Sem penitência

Bares de BH aumentam faturamento na Quaresma e peixarias lamentam vendas fracas

Perda do costume religioso de jejum de carne vermelha, somado ao aumento de quase 18% no preço de pescados, tem afastado clientes

Por Shirley Pacelli
Publicado em 15 de fevereiro de 2024 | 06:00
 
 
 

“Estão fazendo churrasco na Sexta-feira da Paixão. Eu estou no ramo há mais de 40 anos e nunca vi uma quarta tão fraca”. O desabafo é de Francisco de Melo, de 53 anos, que há 30 trabalha na Peixaria São Francisco, fundada em 1920 no Bonfim e atualmente localizada no bairro Cidade Nova, na região Nordeste de Belo Horizonte. Segundo ele, até meados de 2019, na Quarta de Cinzas, ele vendia cerca de 1.000 kg de peixe para os clientes, mas neste ano apenas 300 kg foram vendidos na data (14/2). Enquanto Francisco lamenta o movimento fraco, do outro lado há bares que vem faturando mais no período. No Filé, tradicional bar da av. Fleming, na região da Pampulha, que tem nas carnes vermelhas e porções seu carro-chefe, a expectativa é de um incremento de até 30% no faturamento. “Não temos impacto na venda de carne e o consumo de peixe aumenta”, explica Ilton Clever, de 38 anos, gestor de alimentos e bebidas da casa. 

Para 2024, Francisco estava com uma expectativa boa para o dia símbolo de início da Quaresma, investindo numa maior variedade de peixes e quantidade de estoque, além de contratar mais pessoal. De quatro funcionários, ele chegou a aumentar para sete o número do seu quadro. “Hoje deu só uns 10% de melhora [nas vendas]. A primeira quarta-feira da Quaresma é bem esperada pelo ramo de peixaria”, lamenta o comerciante. 

Apesar de um primeiro dia de movimento fraco no período, a expectativa, segundo Francisco, é de um incremento de 30% nas vendas de peixes na Quaresma deste ano.  “A gente espera sempre o melhor. Ano passado foi 20%, mas os clientes ainda não apareceram neste ano”, explica. 

 

Peixes estão quase 18% mais caros, segundo pesquisa

O pescado mais vendido na Peixaria São Francisco, que conta com 20 variedades, é o filé de tilápia, que sai a R$ 65 o quilo. Mas entre as opções da casa há o tradicional bacalhau do porto, que saiu de R$ 235 para R$ 249,50 o quilo do lombo. “É um produto importado e está escasso. A gente tem que repassar. [Mas] o freguês anda assustado com o quilo do peixe. Muitas pessoas procuram o peixe pronto. Querem ir para o restaurante para comer. Jejum só na quarta e sexta e outras nem guardam mais os dias”, explica Francisco. 

Segundo uma pesquisa divulgada nessa quarta-feira (14/2) pelo Mercado Mineiro, em comparação ao ano passado, o preço médio do Bacalhau Porto Imperial chegou a cair 6,68%, passando de  R$196,43 para R$183,31 (lembrando que o corte apenas do lombo tem valor mais elevado). De acordo com o levantamento, o preço dos pescados e frutos do mar podem variar mais de 140%, como no caso do camarão Sete Barbas G, que  pode ser encontrado de R$31,90 até R$76,90. 

Para driblar a inflação dos valores dos peixes, Ilton Clever, do Filé, explica que costuma negociar com seus fornecedores: ele garante compras semanais e, para alterar o preço, as empresas precisam avisá-lo com até 30 dias de antecedência. “Às vezes, eu compro em São Paulo. Eles conseguem enviar pagando frete e ainda compensa pela diferença daqui. Então, o negócio é buscar fornecedor e negociar para manter a rentabilidade”, explica. 

 

Peixe vira queridinho dos clientes na temporada

O tradicional Bar do Careca, no Cachoeirinha, na região Nordeste do BH, também não é afetado pelo hábito de penitências de álcool e carne comuns ao período.  “O pessoal não vem só para beber, vem para comer. E tenho peixe que substitui a carne no cardápio”, explica Orcínio Ferreira, de 76 anos, o Careca, que dá nome ao bar. Segundo ele, as bebidas representam apenas 30% do seu faturamento. 

“Pouca gente segue a tradição de não comer carne na Quaresma. Antigamente, não podia nem falar em carne numa Sexta-feira da Paixão. Hoje o pessoal compra picanha, come carne cozida, filé…”, observa Careca. 

Apesar de não abrirem mão da carne, os clientes seguem consumindo mais peixe no período. Segundo Orcínio, as vendas de pratos com pescado aumentam de 30% a 40%. No extenso cardápio, com mais de 30 itens, há truta com castanha e alcaparra, traíra sem espinha frita, filé de pescadinha e a famosa moqueca de peixe gurijuba.

Careca explica que compra o peixe, sempre fresco, na mesma peixaria de BH, na região do Bonfim. O filé de gurijuba sai para ele a R$ 79 o quilo. E, mesmo diante de preços mais caros, ele não repassa os custos para os clientes. Há cerca de cinco meses, não há nenhuma alteração de valores no cardápio do bar e não será diferente na Quaresma. “Mesmo se compro mais caro e o custo subir, não mexo. A gente ganha com a volta do freguês futuramente”, explica. 

Para o historiador André Bueno, de 35 anos, mestre em educação e docência da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o fato da população estar abandonando o costume de cortar o consumo de carne vermelha e álcool durante a Quaresma é apenas o reflexo de mudanças de tempos. “Aquela geração que fazia essa penitência, que era ligada ao fervor religioso, está nos deixando. Tais tradições vão se renovando”, explica. 

Ele também lembra que o acesso a esses itens era mais difícil para gerações passadas: carne era item de luxo, o que pesava na relevância do sacrifício ao abrir mão dela. “Hoje tem gente que fala que vai ficar sem celular”, observa. 

O historiador também destaca que houve uma mudança na própria concepção da Igreja Católica sobre o que é penitência. “Como católico, vejo que a igreja tem buscado a questão da moral. Não adianta deixar de comer carne em 40 dias e ser uma péssima pessoa no resto do ano. A igreja está mais renovada”, detalha Bueno, que também lembra que o catolicismo vem perdendo seguidores nos últimos anos para outras religiões, afetando na abrangência do costume popular. 

A tradição do maior consumo de peixe no período ainda permanece porque, para o historiador, é justamente uma iguaria de consumo, de prazer, e não de proibição. “Principalmente o bacalhau. [As pessoas] já têm como tradição comer bacalhoada no Sábado de Aleluia. Tem uma questão da culinária, por isso se mantém”, explica Bueno. 

Para André, o fato do Carnaval de BH estar se tornando referência no país, a ponto de tirar holofotes de grandes cidades como o Rio de Janeiro, também influencia na mudança de comportamento. “Antigamente, na Quarta de Cinzas se encerrava o Carnaval na cidade. Agora, ultrapassa 15 dias de festa”, diz. 



 

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