Promessas do nosso futebol

Falhas na formação fazem Brasil desperdiçar talentos campeões na base

São vários os casos de jogadores que despontaram como craques na base mas depois não conseguiram ter o mesmo sucesso no futebol profissional

Por Frederico Teixeira
Publicado em 15 de fevereiro de 2024 | 06:20
 
 
 
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Após longo jejum, o Brasil voltou a conquistar o Sul-Americano sub-20 no útlimo final de semana ao vencer o Uruguai por 2 a 0. Certeza de que o futuro da Amarelinha está garantido? Infelizmente, a história mostra que não. São vários os casos de jogadores que despontaram como craques na base, mas não conseguiram o mesmo sucesso como profissionais. O Tempo Sports conversou com especialista da área da psicologia do esporte e com um ex-jogador para explicar porque isso acontece. 

As falhas na formação dos garotos são apontadas como o principal problema para essa dispersão de talentos na passagem para o futebol profissional. A percepção é de que, no Brasil, a maioria dos clubes foca em lapidar o jogador apenas 'dentro das quatro linhas' e "se esquece" de cuidar da formação integral do atleta, que, entre outras coisas, terá que conviver com diversos tipos de pressão e cobranças em sua carreira profissional. 

"No que diz respeito ao aspecto psicológico, tem uma coisa que é do desenvolvimento, do processo maturacional dos atletas. Muitas vezes não são atrelados, não são equivalentes ao desenvolvimento esportivo. Então o atleta pode estar em campo desenvolvendo muito bem o jogo, porém, emocionalmente, psicologicamente e até mesmo cognitivamente, não estar pronto para lidar com o futebol profissional, com a profissão de jogador. Isso diz respeito a uma série de fatores, como família, formação e o próprio processo de desenvolvimento dentro das categorias de base", analisa Gabriel Puopolo, psicólogo do esporte, instrutor da CBF Academy.

"Fundamentalmente é preciso enteder que a prontidão para o jogo não necessariamente indica prontidão para a profissão. O jovem pode estar desempenhando muito bem dentro de campo, fisicamente, tecnicamente, até mesmo psicologicamente, ou seja, ser capaz de manter a concentração, de superar as adversidades, porém o futebol profissional é muito mais do que jogar em alto nível. Implica em você entender a sua carreira, implica em você entender o trabalho em equipes muito diferente do que na categoria de base", acrescenta o especialista.

Puopolo também enumera outras questões que acabam sendo decisivas na sequência da carreira de muitos atletas. "Na base, todo mundo tem mais ou menos a mesma idade. Quando você vai pro profissional, tem gente de diferentes idades, de diferentes regiões, diferentes históricos, tem a imprensa em cima, então acaba tendo diversos outros elementos a serem considerados e aí, muitas vezes, em razão da dificuldade de gerenciar sua vida e a sua carreira, o futebol, o jogo acaba sofrendo também", exemplifica.


Sentiu na pele

O ex-lateral direito Zelão sabe bem como é esse processo. Revelado na base do Cruzeiro, ele foi campeão sul-americano e vice-campeão mundial sub-20 com a seleção brasileira em 1991.

Mesmo tendo subido para os profissionais e disputado 130 partidas pelo Cruzeiro (até 1997), Zelão não teve o mesmo sucesso que outros colegas de sua geração, como o lateral esquerdo Roberto Carlos, o meia Ramón Menezes (atual técnico da sub-20) e os atacantes Élber e Paulo Nunes, por exemplo.

Hoje, aos 51 anos, Zelão compreende perfeitamente o que acontece com muitos jovens neste processo de transição para o futebol profissional. "A maioria dos atletas que disputaram o sul-americano em 1991 já foram direto pro profissional. Alguns deles, que também foi o meu caso, não chegaram nem a passar pelos juniores. Acho que é essencial para a maturação do jogador disputar a categoria dos juniores, que é onde se prepara, pisicologicamente, fisicamente, onde de fato matura o jogador para ir para o profissional bem preparado", destaca.

O ex-lateral acredita que esse processo ainda se repete e agora ainda mais 'acelerado' pela precocidade com que os novos talentos brasucas têm sido alçados aos times principais. "Acho que essa é uma das coisas que prejudica. É o que está acontecendo muito hoje. Você vê jogadores de 16, 17 anos tudo já jogando no profissional, sem passar pela categoria de juniores. Acho que isso é um fato que está prejudicando. Porque a categoria de juniores, o sub-20, é onde o cara vai pegar cancha, vai pegar maldade psicologicamente. Então está pulando etapas e isso acaba por prejudicar o atleta mais na frente", acredita Zelão. 


Como resolver esse dilema?

Para os entrevistados pela reportagem, a primeira tarefa para tentar solucionar esse problema seria a mudança na estrutura adotada pelas categorias de base das equipes do futebol brasileiro.

