Isabelly Morais
@isabellymoraiis
17/05/20
08h00

Histórias

Ciclista mineira relata casos de assédio e pede: 'Nunca seja espectador passivo'

Jaqueline Mourão, que já participou de seis Olimpíadas, recordou situações vividas e presenciadas ao SuperFC

Jaqueline já participou de seis edições dos Jogos Olímpicos — Foto: Jonne Roriz/COB
Isabelly Morais | @isabellymoraiis
17/05/20 - 08h00

De acordo com o Comitê Olímpico Internacional (COI), o assédio e o abuso estão em todos os esportes e em todos os níveis de participação, desde a iniciação nas escolinhas até equipes de alto rendimento. Esses casos se escondem por trás das práticas esportivas, causando sérios traumas e consequências para a vida toda em atletas de variadas idades e modalidades.

Nesse sentido, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) tem oferecido um curso à distância sobre prevenção ao assédio e ao abuso, que teve como aluna a ciclista mineira e atleta olímpica Jaqueline Mourão. Ao SuperFC, ela destacou uma situação de assédio moral que viveu em 2015, quando estava em um centro de treinamentos no Canadá.

Na época com 39 anos, a mineira tinha obtido a segunda colocação no país com o esqui cross-country, o que incomodava o treinador nacional da modalidade. "Ele me ligou, e quando eu atendi ele disse que eu era uma madame, de um jeito pejorativo. Eles me tiraram do centro pela minha idade. O jeito que ele falou rindo foi explicitamente de assédio moral", relembra.

"Fiquei muito triste de ser cortada não pela performance, mas pela idade. Demorou muito pra eu voltar e me reestruturar, pra conseguir outro centro. Essa cicatriz ficou e eu tive várias reações, até de saúde. Naquele momento, não sabia como lidar com isso, mas consegui superar sozinha. Se em 2015 existisse esse tipo de ajuda [como o curso], talvez tivesse sido mais amparada e tivesse saído mais rápido desse processo", completa.

Essa, porém, não foi a primeira experiência de Jaque com o assédio. Logo quando explodiu na carreira, a mineira de Belo Horizonte teve que lidar com o desconforto de atitudes desrespeitosas. Ela foi a primeira mulher a representar o Brasil pelo mountain bike em uma edição de Jogos Olímpicos, o que aconteceu em Atenas 2004.

"Enfrentei muitas coisas com relação a ser mulher, a ser brasileira. Morei fora, ganhei uma bolsa na Suíça e quando eu falava que era brasileira, as pessoas mudavam, falavam de Carnaval, Copacabana e achavam que tinham direito de ficar mais engraçadinhas comigo. Isso foi muito difícil, eu era muito nova e me fechei", lembra Jaqueline, que tem no currículos seis Jogos Olímpicos, dentre edições de Verão e de Inverno.

"Não podemos ser espectadores passivos"

Jaqueline não só viveu como presenciou situações de assédio moral com outras pessoas. Ela relembrou um episódio próximo à Olimpíada de Pequim com três chinesas que estavam competindo por classificação nos Jogos.

"Elas eram muito fortes e o jeito dos treinadores tratá-las me impressionava bastante. As chinesas, quando passavam mal, na hora de passar na área de feedzone, de alimentação, para pegar água, carboidrato e energia, o treinador simplesmente tirava a garrafa como punição porque ela estava longe da ponta da prova. Fui a espectadora passiva e agora aprendi que não devemos ser passivos", lembra Jaque. 

A atleta mineira, pelo aprendizado na vida e no curso do COB, também fez um pedido. "Se você tem alguma dúvida, fale com alguém e busque os canais de denúncia. Nunca seja um espectador passivo. Essa é nossa responsabilidade, de qualquer pessoa. Nossa obrigação, como seres humanos, é de cuidar e não deixar as coisas passarem", diz.

"Não podemos pensar 'ah, isso não é meu problema'. Temos que pensar como cada um pode fazer a diferença na vida das pessoas, tirando uma pessoa de uma problema que pode virar uma depressão, suicídio, vários agravantes. Recomendo aos atletas e à população em geral esse tipo de formação", alerta.




 

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