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Vittorio Medioli

As conspirações eleitorais

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PUBLICADO EM 29/04/18 - 04h30

Analisando o noticiário político mineiro de final de janeiro e o de agora, no final de abril, encontraremos paisagens que de mornas e plácidas se transformaram num mar revolto. 

É só o começo de um instável momento em que valores políticos e morais se desintegram, ao fim de um ciclo que já deu seu cacho de frutos.

Em janeiro ainda procuravam-se alianças com gestos amenos e conciliatórios. As aproximações se davam com extrema largueza e bondades recíprocas. No palco desfilavam os candidatos em potencial, se encontravam para um sentir o pulso do outro mantendo a máscara e os mimos: “Se você for candidato, eu retiro a minha candidatura...”, outros: “Eu, candidato? Nunca”. Posições que exigiam doses abundantes de óleo de peroba. As conversas introduziam ameaças veladas, críticas indiretas, questionavam “ingenuamente” fragilidades de adversários. Ninguém ousava rasgar o ventre de outro para colocar as entranhas ao sol. Ninguém era visto definitivamente como adversário, e poderia vir a ser um aliado importante.

Mesmo quem tem fraca memória lembra que apenas em janeiro Aécio Neves aparecia como candidato a senador, embora nos bastidores não tivesse se despojado da candidatura a presidente. Último a compreender o tamanho do desgaste que já corroía seu majestoso patrimônio de 2014. Poucos apostavam que poderia recuar, no mínimo, de uma candidatura à reeleição para o Senado. Agora seu partido não o quer nem candidato a deputado.

O senador Antonio Anastasia rodeava o noticiário como apoiador de uma aliança com o DEM, tendo Rodrigo Pacheco ao governo de Minas e Rodrigo Maia a presidente. Não sobrou Rodrigo algum. O próprio Anastasia, que até 15 de abril jurava de pés juntos encerrar a carreira ao término de seu mandato senatorial, passou a se articular diretamente para governador com Alckmin para presidente. Confirma-se a regra válida de que o ex-PFL, e agora DEM, está para o PSDB, como o PCdoB sempre esteve para o PT. Quer dizer, sigla atrelada e complementar.

Por falar em PCdoB, aparecia consagrado o nome da deputada Jô Moraes para compor a coligação do PT de Fernando Pimentel, preenchendo uma vaga para o Senado. Mas isso até a ex-presidente Dilma Rousseff transferir seu título do Rio Grande do Sul, já que lá, onde se enraizou desde o retorno de Leonel Brizola na década de 80, não se viabilizaria para o Senado.

Tem mais, o tamanho de Dilma apertou mais ainda o concorrido espaço para os quatro cargos majoritários de Minas, divididos entre dois senadores, governador e vice.

O governador Fernando Pimentel se mantinha quase apático e distante da cena, acenava a possibilidade de sair do cargo para se candidatar ao Senado com possibilidade de 99% de sucesso. Mais ainda abrindo a raia para a esposa, Carolina, disputar uma vaga à Câmara dos Deputados. Assim deixando o abacaxi de governo, que ainda não conseguiu descascar, para um sucessor afinado que o prestigiasse. 

Entretanto, se ele pensava assim, o PT não conseguia enxergar a renúncia ao latifúndio de cargos e benesses alcançados nos últimos três anos. Pimentel tem que se manter no governo, ponto final.

Detonada a ponte para um plano B, chegou-se ao dia 7 de abril, prazo fatal para deixar o governo, com festa do PT, pois Pimentel terá apenas duas hipóteses: ser candidato ao governo ou a nada, e como nada é muito pouco, será a governador. O Rubicão foi ultrapassado.

O MDB vivia dividido entre dois grupos, o do presidente da Assembleia, Adalclever Lopes, que anulou dissabores e dificuldades de Pimentel erguendo-se a “maior” aliado do governo, e o de Antônio Andrade, vice-governador, que, ao estilo Michel Temer, sempre sonhou em ocupar a cadeira do titular. 

A síndrome conspiratória em Minas esteve presente como em Brasília. Se lá logrou êxito, com o apoio imprescindível do PSDB mineiro, aqui Adalclever (presidente da Assembleia) freou o processo até a última quinta-feira, quando o pedido foi lido em plenário por um ex-tucano, Lafayette de Andrada, que anunciou, com beneplácito do MDB, o presidente da comissão processante, Gustavo Corrêa, do DEM, notoriamente costurado ao PSDB.

Pimentel na hora fatídica permitiu que os dois grupos do MDB se reconciliassem, não por amor, mas pelo alinhamento planetário de seus interesses. De Antônio Andrade, de assumir o governo no segundo semestre deste ano, e do grupo de Adalclever, de lançar uma candidatura própria. Ao que tudo indica, do próprio Adalclever.

Nisso se reproduz a situação que levou Dilma por pedaladas fiscais a perder o trono. Apesar de se declarar surpreso e estranho, o PSDB é o mentor e principal beneficiário, com Anastasia fora desse imbróglio que tomará a cena caso não seja apagado de imediato.

Rodrigo Pacheco, que parecia a novidade, migrando para o DEM e com o ex-articulador Anastasia se firmando candidato, se eclipsou.

Costante e inarredável continua Marcio Lacerda, tentando juntar aliados para encorpar seu comboio, mas a situação de janeiro não se modificou.

O quadro se fez bastante crítico para Pimentel, pois sem plano B, C e D, com uma gestão financeira persistentemente desastrada (por causas que seguramente o antecederam e não encontraram enfrentamento adequado), passa pelo pesadelo do isolamento que o PT tinha quebrado exatamente com ele (depois de inúmeras derrotas em Minas). 

Outros potenciais candidatos como Alexandre Kalil, que encabeçava uma lista de virtuais prefeitos como candidatos, desapareceram da cena, depois do prazo fatal de desincompatibilização, que não aproveitaram em 7 de abril.

As hipóteses de uma reconciliação do MDB com PT começam a ficar mais raras com o alinhamento de Adalclever e de Andrade – um assumindo de imediato em caso de cassação e o outro ampliando suas possibilidades de ser candidato a governador com apoio do governo nas mãos do correligionário.

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