Apenas nos primeiros 20 dias de janeiro, Minas Gerais registrou 56 casos do tipo 3 da dengue. O número já representa 16% dos 343 diagnósticos feitos em todo o ano passado. A situação preocupa as autoridades de saúde do Estado e do país, uma vez que esse sorotipo, que não aparecia em larga escala no Brasil desde 2008, conforme a Secretaria Nacional de Vigilância em Saúde, pode ser o responsável por um novo surto da doença, como explica o infectologista Leandro Curi.
“Em 2024, no surto que tivemos, a maioria das pessoas foi infectada pelo sorotipo 1. Então, conseguimos criar imunidade contra esse sorotipo. Agora, o 3 encontrou um terreno fértil, em que as pessoas estão mais vulneráveis a ele. A dengue possui quatro sorotipos, e os mais comuns são o 1 e o 2, mas agora o 3 voltou a aparecer”, afirma Curi.
Apesar da preocupação, o especialista diz que não é possível afirmar que teremos uma epidemia igual à do ano passado, quando mais 1,3 milhão de pessoas foram infectadas e 1.139 morreram em Minas Gerais. “Vivemos em um lugar que é totalmente propício à proliferação, com umidade, calor e período chuvoso. Se compararmos com o desenho que tivemos no ano passado, em 2024, tínhamos um número muito maior de casos no início do ano. Mas população precisa fazer o dever de casa e ajudar no combate ao mosquito”, alerta o especialista.
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Em visita a Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, no dia 10 de janeiro, juntamente com a ministra da Saúde, Nísia Trindade, o secretário de Vigilância em Saúde e Ambiente da pasta, Rivaldo Venâncio da Cunha, disse que a situação atual é de alerta: “Estamos vivenciando uma realidade diferente da do ano passado, mas a circulação do sorotipo 3 tem se intensificado, o que nos coloca em um estado de alerta. A população suscetível é muito grande, então estamos apostando em ações preventivas”, destacou.
Diante da situação, Nísia Trindade apresentou uma série de ações para barrar o avanço da doença. A aposta do governo federal é no uso de tecnologias que aceleram o combate ao Aedes aegypti, como mosquitos modificados com a bactéria Wolbachia – que impede a reprodução do vírus –, borrifação de inseticidas em áreas de incidência da doença e as Estações Disseminadoras de Larvicidas (EDLs), que utilizam uma areia de origem vulcânica para transformar a própria fêmea do mosquito em disseminadora de larvicidas. Além disso, outro foco é a melhoria da assistência aos pacientes, buscando evitar ao máximo as mortes.
“São tecnologias baseadas no conhecimento dos hábitos do Aedes aegypti. O uso da Wolbachia já mostrou excelentes resultados. As EDLs utilizam ciência inovadora, em que a própria fêmea do mosquito dissemina os larvicidas. Além disso, estamos ampliando a borrifação em escolas e grandes equipamentos”, destacou a ministra.
Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) informou que tem adotado medidas de prevenção e monitoramento para mitigar os impactos do sorotipo 3 da dengue, além de realizar ações gerais de prevenção e controle das arboviroses.
Vacina é aliada
A vacina contra a dengue está disponível nos centros de saúde de 247 cidades de Minas Gerais, conforme a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG). O objetivo da vacinação contra a dengue é reduzir hospitalizações e óbitos decorrentes da infecção pelos vírus, priorizando crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, de acordo com a recomendação do Ministério da Saúde.
A meta é vacinar 90% do público com as duas doses recomendadas para imunização. Em dezembro de 2024, Minas Gerais recebeu 41.128 da vacina contra a dengue. Ao todo, desde o início da vacinação contra a dengue, 477.785 doses foram distribuídas.
A cobertura está muito abaixo da meta. Das 675.076 pessoas que fazem parte do público-alvo, apenas 270.975 (31,4%) tomaram a primeira e 58.849 (8,7%) estão imunizadas com a segunda dose.
Tecnologia em prol da saúde
O governo de Minas Gerais informou que, no intuito de combater dengue, zika e chikungunya, tem investido em um reforço inovador: o uso de drones. Os equipamentos estão sendo utilizados para mapear e tratar os locais com acúmulo de água parada que possam se tornar criadouros do Aedes aegypti e, dessa forma, auxiliar na redução do número de casos das doenças transmitidas pelo mosquito.
Os drones permitem a identificação de áreas de difícil acesso, como caixas-d’água e piscinas descobertas, e possibilitam a aplicação precisa de larvicidas. O governo afirma ter destinado R$ 30 milhões para execução do serviço.
Outras ações do Governo
· Intensificação da vigilância epidemiológica: a SES-MG realiza uma série de ações de vigilância essenciais para identificar alterações no comportamento das arboviroses e possibilitar a implementação de medidas no momento adequado.
· Ações de controle do vetor: a Secretaria oferece apoio aos municípios nas atividades territoriais, além de monitorar periodicamente os índices de infestação do Aedes aegypti por meio do LIRAa/LIA. A SES-MG também distribui inseticidas e equipamentos aos municípios, apoiando o controle do vetor nas fases larvária e adulta.
· Plano de Contingência: a SES-MG revisou as ações propostas no Plano Municipal de Contingência das Arboviroses, visando aumentar a eficácia das iniciativas de enfrentamento e considerar fatores que possam contribuir para o aumento de casos.
· Distribuição de medicamentos: a SES executa a distribuição de medicamentos para as arboviroses aos municípios em cenários críticos.
· Parceria com o Ministério da Saúde: com o apoio do Ministério da Saúde, foi realizado um evento para municípios de grande porte, com foco na reorganização do sistema de saúde e controle vetorial, visando prepará-los para o próximo período sazonal.
· Reuniões do Comitê Estadual de Enfrentamento das Arboviroses (CEEA): a SES-MG realiza reuniões periódicas do CEEA para deliberar sobre o cenário epidemiológico no estado e definir as ações a serem executadas por cada eixo do comitê.
· Alinhamento com equipes técnicas regionais: a SES-MG promove reuniões com as equipes técnicas regionais para alinhar as estratégias de enfrentamento das arboviroses.
· Reuniões com municípios: juntamente com as regionais de saúde, são realizadas reuniões para apoiar os municípios com cenários mais críticos no direcionamento de ações de enfrentamento das arboviroses.
· Provisão de recursos financeiros: a SES disponibiliza recursos financeiros por meio de Resoluções Estaduais, permitindo que os 853 municípios fortaleçam suas atividades de enfrentamento às arboviroses.
· Capacitações contínuas: a SES-MG tem desenvolvido capacitações para aprimorar os processos de trabalho relacionados à vigilância, prevenção e controle das arboviroses.
· Campanha de mobilização: Além das campanhas executadas ao longo de todo o ano, em novembro, a SES-MG executou o "Dia D" em todos os municípios que aderiram à campanha, com o objetivo de sensibilizar a população e antecipar as ações de prevenção nas localidades.