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Vittorio Medioli

O mecanismo

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PUBLICADO EM 22/07/18 - 03h00

A perda de prestígio e de rumo do Brasil tem nomes. Sem citar os pecadores, o que despertaria polêmica, vamos aos pecados, para que, revelados, ao menos se atenuem.

A verdade vos libertará. Exatamente a verdade tem que ser mostrada sem paixão nem torcida. Doa a quem doer, para que depois não doa por quatro anos a milhões de ingênuos e inocentes.

Quase sempre um governante em Minas ou no Planalto, antes de assumir, se fez preceder de acordos e compromissos fisiológicos, negócios espúrios com financiadores, partidos e grupos que atuam e se locupletam na esfera pública. Perde-se aí a possibilidade de dar certo. Deixa-se o Estado refém dos favores de campanha e de retribuir acordos lesivos ao interesse difuso e popular.

A visão “negocial” da política impõe ao eleito “comprometido” transformar-se em tomador de conta do galinheiro para dar livre acesso às raposas. O acerto precisa ser “honrado”, devolvendo centenas de vezes mais o que foi financiado na campanha. Assim, quem manda não é bem o eleito, mas os financiadores, os partidos, aqueles que, depois, ditam as decisões. Os exemplos abundam nas revelações da operação Lava Jato. Interessante, embora romanceada, a série “O Mecanismo” da rede Netflix. Dá uma ideia de Brasil. 

No ambiente luxurioso e aloprado de mordomias e esbanjamentos com o dinheiro público, chafurdam figuras que, na vida real e competitiva, teriam lugar de chapéu na mão nas escadarias de uma igreja. A política se transformou numa transgressão quase permanente. Política não é mais o que significa, “o modo e a arte de convivência na comunidade”. Serve, sobretudo, ao mecanismo para explorar a ingenuidade da população e, assim, engordar a si com aquilo que se retira dela. A roda gira a favor do constitucionalmente incorreto.

O mal que esgarça como lâmina a economia da nação se expandiu tão rapidamente, atingindo um aspecto monstruoso que envergonha o Brasil e sua gente, que faz milhões sonharem em sair daqui, como se sai de um pesadelo.

Os governos são entregues a incompetentes cujo maior compromisso é serem fiéis às regras do mecanismo, não interessa a experiência e a competência.

Paradoxalmente, chegou-se até a figura do ministro laranja, aquele que se presta a encobrir a ação delituosa de partidos. O único predicado necessário é saber ler, escrever e acima de tudo manter aberta a porta do galinheiro.

Nota-se que as pequenas obras, talvez as mais necessárias à qualidade de vida da população e que são imprescindíveis garantias de educação e saúde são menosprezadas, justamente por estarem ao alcance de milhões de empresas competitivas e trabalharem sem margem de desvios. Gasta-se despudoradamente o valor de mil unidades básicas de saúde, que atenderiam 12 milhões de cidadãos a vida toda, pelo estádio que hospedou apenas três jogos da Copa do Mundo e ficou, depois, às moscas.

Quando um governo é deixado refém, tem que ceder ao financiador, ao partido, ao bandido.

As regras eleitorais desta eleição foram aprovadas para cercear a livre escolha, via o artificialismo, para exploradores manterem-se onde estão: no poder.

Uma pesquisa divulgada recentemente que estimulou o entrevistado a escolher entre os principais candidatos ao governo de Estado de Minas revelou a definição de apenas 43% do eleitorado, com 57% decidido anão votar. Assusta. Mais ainda a rejeição dos mais citados nas intenções de votos. Isso mostra, em geral, que prevalece antipatia, e não admiração.

Quer dizer, a avalanche de votos nulos e brancos é hoje superior ao volume de intenções da soma de votos de todos os candidatos. Isso pode levar a eleição a ser decidida em favor de um candidato com mais de 50% de rejeição.

Seguindo adiante na análise, entende-se o risco de ingovernabilidade do próximo eleito, já que este assumirá sem respaldo da maioria, mas apenas em decorrência da maior fraqueza do adversário que passar de turno.

A eleição está “sem propostas”, ancorada aos defeitos alheios. Que governo teremos? Insustentável e sem apoio para tomar as medidas necessárias para que o Estado se recupere?

A campanha será marcada, como já é em grande parte, por personalismo, acertos de bastidores, alianças, falta de programas e, ainda, presença de velhas figuras que retornarão a seus lugares sem levar a responsabilidade de compromissos claros. Sem planos, sem apontar quadros competentes. Teremos uma campanha inútil.
Valerá ter uma cota menor de defeitos para vencer. E isso será lamentável.

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