Opinião: Mariana Ximenes dá força e delicadeza ao recomeço de Dora em Quem Ama Cuida.
Há um cuidado particular na maneira como Mariana Ximenes acompanha as mudanças de Dora em Quem Ama Cuida. A personagem precisa rever o casamento, enfrentar descobertas dolorosas e encontrar espaço para uma nova relação. São movimentos que a atriz desenvolve com atenção às hesitações, preservando o vínculo entre a mulher que sofreu e aquela que começa a decidir por si. Mariana é minha segunda escolha entre as atrizes dos Melhores do Ano de 2026 pela sensibilidade com que dá continuidade a esse percurso. Sua interpretação faz perceber o esforço envolvido em mudar uma vida que, durante muito tempo, pareceu definida.
Dora ganha profundidade na convivência entre sentimentos que nem sempre apontam na mesma direção. O desejo de seguir adiante carrega insegurança; a disposição para enfrentar o marido ainda traz marcas da decepção. Mariana permite que essas contradições apareçam sem precisar sublinhar cada uma delas. Há clareza no que a personagem sente, mas também espaço para o espectador reconhecer aquilo que ela ainda não consegue organizar. Essa atenção às respostas incompletas, às pausas e à dificuldade de tomar uma decisão dá credibilidade ao amadurecimento de Dora.
A parceria com Henrique Barreira é parte importante desse resultado. No romance com André, Mariana constrói uma intimidade que depende da atenção ao colega. Os olhares, a aproximação e o tempo das respostas ajudam a estabelecer uma relação em que os dois personagens têm presença. A química se sustenta nessa reciprocidade. Dora encontra a possibilidade de experimentar o desejo enquanto lida com o receio de se envolver novamente. A atriz mantém esses sentimentos em contato, dando às cenas de amor a delicadeza de uma descoberta e as dúvidas de quem já conhece a decepção.
O trabalho também encontra força nos confrontos que nascem das traições e das acusações de assédio contra o marido. As descobertas exigem de Dora uma reação, mas Mariana considera o caminho entre compreender o que aconteceu e decidir o que fazer. A personagem não perde sua história quando encontra coragem para enfrentá-lo. A dor permanece reconhecível na firmeza, assim como a insegurança pode coexistir com uma decisão necessária. É essa continuidade que torna a transformação convincente e impede que a mudança de postura pareça apenas uma exigência da trama.
Mariana articula o romance e os conflitos do casamento como experiências de uma mesma mulher. A Dora que se aproxima de André leva consigo o que viveu, e a que enfrenta o marido começa a perceber outras possibilidades para o futuro. A interpretação preserva essa unidade nos detalhes. A atriz ajusta a intensidade de acordo com a relação e com o momento, sem perder as características que permitem reconhecer a personagem. Há segurança nesse domínio, especialmente na capacidade de dar importância a uma reação discreta dentro de uma narrativa marcada por acontecimentos fortes.
Minha escolha reconhece uma atuação que encontra valor tanto na emoção declarada quanto no instante anterior à palavra. Mariana dá a Dora sensibilidade para viver um novo amor e firmeza para enfrentar o que precisa deixar para trás. Sustenta esse processo com atenção aos parceiros e respeito pelo tempo da personagem, fazendo de sua autonomia uma conquista acompanhada pelo público. Em Quem Ama Cuida, seu trabalho oferece um retrato cuidadoso do recomeço: uma mulher que ainda carrega suas feridas, mas passa a reconhecer o próprio direito de escolher.
*A escolha integra a seleção dos Melhores do Ano 2026, feita pelo jornalista que vos escreve, André Romano.
O texto Opinião: Mariana Ximenes dá força e delicadeza ao recomeço de Dora em Quem Ama Cuida foi publicado primeiro no Observatório da TV.
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