"Primeiro tem que pensar não só no talento esportivo. A categoria de base, o processo de formação deve ser visto de maneira muito mais ampla. É preciso entender categoria de base como escola, desenvolver a pessoa, entender que todos os profissionais que estão envolvidos na categoria de base não estão ali apenas para fazer os atletas jogarem melhor. A ideia é preparar o atleta para ter uma carreira dentro do futebol e isso implica estímulos de diversas ordens e disciplinas para que ele consiga se capacitar não só, claro, para jogar bem, estar fisicamente e psicologicamente apto para o jogo, mas também psicologicamente, maturacionalmente apto para lidar com o futebol profissional, com o ambiente de competição, de estádio lotado, eventualmente indo pra fora", enumera Puopolo.

O psicólogo do esporte destaca que as categorias de base precisam ser melhor pensadas para preparar os jovens até mesmo para uma possível futura transferência internacional, sonho de muitos.

"Lidar com ambientes internacionais, se adaptar, aprender a língua, cultura, entender como o sistema do futebol, entender o aspecto financeiro, a aspecto midiático, de entretenimento que rege o futebol. Tudo isso precisaria ser feito nas categorias de base para você preparasse o atleta para ter uma carreira esportiva, não só para ele jogar bem. É preciso que o atleta seja capaz de conduzir a carreira adequadamente e que isso não fique exclusivamente nas mãos de familiares, representantes e empresários. Que ele amadureça também no sentido de ser capaz de conduzir a sua própria carreira no futebol", acrescenta Puopolo.


Vivência também conta

Além de todos fatores citados acima, o ex-lateral direito Zelão enumera mais um que pode fazer a diferença na preparação de jovens valores para o futebol profissional: a presença mais próxima neste trabalho de quem também já esteve dentro de campo.

"Agora acertaram de colocar o Ramon Menezes na Sub-20 da seleção, que é um cara profissional demais, um estudioso do futebol, que quando jogava já era diferenciado. Na maioria das seleções de base você não vê um ex-atleta como treinador. E nos clubes também não. São raras as exceções. Claro que não estou tirando os méritos de quem estuda para estar lá, que fez por onde, mas é essencial ter também o cara que já tenha jogado. É diferente", aponta.

"Para mim essa é uma das situações que ainda vinha se refletindo no insucesso recentes das seleções de base. Quem já tenha jogado poderá transmitir melhor para o atleta, principalmente o da base, o que é a real situação de um jogo, a importância do trabalho psicológico", acrescenta Zelão.


Influência da grana acelera o processo

Mesmo que ainda a passos lentos, o processo de formação de talentos no futebol brasileiro tem apresentado melhorias. Mesmo que algumas delas tenham motivações ligadas mais ao aspecto financeiro...

Criado no inicio dos anos 2000 com o objetivo de incentivar os clubes a formarem atletas, o "mecanismo de solidariedade da Fifa" fez com que os clubes passassem a dar um pouco mais de atenção para as categorias de base.

Para terem direito a receber um percentual (que pode chegar até a 5%) do valor de cada transferência internacional de atleta que tenha revelado, os clubes precisaram atender algumas normas, tais como fornecer complementação educacional; garantir assistência psicológica, médica, odontológica, alimentação, transporte e convivência familiar e manter corpo de profissionais especializados.

Este último item é ressaltdo por Puopolo como um diferencial. "Existem avanços, principalmente naqueles clubes grandes, de camisa, em termos de estrutura, de profissionais, mas ainda falta mais preparação, inclusive no sentido de terem os profissionais das áreas de Humanas e aí não só psicólogos, o que é uma prerrogativa para o clube obter o mecanismo de solidariedade, mas também assistente social, pedagogo, professores de reforço, palestrantes... gente que venha ajudar a pensar desenvolvimento e sexualidade, desenvolvimento de gestão financeira, gestão de imagem, esse tipo de coisa", detalha.

"Você podendo investir nesse processo de preparação, o tornando mais sofisticado, capacitando os treinadores, ajudando-os a entender o papel deles como educadores e não só como treinadores (supervisores, coordenadores, diretor executivo também), você dá muito mais qualidade para o processo de desenvolvimento e com isso você acaba evitando essas perdas no processo. E se esses jovens não conseguirem se firmar como atletas profissionais, que possam ter os instrumentos necessários para conduzir uma vida próspera, uma vida feliz, dentro ou fora do futebol, ou dentro ou fora das quatro linhas", finaliza o psicólogo do esporte.

Que a geração que conta com talentos como os do volante Andrey Santos, já negociado com o Chelsea, e o atacante Vitor Roque, na mira do Barcelona, por exemplo, entre tantos outros, possam ter, de fato recebido toda essa atenção nas categorias de base. A torcida brasileira agradece, 

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