Entre o surgimento do primeiro caso de Covid-19 na China e o primeiro no Brasil, foram quase dois meses. Tempo que poderia ter sido o fiel da balança, tivesse o governo se aproveitado a casualidade de o vírus não ter surgido aqui para definir estratégias. Não obstante, figuramos hoje como um dos piores cenários do mundo. Não é a primeira vez que o negacionismo científico afeta a vida da humanidade, mas talvez seja a primeira em meio a uma emergência mundial.
A rejeição de conceitos já estabelecidos sempre caminhou junto às descobertas. Galileu Galilei comprovou, em 1662, que o sistema geocêntrico estava errado. Na verdade, a Terra se move em torno do Sol (e não o contrário). Tal descoberta quase custou sua vida. Chamado ao tribunal de inquisição, para evitar uma sentença de morte, teve que se retratar. Diz a lenda que, terminado o veredito, ao sair para a prisão domiciliar, ele falou baixinho: ‘eppur si muove!’ (mas ela se move!), em alusão à sua certeza de que era a Terra que se movia. Em 1992, a Igreja reconheceu que Galileu estava certo.
É verdade que, do ponto de vista do indivíduo, algumas descobertas podem ser inquietantes. Mas há uma dimensão da escolha individual que afeta a todos. A vacinação é um pacto coletivo pela imunização. O diretor de emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS), Mike Ryan, disse que é provável que o coronavírus nunca vá embora: “Não é suficiente que exista a vacina, as pessoas precisam querer tomá-la”. Assim como na vacinação, no isolamento social é necessário um comprometimento pessoal em prol de um aspecto coletivo. Em ambos os casos, promover ações de conscientização é papel do Estado.
E quando o Estado se baseia em opiniões, e não no conhecimento científico? O aspecto comunitário fica prejudicado. Opinião e ciência operam de formas diferentes: ambas podem mudar, mas opiniões não refutam fatos. A ciência não muda de opinião, ela muda em si; é um processo, que deve ser levado em consideração no desenvolvimento de políticas públicas.
Lições aprendidas ditam o caráter dinâmico da ciência. Como no caso da talidomida; descoberta no final da década de 50, era vendida como um sedativo “inofensivo” em um mundo pós-guerra viciado em pílulas para dormir. Na ausência de protocolos rígidos, descobriu-se depois que a droga causaria graves malformações congênitas. O legado da talidomida foi o estabelecimento de um processo de comercialização de medicamentos regido por forte regulação e testes clínicos meticulosos.
A história nos mostra que a ciência deve ser independente e jamais subjugada ao lucro, à religião ou aos juízos pessoais. A saída para a atual crise sanitária virá da ciência, a despeito de opiniões. Mas virá da ciência respeitada em suas premissas, que possui o seu próprio tempo, eppur si muove!
*Alice Cunha da Silva, engenheira nuclear, MBA, MSc em administração;
Ana P.S. Carvalho, bióloga, MSc em biodiversidade animal;
Daniele de Azevêdo Baeta, engenheira química, dra. em engenharia metalúrgica;
Danila Carrijo da Silva Dias, engenheira de minas, MSc em engenharia ambiental;
Janaína Dutra Silvestre Mendes, física médica, dra. em radioproteção e dosimetria;
Jaqueline A.A.Calábria, química, dra. em ciência das radiações, minerais e materiais.