Alaíde Costa, 86, não hesita ao falar sobre seu mais novo disco, “O que Meus Calos Dizem sobre Mim” (Samba Rock Discos), álbum de inéditas que chegou nessa quinta-feira (19) às plataformas digitais. Para a cantora, embora sua música esteja impregnada de emoção e de uma melancolia flagrante, espelhada na voz que revela boleros e sambas-canções comoventes e dilacerantes, o trabalho descortina a esperança delicada de um futuro e um mundo melhores.
“Eu também diria que há amor, muito amor”, completa. Descoberta no programa de Ary Barroso, em 1955, Alaíde gravou o primeiro dos mais de 20 discos no fim daquela década, quando se juntou aos grandes nomes da bossa nova. Dali em diante, o caminho de uma das maiores cantoras da música popular brasileira foi repleto de espinhos. E calos.
Alaíde Costa teve de se apresentar em muitos programas de auditórios, bares e boates para cavar oportunidades que para outros artistas apareciam tão natural quanto facilmente. Mas, para Alaíde, o percurso foi tortuoso. “Achavam que eu cantava bem, mas não tinha uma grande voz ou que escolhia um repertório difícil. Era sempre assim. Queriam que eu cantasse samba e rebolasse, mas não era isso que eu queria fazer. Então foi muito difícil chegar aqui”, ela conta.
Mesmo sendo a única mulher a participar do clássico “Clube da Esquina” (1972), de Milton Nascimento e Lô Borges, e tendo escrito canções com Vinicius de Moraes e Geraldo Vandré, entre outros pesos-pesados, Alaíde Costa se manteve firme no propósito de cantar e interpretar o que bem lhe conviesse e desse prazer, sem abrir concessões a gravadoras ou empresários.
Isso teve um preço: “Muitas vezes, por ser convicta e firme, fui escanteada. A cada movimento que surgiu na música brasileira, eu fui afastada de alguma forma, seja das gravadoras, seja da televisão. Continuei cantando em bares e boates mesmo depois de já ter gravado discos e ser uma pessoa conhecida, porque é o que eu sei fazer. Lutei e até hoje eu luto, mas é muito cansativo ter de lutar sempre”.
Ao escolher o repertório de “O que Meus Calos Dizem sobre Mim”, Alaíde se deparou com “Aos Meus Pés”, de João Bosco em parceria com o filho Francisco. Pouco conhecida, a canção aparece na trilha da novela “A Lei do Amor” (Globo), de 2016, mas nunca constou em um álbum de Bosco. “O meu caminho eu mesma fiz/ Não foi ninguém que me apontou/ Eu me virei sozinha/ Comi o pão todinho que o diabo amassou/ Eu não faço fiado/ Mas dou sempre tudo por amor”. Ao ouvir esses versos, a compositora disse uma, duas, várias vezes durante o processo de gravação do álbum: “Essa música sou eu”.
“É exatamente a minha história. Eu nem sabia que a música tinha sido trilha de novela, fiquei achando que ela tivesse sido feita para mim. Coincidências da vida, né? Caiu como uma luva para mim”, observa Alaíde.
Curiosamente, “O que Meus Calos Dizem sobre Mim” nasce de uma coincidência – ou melhor, de uma sincronia. Ao saber de uma live que a cantora faria interpretando a obra de Johnny Alf nas plataformas do Museu Afro-Brasil, em 2020, o jornalista e produtor musical Marcus Preto enviou a peça de divulgação do show para alguns amigos. Um deles era o rapper Emicida, que se empolgou, pois a live seria no dia de seu aniversário. Ele agradeceu a Marcus, que fritou a cabeça por dois dias até enviar a seguinte mensagem: “E se a gente fizer um disco foda da Alaíde?”. “Eu tô dentro, né?”, Emicida não titubeou.
Repertório
Marcus Preto e Emicida, dupla que assina a produção musical do disco, convidaram Pupillo para fazer a direção artística. O álbum reúne oito faixas, sete delas inéditas, de compositores como Erasmo Carlos, Joyce Moreno, Céu, Nando Reis, Ivan Lins, Tim Bernardes, Fátima Guedes, Guilherme Arantes e do próprio Emicida. O encontro de artistas de distintas gerações deixou Alaíde emocionada: “Estou bem surpresa de ter tanta gente jovem querendo participar, por querer saber de mim e gostar do que eu faço. Eu sempre procurei me renovar, renovar meu repertório, então ver tantos jovens interessados em mim é gratificante demais”.
“Turmalina Negra”, “Nenhuma Ilusão”, “Tristonho”, “Berceuse”, “Pessoa-Ilha”, “Praga” e “Aurorear”, que fecha o disco e empresta o verso “O que meus calos dizem sobre mim” para o título do álbum. Todas foram feitas especialmente para o novo disco de Alaíde Costa, que explica ter tomado o cuidado de tentar traduzir com sua voz o que o compositor estava querendo dizer. “Isso é muito importante, se colocar no lugar do autor, de quem fez a letra. Aliás, tive pouco tempo, tudo aconteceu muito rápido, mas estudei e espero que eles tenham ficado felizes como eu fiquei ao interpretá-los”, comenta.
Outros compositores – estamos falando de nomes como Guinga, João Donato, Marcos Valle, Nelson Angelo e Francis Hime – também mandaram melodias para Emicida colocar letra. Uma composição inédita de Alaíde e letra de Paulo Alberto Ventura já foi feita. Tais faixas estarão em um segundo disco. Talvez tenhamos até um terceiro: “Muita gente ainda está mandando, então vamos fazendo. Vamos ver até quando vou conseguir. Espero que Deus me ajude a manter essa voz até gravar todo mundo”.
Alaíde Costa conta que está rezando para que algo de ruim passe, sem revelar o quê, e quer ficar “tranquila no finalzinho da vida, numa boa”, mas ainda luta e nunca se esquece de agradecer a Deus por estar aqui, com seus 86 anos, interpretando as canções que fizeram para ela. “E eu acho que não tenho voz de velha, né? Deus me ajudou nisso, ele tem sido muito bom para mim”.
E Alaíde Costa tem sido boa demais para a música popular brasileira em todos esses anos. “O que Meus Calos Dizem sobre Mim” é belíssimo, derrama sentimento e delicadeza em arranjo, em cada melodia, em cada vez que Alaíde ergue sua voz; é trilha perfeita para aquele amor sem pudor e sem vergonha – talvez mesmo sem futuro –, que dança no salão à meia-luz, dois pra lá, dois pra cá, rosto colado entre fumaça de cigarros e batidas de copo na mesa.