Felipe Oliveira Costa, 7 anos, passou por um transplante de fígado há quatro meses e hoje joga bola em casa, no bairro Praia Paulistinha, extremo sul de São Paulo. Em abril de 2025, o menino desenvolveu a síndrome de Stevens-Johnson, causada por reação medicamentosa, e teve o fígado afetado. Após seis meses de tratamento, o quadro evoluiu para cirrose hepática, com ascite e insuficiência hepática, e o transplante foi indicado.

Felipe foi internado no Hospital Municipal Infantil Menino Jesus, e o transplante realizado no Hospital Sírio-Libanês. Como não apareceu doador falecido compatível com o tamanho e o peso da criança, o pai, o auxiliar de almoxarifado Abimael Maurício Oliveira Silva, 37 anos, doou parte do fígado ao filho. Ele precisou perder peso e atingir no mínimo 90 quilos. "Não tem coisa mais gratificante do que ver ele felizão desse jeito", afirmou.

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Segundo o médico Eduardo Antunes da Fonseca, diretor do departamento de transplante hepático do Sírio-Libanês, a falta de doador pediátrico é um grande desafio: apenas cerca de 2% das notificações de doador falecido se referem a crianças, e peso e altura precisam ser compatíveis. O cirurgião José Sampaio, do Hospital Pequeno Príncipe (PR), explica que a porção do fígado doada por um adulto representa fração pequena do órgão e causa impacto mínimo na saúde do doador.

O Brasil conta com 829 serviços autorizados a transplantar órgãos; em 2025, 70 fizeram transplantes pediátricos. De janeiro a julho de 2026, foram 278 transplantes pediátricos: 24 de coração, 114 de fígado e 140 de rim. Em 2025, foram 589: 61 cardíacos, 211 hepáticos, dois pulmonares e 315 renais.

Em Belo Horizonte, uma caminhada simbólica na Praça da Assembleia, na região Centro-Sul, reuniu profissionais da saúde, pessoas que receberam transplantes, pacientes que estão na fila de espera e familiares há oito dias, no sábado (19/9). O objetivo, como explicaram os organizadores, era justamente tirar o debate dos corredores dos hospitais e colocá-lo para a comunidade, visando conscientizar a população em prol da doação de órgãos.

'Caminhantes', evento organizado pelo Hospital das Clínicas UFMG, coloca em pauta a importância da doação de órgãos | Daniel Cerqueira/O TEMPO

Durante o evento, em conversa com a reportagem, cirurgião João Bernardo, que atua em transplantes de fígado, ressaltou que a probabilidade de a doação ser realizada aumenta se esses familiares forem informados do desejo da pessoa de ser doadora. "Quando isso já está conversado, em uma eventual ocasião, a possibilidade de conseguir essa doação aumenta muito", destacou.

O SUS adota lista única de espera, com critérios técnicos, clínicos e de compatibilidade, não apenas tempo de inscrição. Mais da metade dos transplantes pediátricos (53%) usa órgãos de doadores de 11 a 17 anos. A doação de órgãos de crianças depende de autorização de ambos os pais ou do responsável legal.

Em 2025, famílias de potenciais doadores recusaram doações em 45% dos casos, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos. Nos casos envolvendo crianças, a rejeição é ainda maior. "Grande parte das mortes encefálicas infantis acontece por afogamento ou acidente que determina parada cardiorrespiratória. A família fica muito abalada", afirma Fonseca. Para Sampaio, o principal motivo de recusa entre adultos é o desconhecimento da intenção do doador em vida.