna traseira e o colete refletivo...!

Outro episódio relatando transgressão de alto risco naquele país perigoso: uma jovem é gentilmente advertida pelo guarda por ter atravessado a avenida fora da faixa de pedestre e com sinal fechado. Música de suspense ao fundo. Detalhe: avenida deserta. Nada de automóvel, ônibus, moto, nem uma mísera bicicleta num raio de um quilômetro. Não é uma maravilha a cidade alerta desse jeito?

A bicicleta é o veículo do país. São milhares pilotadas por estudantes, donas de casa, velhos e velhinhas, crianças, senhoras elegantíssimas de chapéu e executivos de terno. As ciclovias correm paralelamente às calçadas, e o turista precisa ficar esperto para não invadir a via onipresente e ser atropelado por um ciclista mais apressado. Nos trens e metrôs há vagões especiais para bicicletas, como também para cachorros e carrinhos de bebê. Alguns estacionamentos, como o da estação central de Copenhage, incluem vários andares com milhares delas empilhadas. Ninguém mexe na bicicleta do outro, claro.

No voo de conexão para Copenhage duas senhoras simpáticas, com traços esquimós (“inuits”), puxaram conversa. Difícil, no início. Com calma identifiquei que era inglês, mas com sotaque de leões-marinhos. A saída foi recorrer àquele idioma universal que envolve gestos de “sim” e “não”, indicações no mapa e desenhos num guardanapo. Surpresa globalizada: vinham de uma temporada em Goiás; parte de um grupo que visitara o médium João de Deus. Continuando o papo, descobri serem elas pescadoras profissionais residentes nos cafundós da Groenlândia. Fizeram questão de me mostrar a foto do barco; ambas no convés, cercadas de gelo – e só de camisetas. Adoraram o Brasil, mas reclamaram do nosso “calor insuportável” da primavera: 22°C, em média.

– Uf! Very hot! – diziam, sorridentes, simulando um leque com as mãos.

Em geral o povo é gentil e conversador, contrariando a imagem fria e reservada dos nórdicos. Em 406 ilhas, a Dinamarca abriga uma população quase igual à da região metropolitana de Belo Horizonte, num território equivalente ao do Estado do Rio. Já o consumo diário de cervejas deve bater, com folga, o dos botecos de BH num mês. São maravilhosas. Cerveja sempre acompanha um “smorrebrod”, prato nacional, um sanduíche aberto em que empilham fatias de salmão, atum, legumes, saladas, molhos deliciosos e complementos não identificáveis.

Finalmente, torça para não sofrer com nariz entupido e necessitar de um Vick Vaporub, como aconteceu comigo. A marca inesquecível da nossa infância não existe por lá, nunca ouviram falar. Atencioso ao extremo, o pobre farmacêutico só conseguia associar “Vick” a “viking”. Agradeci, segurando o riso. Muito obrigado, não quero levar um viking pra casa. Preferi trazer as lembranças de um planeta onde os habitantes não são verdes nem têm antenas; são pessoas como nós. Porém, aprenderam a colocar o espírito comunitário acima de tudo – sem safadezas, maracutaias e roubalheiras. Foi este meu suvenir mais valioso.

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