O hábito de fumar é reconhecido como uma doença epidêmica que causa dependência física, psicológica e comportamental. O tabagismo é uma grave ameaça à saúde global e mata mais de 8 milhões de pessoas por ano, sendo 1,3 milhão devido ao tabagismo passivo, ou seja, aquelas que convivem com fumantes. Os dados são do Instituto Nacional de Câncer (Inca).
O Ministério da Saúde aponta que o uso do tabaco passou a ser identificado como fator de risco para uma série de doenças a partir da década de 1950. Já no Brasil, na década de 1970, começaram a surgir movimentos de controle do tabagismo, liderados por profissionais de saúde e sociedades médicas. Por isso, o dia 29 de agosto é marcado como o Dia Nacional de Combate ao Fumo, data criada em 1986, que inaugurou a normatização voltada para o controle do tabagismo como problema de saúde coletiva.
A fumaça do tabaco contém mais de 7.000 compostos e substâncias químicas, e estudos indicam que, no mínimo, 69 delas provocam câncer. O motorista de aplicativo Ronaldo Melgaço fumou por quase 40 anos e conta que, mesmo três anos após parar de fumar, ainda sente as consequências do uso do produto. “O cansaço ainda persiste, sinto como se a nicotina ainda estivesse no meu corpo. Mas o cheiro mudou, o meu sono também mudou. Então, a qualidade de vida está bem melhor atualmente”, revela.
Cigarro branco, cigarro de palha e vape
Além do cigarro branco, é comum os usuários do tabaco fazerem uso do cigarro de palha ou do eletrônico, também conhecido como vape. O cirurgião torácico da Rede Mater Dei, Daniel Bonomi, explica a principal diferença entre os três tipos:
“O cigarro normal tem um filtro que ajuda a diminuir as toxinas que vão para o pulmão e alvéolos. Mas, mesmo com esse filtro, o malefício é muito grande. Já os outros cigarros não possuem esse filtro, são até piores porque a pessoa acaba consumindo muito mais toxinas”, detalha.
No Brasil, é proibida a fabricação, importação, comercialização, distribuição, armazenamento, transporte e propaganda de cigarros eletrônicos. No entanto, eles são facilmente encontrados em todas as esquinas das grandes metrópoles.
Os males do vape
Segundo a médica pneumologista e coordenadora da Comissão de Tabagismo, Alcoolismo e Uso de Outras Drogas da Associação Médica de Minas Gerais (AMMG), Maria das Graças Rodrigues, já existe uma doença própria dos dispositivos eletrônicos chamada Evali, sigla em inglês para a doença pulmonar. “É uma doença muito grave, com comprometimento agudo ou subagudo dos pulmões causado pelos dispositivos eletrônicos. Ela começou a ser observada em 2019 e teve um surto nos Estados Unidos, com 2.800 casos e 68 mortes”, conta.
O universitário Guilherme Ferreira é um dos usuários do cigarro eletrônico. Ele luta para deixar de lado a dependência do vape. “O que ajuda muito na dependência é a facilidade de compra. Hoje em dia, você pode pedir vape como se estivesse pedindo comida no delivery”, expõe.
O estudante conta que a relação dele com o vape começou cedo, aos 17 anos. “Já experimentei o cigarro convencional, mas o diferencial para o eletrônico é o gosto. Acho que é isso que atrai mais o público jovem”, revela.
A pneumologista Maria das Graças Rodrigues também reforça este ponto: os diferentes sabores disponíveis do cigarro eletrônico são o que mais chamam a atenção dos usuários. “A pessoa quer, geralmente, sabores adocicados, de frutas, de sobremesas, para atrair principalmente adolescentes, jovens e até crianças para fazer uso deste produto”, completa.
Câncer de pulmão
O hábito de fumar tem consequências graves para o organismo humano, podendo ocasionar mais de 50 doenças diferentes, entre elas o câncer de pulmão. Segundo o Inca, o tabagismo é o principal fator de risco para a doença e está associado a cerca de 80% dos óbitos por essa causa entre mulheres e 85% entre os homens. A doença costuma atingir pessoas com mais de 50 anos.
Estatísticas revelam que pessoas que fumam, comparadas às que não fumam, apresentam risco 10 vezes maior de desenvolver câncer de pulmão, 5 vezes maior de sofrer infarto, 5 vezes maior de ter bronquite crônica e enfisema pulmonar e 2 vezes maior de sofrer derrame cerebral.
O instituto aponta ainda que, na região Sul do Brasil, são observadas taxas de incidência mais elevadas do câncer de pulmão. No sexo masculino, é a segunda neoplasia mais frequente, registrando cerca de 31,54 casos por 100 mil habitantes. Já entre as mulheres, é o terceiro câncer mais frequente na região Sul, com cerca de 20,98 casos por 100 mil habitantes.
Políticas públicas
O Brasil é reconhecido internacionalmente por adotar políticas públicas eficazes de controle do tabagismo, alinhadas às diretrizes da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco da Organização Mundial da Saúde (CQCT/OMS), da qual o país é signatário desde 2005. As principais políticas públicas brasileiras contra o cigarro envolvem ações legislativas, regulatórias, educativas e assistenciais. Veja a seguir os principais destaques:
- Proibição da propaganda de cigarros em rádios, TVs, outdoors e outros meios de comunicação (Lei nº 10.167/2000);
- Proibição do fumo em ambientes fechados de uso coletivo, públicos e privados (Lei Antifumo Federal – Lei nº 12.546/2011);
- Obrigatoriedade de imagens de advertência com mensagens de impacto nas embalagens dos produtos derivados do tabaco;
- Venda proibida para menores de 18 anos e obrigatoriedade de aviso nas embalagens;
- Proibição do uso de aditivos aromatizantes nos cigarros (Resolução da Anvisa nº 14/2012, ainda judicialmente contestada por fabricantes).
Estagiária sob supervisão de Renata Evangelista