Música

Fagner mata a saudade de Belchior em álbum com parcerias e duas inéditas

Compositor cearense homenageia o conterrâneo e amigo nas 12 faixas de 'Meu Parceiro Belchior', oito delas escritas com o saudoso poeta

Por Bruno Mateus | @eubrunomateus
Publicado em 14 de outubro de 2022 | 08:33
 
 
 
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No ano passado, Fagner teve uma espécie de reencontro com sua juventude e com Belchior, amigo e parceiro de tantas histórias e canções que faleceu há cinco anos. Em 2021, Fagner recebeu a notícia de que “Alazão” e “Posto em Sossego”, escritas no início dos anos 1970 a quatro mãos com o bigodudo cearense, seu conterrâneo, tinham sido encontradas pelos pesquisadores musicais Renato Vieira e Marcelo Fróes nos arquivos dos órgãos de censura da ditadura militar (1964-1985).

As canções permaneceram inéditas até ontem. Nesta quinta-feira (13), dia em que Fagner completou 73 anos, chegou às plataformas digitais o álbum “Meu Parceiro Belchior”, produzido por Robertinho de Recife, que também assina os arranjos do disco. Ao longo de 12 faixas, Fagner faz uma declaração poética e musical ao amigo, com quem manteve uma relação turbulenta, de brigas e abraços, confidências e distâncias.

Fagner e Belchior, dois dos principais nomes do grupo de artistas que ficou conhecido como Pessoal do Ceará, moraram juntos no Rio de Janeiro, no início da década de 70, quando os dois buscavam um lugar ao sol dentro da música popular brasileira. 

Levada pela guitarra à la George Harrison de Robertinho, “Alazão” é solar, fala dos tempos de bares e mares em Fortaleza. “Posto em Sossego” é balada cheia de poesia: “A cidade chora a rua/ Um pranto preto de asfalto/ Linha leve, fina faca/ Que corta a quadra em pedaços/ Que dão no meu coração/ Posto em sossego em teus braços”, canta Fagner.

Musicar letras compostas há 50 anos não foi tarefa difícil para Fagner. “Alazão”, segundo ele, foi a que saiu com mais facilidade. “Graças a Deus, tenho uma memória fantástica, lembro de melodias. Fizemos as duas quando morávamos em Copacabana. Foi bom ter reencontrado essas canções”, comenta o compositor.

“Meu Parceiro Belchior” (Universal Music) já seria um registro importante “só” por dar vida às duas canções, mas o álbum vai além ao ampliar e realçar a parceria dos artistas cearenses. Das 12 faixas, oito foram escritas por Fagner e Belchior, como “Mucuripe”, de 1972. Gravada por Elis e Roberto Carlos, ela aparece em versão ao vivo, captada em show no Rio de Janeiro.

Com participação de Amelinha, também integrante do Pessoal do Ceará, “Bolero em Português” é uma raridade, já que nunca foi gravada por nenhum dos dois. Na realidade, a dupla dedicou a canção a Angela Maria, que nunca a gravou. Cláudia Versiani, em 1978, fez o único registro da música.

“Contramão”, tabelinha de Belchior e Fagner que veio à tona em meados dos anos 1980, recebe a contribuição de Frejat na voz e no violão. “O Frejat é uma coisa incrível, tenho uma amizade com ele. Eu havia gravado essa mesma música com o Cazuza, há 36 anos. Ele morou no mesmo prédio onde moro até hoje. Isso tudo faz uma passagem no tempo”, comenta Fagner.

O forrozeiro cearense Xand Avião dá tons contemporâneos e dançantes a “Noves Fora”, canção que remonta ao início da dobradinha Fagner-Belchior. “Conheço o Xand há um tempo, no começa da pandemia fizemos uma tal de live juntos, foi muito bacana. A gente tem se comunicado”, diz.

Pouco conhecida, “Romanza” ressurge roqueira no álbum, selada por um power trio formado pelos irmãos Arthur Monticelli (guitarra), Bruno Monticelli (bateria) e Vitor Monticelli (baixo). O disco contempla praticamente toda a criação conjunta de Belchior e Fagner.

Da obra do parceiro, Fagner buscou “A Palo Seco”, que abre o álbum com a voz de Belchior na versão gravada no espetacular “Alucinação” (1976), “Paralelas”, “Galos, Noites e Quintais” e “Na Hora do Almoço”, escolhida pelo cantor como a mais emblemática das releituras: “Foi com ela que Belchior ganhou o Festival Universitário (de Música Brasileira, em 1971). Essa música abriu muitas portas para a turma do Ceará, abriu o mercado. Ela é um marco, revelou nosso movimento. Quando gravei, lembrei dos nossos primeiros momentos”.

Inevitavelmente, ao colocar voz nas músicas de Belchior, Fagner sentiu saudade do conterrâneo. E um nó na garganta. “Belchior foi o grande responsável pela minha vinda para o Rio. Compusemos pouco, mas fizemos ‘Mucuripe’, que marcou extremamente nossa relação. Era minha obrigação gravar esse disco. Bateu saudosismo, principalmente em ‘Na Hora do Almoço’, revela o compositor, cuja frustração diz respeito a não ter trabalhado mais com o parceiro: “Lamento não termos feito mais músicas. Nossa parceria ficou mesmo no começo (das carreiras de ambos)”.

Com o álbum na praça, a ideia agora é gravar um DVD para registrar a homenagem ao amigo Belchior, que teve a obra revisitada, estudada e esmiuçada nos últimos anos. Da produção belchiana, Fagner admite que deixar “Espacial” de fora “foi um vacilo”. Contudo, ele abre portas para que “Meu Parceiro Belchior” ganhe um novo capítulo: “Já estou aqui pensando em fazer um segundo disco. Por conta da dimensão dele, da história, acredito que vá rolar mais coisas”.

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