BRASÍLIA – Termina nesta terça-feira (31/3) o prazo para o Banco de Brasília (BRB) divulgar o balanço de 2025. O eventual descumprimento pode resultar em sanções e multas do Banco Central (BC) e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

O jornal “O Globo” antecipou que já é certo que o BRB não vai entregar o seu balanço pelo segundo trimestre consecutivo nesta terça-feira. A equipe de O TEMPO Brasília confirmou a informação com integrantes do Governo do Distrito Federal.

Há grande temor do mercado financeiro em relação às contas do banco público, por causa do seu rombo bilionário em negócios com o Banco Master, de Daniel Vorcaro. Além do balanço, o BRB precisa apresentar medidas concretas de recomposição de capital.

Caso não consiga demonstrar condições para sua recuperação, o BRB pode ter o mesmo fim do Master, a liquidação. Por isso é necessário um aporte urgente no banco estatal, uma sociedade de economia mista, de capital aberto, que tem o governo do DF como maior sócio (71,92%). 

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Na gestão de Ibaneis Rocha (MDB), o BRB anunciou a compra do Master e colocou R$ 16,7 bilhões no banco de Vorcaro comprando carteiras de crédito podre. Estima-se que tais operações resultaram em prejuízo de ao menos R$ 12 bilhões para o banco público.

Quando o BRB anunciou a compra do Master, em março de 2025, já havia sinais claros das dificuldades financeiras do banco de Vorcaro, além de fortes suspeitas de fraudes. Mas Ibaneis atacou publicamente quem era contra. Em 3 de setembro, o BC vetou o negócio devido a riscos elevados e inconsistências nos ativos do banco de Vorcaro. 

Mas Ibaneis continuou a defender o negócio e subiu o tom com quem apontava riscos. O Master foi liquidado em 18 de novembro pelo BC, afetando mais de 1,6 milhão de clientes do banco privado, com acionamento do FGC, que teve de lidar com a maior operação de ressarcimento de sua história, estimada em R$ 41 bilhões. 

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No mesmo dia da liquidação do Master, a Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Compliance Zero, que revelou um esquema de fraudes que teria movimentado mais de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes. O BC identificou falhas na governança do BRB para detectar os créditos irregulares. No dia anterior à operação, federais prenderam Vorcaro. 

O banqueiro embarcaria em um jatinho em Guarulhos (SP), rumo à Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A PF viu risco de fuga. Horas antes, a Fictor Holding Financeira anunciou a compra do Master, com aporte imediato de R$ 3 bilhões e participação de investidores dos Emirados, até hoje desconhecidos. Agentes desconfiam que o negócio visava camuflar a fuga. 

A PF suspeita que Vorcaro soube antes que seria preso e organizou a operação para justificar a viagem internacional. A defesa diz que ele tinha planos de voo a Dubai para encontrar compradores do Master. Investigadores dizem que o plano apresentado para o avião no qual ele embarcaria tinha como destino Malta, pequeno país no Mediterrâneo.

Passado um ano do anúncio da compra do Master pelo BRB, ela se tornou uma entre tantas investigadas pela PF envolvendo o Master e seu dono, em um dos mais graves episódios do sistema financeiro brasileiro. 

CPI vai convocar Ibaneis para explicar crise do BRB

Ibaneis deixou o comando do Governo do Distrito Federal na última segunda-feira (30/3) para se candidatar ao Senado. Ele será substituído por sua vice, Celina Leão (PP), pré-candidata a governadora. 

Ibaneis comandava o DF desde 2019, com dois mandatos seguidos. Sua gestão termina marcada pelo escândalo do Master, após a tentativa frustrada da compra do banco de Vorcaro pelo BRB. 

Na manhã desta terça, a CPI do Crime Organizado aprovou a convocação de Ibaneis Rocha para explicar sua atuação na crise do BRB com o Master, além dos negócios do seu escritório de advocacia com a Reag, fundo de investimento ligado ao banco de Vorcaro.

Já com o escândalo do Master no noticiário, soube-se que o escritório de advocacia de Ibaneis firmou um contrato de R$ 38,1 milhões, em maio de 2024, com a Reag, investigada pela PF por participação no esquema do banco de Vorcaro e até por lavar dinheiro para a facção Primeiro Comando da Capital (PCC).

Na última terça-feira (24/3), Ibaneis enviou uma carta ao presidente do FGC pedindo um empréstimo de R$ 4 bilhões para o BRB. O documento lista “parâmetros preliminares a serem refinados em conjunto”. Propõe, entre outras coisas, uma carência de 1 ano e 6 meses para o início do pagamento do empréstimo, com parcelas semestrais, sem informar a duração e os valores delas.

Ibaneis sancionou no último dia 10 a lei, de autoria do Executivo, que autoriza seu governo a tomar medidas para socorrer o BRB, como a contratação de até R$ 6,6 bilhões em operações de crédito com o FGC ou instituições financeiras.

No projeto do governo Ibaneis, aprovado pela Câmara Legislativa do DF, o governo local oferece como garantia para o provável empréstimo nove imóveis públicos, além de participações acionárias de três das suas empresas: BRB, Caesb (saneamento) e CEB (energia).