Após o imunologista norte-americano Anthony Fauci ter sido chamado para prestar depoimento ao Senado dos Estados Unidos, membros da direita brasileira, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), postaram vídeos divulgando fake news relacionadas à Covid-19. Apesar de Fauci não ter respondido às perguntas, Nikolas se baseou em um diário escrito pelo imunologista durante a pandemia.
Veja o vídeo de Nikolas:
Após o imunologista norte-americano Anthony Fauci ter sido chamado para prestar depoimento ao Senado dos Estados Unidos, membros da direita brasileira, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), postaram vídeos divulgando fake news relacionadas à Covid-19. pic.twitter.com/LhPcQix0TK
— O TEMPO (@otempo) August 7, 2026
Fauci é ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), e aconselhou os presidentes dos Estados Unidos Donald Trump e Joe Biden durante a pandemia de Covid-19.
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No último dia 29, Fauci foi intimado pelo senador republicano Rand Paul para responder a perguntas em uma audiência do Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado dos EUA. O imunologista se recusou a respondê-las e invocou a Quinta Emenda da Constituição, que garante o direito contra a autoincriminação. Ele também acusou Paul de fazer uma campanha para prendê-lo.
Dias antes da audiência, Paul divulgou mais de mil páginas de anotações diárias datilografadas de Fauci. O diário e o depoimento do imunologista inflamaram as redes sociais com alegações infundadas sobre as vacinas contra Covid-19, o tratamento da doença e a origem do vírus.
A reportagem de O TEMPO conversou com o médico infectologista André Bon, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), sobre os principais pontos abordados na fala do deputado federal sobre a Covid-19.
Hidroxicloroquina e ivermectina
No vídeo, Nikolas afirmou que o diário de Fauci mostra que o imunologista norte-americano considerava a hidroxicloroquina segura e pretendia disponibilizá-la para tratamento da Covid-19.
Mas, na verdade, o diário mostra que Trump e alguns assessores defendiam publicamente o uso da hidroxicloroquina, enquanto Fauci argumentava que as evidências de eficácia não haviam sido comprovadas.
De acordo com Bon, diversos ensaios clínicos já comprovaram ausência de benefício de ambos os medicamentos no tratamento da Covid-19 - com possibilidade inclusive de malefício do uso da cloroquina.
"Por esse motivo, essas medicações não são recomendadas em nenhuma diretriz séria para tratamento de Covid-19. Portanto, não existe qualquer evidência na literatura de que essas duas medicações devam ser utilizadas para tratamento de Covid-19", reforça.
Bebês abortados usados em pesquisas da vacina de Covid-19?
Nikolas relatou que, durante a audiência, a senadora republicana Joni Ernst perguntou a Fauci sobre o uso de partes de bebês abortados em pesquisas para elaboração da vacina contra a Covid-19. O parlamentar destaca que Fauci “se calou”. “Será que de fato foi usado parte de bebês para poder fazer pesquisa de vacina da covid?”, questiona.
O infectologista rebate e afirma que as vacinas de Covid-19 utilizadas durante a pandemia, e principalmente aquelas que ainda estão em uso hoje, passaram por todas as fases de avaliação de segurança e efetividade independente do laboratório que tenha sido utilizado.
"Todas passaram pela fase 1 para analisar efeitos diversos, segurança, definição de dose. A fase 2 avaliou a segurança e a fase 3 avaliou segurança e efetividade. Hoje elas estão na fase 4, como qualquer droga que é lançada ao mercado, mantém-se a avaliação rotineira de efetividade", esclarece Bon.
Segundo o especialista, nenhuma delas demonstrou efeitos adversos graves para que a vacina fosse declarada como ineficaz ou insegura. "Muito pelo contrário, é por causa dessas vacinas, que foram adequadamente desenvolvidas, que a gente conseguiu controlar a Covid-19", reforça.
Distanciamento social e máscaras eram ineficazes?
No vídeo, Nikolas afirma que existe um relatório do Congresso norte-americano demonstrando que o distanciamento social e as máscaras foram ineficazes, e mais teriam prejudicado do que ajudado. O parlamentar faz referência a um relatório produzido por um subcomitê do Congresso dos Estados Unidos, apresentado por parlamentares republicanos – essa informação é omitida.
Mais uma vez, o médico desmente a fala de Nikolas e reforça que o distanciamento social, o isolamento e os lockdowns tiveram papel fundamental para adiar ondas de Covid-19, possibilitando a estruturação dos serviços de saúde para receber as grandes ondas.
"Isso já está bem estabelecido em estudos epidemiológicos. Os lockdowns foram estabelecidos para que os serviços pudessem se preparar para receber os pacientes. Os isolamentos duraram algum tempo para que a sociedade pudesse se preparar para controlar os casos de Covid-19 dentro dos hospitais", diz.
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