A psicóloga clínica e terapeuta familiar Tatiane Zan é integrante da diretoria da Associação de Terapia Familiar de Minas Gerais (ATF Minas). No decorrer dos trabalhos na entidade, os membros notaram um aumento dos transtornos de aprendizado e como eles podem impactar as famílias, que muitas vezes não sabem como lidar com a questão, não dispõem de informações precisas e confiáveis sobre o assunto e não têm o devido acompanhamento de especialistas.
Surgiu, então, a ideia de promover o 1º Simpósio Internacional de Transtornos de Aprendizagem e Seus Familiares, que acontecerá nos dias 7 e 8 de julho. O evento será online e gratuito, com transmissão pelo canal da ATF Minas no YouTube, e contará com a participação de educadores, psicólogos, psicopedagogos, advogados, familiares de pessoas com transtornos e interessados no tema em geral.
Os chamados “distúrbios de aprendizagem” têm origem geralmente em alguma disfunção neurológica, quando o cérebro funciona de forma diferente mesmo que a pessoa tenha uma situação física, social e mental em perfeito estado, e envolvem deficiências ou dificuldades na concentração, atenção, linguagem ou processamento visual de informações.
Em outras palavras, os distúrbios impedem que o cérebro assimile padrões e conteúdos específicos, fazendo com que o aprendizado em matemática ou português se torne algo muito mais difícil do que realmente poderia ser.
De acordo com Tatiane Zan, os sintomas podem ser observados desde a primeira infância até a fase de alfabetização. De uma maneira geral, é nesse período da vida que os transtornos aparecem com mais clareza. A psicóloga diz que é possível notar quando certos padrões de desenvolvimento intelectual e cognitivo de fala, leitura e compreensão de números e palavras não acontecem de forma funcional. “Quando a criança não está atendendo aos padrões, é bom ligar o alerta e buscar os profissionais indicados para um diagnóstico”, recomenda.
Psicólogos, pedagogos, neuropediatras, terapeutas ocupacionais, educadores e familiares devem trabalhar em conjunto para chegar a um diagnóstico preciso e, a partir dele, poder atuar de maneira específica para fazer com que a criança que apresenta esses transtornos de aprendizagem tenha um desenvolvimento melhor. Não há cura para esses distúrbios, pondera Tatiane Zan, “mas consegue-se usar ferramentas e instrumentos que vão nos ajudar no tratamento”.
Tatiane pontua que é necessário separar o transtorno de aprendizagem da dificuldade de aprender no dia a dia escolar. “Se falo em transtorno é quando o cérebro da criança não está funcionando bem, se nasceu com uma formação não precisa”, afirma.
Segundo o psiquiatra Bruno Brandão, é fundamental realizar o diagnóstico sempre que houver desconfianças não só dos pais, mas principalmente dos especialistas e dos profissionais da educação, especialmente professores e pedagogos, que têm o importante referencial de uma sala de aula composta por diversas crianças.
A suspeita deve surgir quando essa pessoa se distancia muito da média da sala. O especialista sublinha a necessidade de acompanhar de perto o histórico escolar e familiar da criança, saber se ela apresenta esse problema desde sempre ou se o rendimento era satisfatório e despencou repentinamente.
É preciso ter cuidado na investigação e no reconhecimento da situação. “Muitas vezes, o problema não é de transtorno de aprendizado, mas pode algo relacionado a depressão, ansiedade, fobia social ou bullying. Precisamos avaliar todo o contexto e entender a origem da queixa, que pode estar ou não relacionada ao distúrbio”, argumenta.
Brandão também lembra que cada transtorno tem uma abordagem específica: “É importante ressaltar que o tratamento de forma alguma se resume apenas a medicamentos. Se for uma dislexia, por exemplo, o tratamento vai envolver profissionais da educação associados com psicoterapeutas, fonoaudiólogos e pedagogos, entre outros”.
Tatiane Zan reconhece a complexidade em torno do assunto. Além de um tratamento e acompanhamento multidisciplinar, é preciso levar as famílias para o debate, por isso ela considera oportuna a realização do 1º Simpósio Internacional de Transtornos de Aprendizagem e Seus Familiares. No encontro, inclusive, advogados falarão sobre os direitos das pessoas com esses distúrbios.
Em dezembro de 2021, o então presidente Jair Bolsonaro sancionou uma lei que obriga o poder público a oferecer um programa de diagnóstico e tratamento precoces a alunos da educação básica diagnosticados com dislexia, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ou qualquer outro transtorno de aprendizagem.
“Queremos envolver as famílias, que muitas vezes ficam perdidas e não sabem quais são seus direitos, o que o governo pode oferecer. Existem políticas públicas, atendimento no SUS, e advogados no simpósio vão falar sobre isso”, destaca Tatiane Zan.
Conheça alguns tipos de transtornos de aprendizagem:
Disgrafia: quando há comprometimento da expressão escrita, problemas com compreensão e o desenvolvimento da linguagem escrita ou grafia; muitas vezes, esse transtorno acompanha a dislexia
Dislexia: transtorno de origem neurobiológica caracterizado por dificuldades de reconhecimento de palavras, de soletração e decodificação, que podem causar a inversão de letras e números e lentidão na leitura e na escrita
Discalculia: A discalculia é a dificuldade de aprender tudo o que está relacionado, direta ou indiretamente, com questões numéricas como operações, conceitos e aplicação da matemática
Déficit de atenção: Involuntariamente, a criança não consegue manter o foco em uma ação. Mesmo que esteja descansada e concentrada, a sua atenção não está focada naquela situação específica
Hiperatividade: É um transtorno neurobiológico de causas genéticas caracterizado por sintomas como falta de atenção, inquietação, impulsividade e dificuldade de concluir uma tarefa. Distúrbio aparece na infância e, se não for tratada, pode acompanhar o indivíduo por toda a vida