A alta do dólar após a reeleição do presidente Lula (PT) começa a impactar as cotações de commodities agrícolas como soja, milho, açúcar, trigo e café. Se de um lado o avanço da moeda americana pode ajudar o produtor, de outro ameaça afetar o bolso do consumidor brasileiro.

Segundo analistas, a situação pode gerar repasses para os preços finais de parte dos alimentos caso o câmbio siga pressionando as cotações. Soja e milho afetam a produção de carnes por servirem de base para a alimentação animal.

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Na semana passada, após a vitória de Lula, o dólar acumulou alta de 9,2%. A moeda americana atingiu na terça-feira (3/11) o maior nível desde dezembro de 2025, a R$ 5,486 - o avanço diário foi de 0,7%. Agentes do mercado financeiro têm manifestado preocupação com o rumo das contas públicas no quarto mandato de Lula. Nesat quarta a moeda abriu em queda, após os democratas conquistarem a maioria nas duas casas do Congresso dos EUA. Às 9h48, recuava 0,20%, cotada a R$ 5,475.

"Quanto mais tempo o dólar permanecer acima do pré-eleição, maior é a probabilidade de ter algum impacto nos preços", diz o economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) disse na terça que a alta do dólar frente ao real aumentou a competitividade da soja brasileira no mercado internacional, estimulando o interesse de compradores estrangeiros.
Conforme a instituição, o movimento impulsionou os preços, que voltaram aos níveis do início de outubro.

Nesta terça, a saca de 60 kg de soja custava R$ 152,45 no Paraná, aponta indicador do Cepea. Isso representa uma alta de 3,9% ante o patamar de 23 de outubro (R$ 146,69), antes do segundo turno das eleições.

O centro também afirmou que as cotações do milho voltaram a subir, favorecidas pela valorização do dólar e pelo avanço dos preços nos portos.

A saca de 60 kg custava R$ 66,19 nesta terça, 3% a mais do que às vésperas do segundo turno (R$ 64,27). A região de referência dos dados é a de Campinas (SP).

"Teve algumas altas até bem expressivas de soja em grão e milho, porque os preços da maioria das commodities que a gente exporta são feitos de fora para dentro", diz o analista Gabriel Viana, da consultoria Safras & Mercado, em referência ao impacto do câmbio.

Além do dólar

Enquanto o dólar pressiona, outros fatores impedem um aumento mais intenso das cotações neste momento, segundo Viana. Um deles é o avanço do plantio da soja no Brasil.

O especialista afirma que o clima até agora tem permitido a semeadura na maioria das regiões, exceto em locais que sofrem com fortes chuvas na região Sul.

A questão é que a alta das temperaturas prevista com o fenômeno climático El Niño pode atrapalhar as lavouras mais à frente, pondera o analista.

Outro fator a ser observado é o comportamento dos preços do óleo diesel, uma vez que o combustível é um dos insumos utilizados na produção agrícola.

Com a alta do petróleo após o início da guerra no Irã, o governo passou a subsidiar os preços do diesel no Brasil. A subvenção ao combustível foi renovada por 30 dias na semana passada.

"Em caso de uma mudança na política da subvenção, a gente pode ter um aumento de preço do diesel muito agressivo justamente no momento de cuidados com a lavoura e talvez até no início de colheita", diz o consultor.

Açúcar e trigo também são impactados

De acordo com o Cepea, o movimento de alta nas cotações do açúcar cristal no mercado à vista foi intensificado na última semana de outubro, após o segundo turno das eleições. A instituição associou o impulso à valorização do dólar.

Na média semanal de 26 a 30 de outubro, os preços do açúcar cristal branco no estado de São Paulo registraram média de R$ 128,57 por saca de 50 kg, aumento de 2,3% frente à semana anterior (R$ 125,63). Foi a 15ª alta semanal consecutiva - sequência de valorização mais longa desde 2020.

A saca de açúcar abriu esta semana cotada a R$ 127,33 nesta terça. O valor é 1,5% superior ao de 23 de outubro (R$ 125,44).
Outro reflexo envolve o trigo, insumo usado na produção de alimentos como pães, massas e biscoitos.

Nesta quarta (4/11), o Cepea afirmou que a oferta restrita do cereal de boa qualidade, devido a chuvas durante a colheita, está elevando as cotações. O cenário, conforme a instituição, foi reforçado pela alta do dólar na última semana de outubro.

O preço médio do trigo teve alta de 2,2% no mês passado no Rio Grande do Sul, indica o Cepea. O estado é o maior produtor do país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 9IBGE).

O Rio Grande do Sul também lidera a produção nacional de arroz. Nesta quarta, o Cepea afirmou que o forte avanço do dólar na última semana de outubro voltou a colocar as exportações de arroz em casca no radar do mercado no estado.

Segundo o centro de estudos, a expectativa de retomada da demanda externa levou parte dos vendedores a adiar negócios, enquanto as indústrias seguiram limitando as compras, diante das vendas fracas e da dificuldade de repassar os preços da matéria-prima.

Em outubro, a média de preços calculada no Rio Grande do Sul foi a maior, em termos nominais, desde fevereiro de 2025, disse o Cepea.

Dólar alto sustenta preços do café

Na semana passada, o centro afirmou que as cotações do café estão firmes no mercado nacional, impulsionadas pela valorização do dólar.

Conforme a instituição, o movimento cambial sustentou os preços domésticos, mesmo diante das quedas observadas no cenário internacional.

A saca de 60 kg do tipo robusta saía por R$ 975,32 nesta terça, 4,1% acima do patamar às vésperas do segundo turno (R$ 936,73). Já o arábica custava R$ 1.611,06, nível 0,6% acima do registrado em 23 de outubro (R$ 1.601,95).