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Montagens, chamadas de MTGs, fazem jovens conhecerem músicas que fizeram sucesso no passado

Mixagens são a porta de entrada para descobrimento de novas músicas; especialistas alertam para experiência superficial com as obras

Por Laura Maria
Publicado em 10 de junho de 2024 | 06:12 - Atualizado em 10 de junho de 2024 | 11:01
 
 
 

Basta rolar alguns posts do Tiktok ou dos reels dos Instagram para escutar uma voz bastante conhecida – pelo menos pelos millennials. Trata-se de Seu Jorge cantando “Quem Não Quer Sou Eu.” Mas em vez da balada melodiosa da canção do álbum “Música Para Churrasco, Vol. 1” (2011), o que se escuta ao fundo é uma batida acelerada de funk.

A canção é uma MTG (abreviação de montagem), feita pelo DJ Topo e por MC Leozin e tornou-se a música mais tocada no Spotify do Brasil e de Portugal, além de ocupar o primeiro lugar na Billboard daqui.


Belo Horizonte, a propósito, tem se tornado uma mina inesgotável das MTGs. É daqui, por exemplo, que surgiu a montagem de “Romance” (2011), música de Humberto e Ronaldo, que também tornou-se trilha sonora de centenas de milhares de vídeos nas redes sociais.

“Muitas das MTGs de BH falam de besteira. O legal do remix é que não tem idade para poder escutá-las. E eu acredito que essas plataformas ajudam bastante a disseminar esse tipo de música”, conta Lucas Saraiva de Almeida Freire, dono da página MTG Maladas BH (@mtg.maladas.bh), que soma quase 70 mil seguidores no Instagram.

As músicas remixadas com funk fazem sucesso nas trends das redes sociais, e, consequentemente, tornam-se conhecidas da Geração Z. Esse é o caso da estudante Luiza Coutinho, de 17 anos. Ela, que usa o Tiktok e o Instagram todos os dias por pelo menos uma hora, conheceu “Quem Não Quer Sou Eu” somente depois que a música viralizou. “Escutei a versão remixada e gostei muito, mas não sabia da existência da música original. Isso acontece bastante. Conheci, por exemplo, nas redes sociais, um remix feito pelo DJ Betim ATL de ‘Meu Sangue Ferve por Você’, de Sidney Magal, mas não conhecia a música original.


“Já reparei que o TikTok traz de volta muitas músicas que já estiveram no auge. Minha canção preferida, ‘Look After You’ [da banda norte-americana The Fray], é de 2005, ano que eu ainda nem era nascida, e eu a conheci por meio do Tiktok. Há também outras músicas que descobri por causa da rede social, como ‘Iris’ (1998), do Goo Goo Dolls”, aponta.

A estudante, inclusive, usa o Tiktok como um de seus buscadores na internet. E ela não está sozinha. Pesquisa da YPulse para o site Axios revelou que apenas 46% das pessoas com idade entre 18 e 24 anos usam o Google para fazer pesquisas, dando preferência ao Tiktok. Esse número já sobe para 58% quando se observa pessoas que têm entre 25 e 39 anos.


Professor de comunicação e cultura na PUC Minas, Caio Giannini Oliveira enxerga de maneira positiva essa nova forma de consumir música, literatura e cinema. “Há músicas reaparecendo depois de mais de 30 anos de seu lançamento, e elas vêm justamente dessas plataformas. Isso é bem legal”, indica. Apesar disso, o doutor em administração chama a atenção para o fato de que muitos conteúdos das plataformas de mídias sociais são produzidos artificialmente. 


“Entendo que muitas obras que viralizam são verdadeiramente atemporais. Mas é preciso levar em conta também que essas plataformas funcionam em função daquilo que chama a atenção. Por isso, muitas pessoas estão ali fazendo uma seleção específica de conteúdo, por vezes repercutindo algo polêmico sobre alguma obra, pensando no aumento do número de seguidores. Nem tudo é espontâneo, por mais que queiram parecer ser”, diagnostica.


O especialista ressalta ainda que conhecer novas músicas, filmes ou livros não é algo exclusivo dos mais novos. “Colocar todo mundo em caixinhas de idade não é algo muito feliz. De fato, a Geração Z passa o dia com o telefone na mão, mas também os millennials, a Geração X, os boomers… É claro que muitas vezes vemos uma linguagem mais voltada para a Geração Z, mas a verdade é que tem gente de todas as idades usando todas as plataformas”, esclarece.

De fato, o tiktoker Diego Falabella (@difalabella_), que tem um canal na rede social dedicado a colocar em evidência filmes de terror e suspense antigos, observa que um público com diferentes idades assiste aos seus vídeos, mesmo que a prevalência seja o da Geração

@difalabella_ Você já imaginou como é um anjo? Seria parecido com as descrições da bíblia ou os paineis das igrejas? Esse filme tem uma das representações mais impressionantes que existe. Vale muito apena! #filmesdesuspense #filmesparaassistir #anjos ♬ Gothic sad music box song - kurenaidouke

 

“O público que consome meu conteúdo é bem variado, acho que a idade não é um fator determinante. O que mais influencia é o gosto pelo desconhecido ou insólito”, afirma. Produções cinematográficas fora das plataformas de streaming, inclusive, são as que mais atraem a atenção de seus seguidores. “Alguns filmes que fizeram muito sucesso no meu perfil foram ‘O Silêncio do Lago’ (Spoorloos, 1988), ‘Possessão’ (Possession, 1981), ‘O Enigma de Outro Mundo’ (The Thing,1982) e ‘A Relíquia’ (The Relic, 1997)”, destaca.


Experiência com obras pode ser superficial


Por mais que conteúdos de redes sociais como o Tiktok possam exercer um papel significativo no descobrimento de novas obras, é importante ficar atento à maneira como elas são consumidas. É que mostra a doutora em comunicação pela UFMG e professora de jornalismo da PUC Minas, Verônica Soares da Costa.

Quando perguntada se há riscos para uma obra, quando há divulgação somente de recortes dela, a professora indica que o “maior prejuízo, talvez, não seja para obra em si ou para o autor, mas, sim, para quem o consome.”


“[O usuário] se contenta com uma experiência superficial, fragmentada e que o afasta de algo muito mais interessante, que pode, inclusive, levá-lo a contemplar momentos de tédio, de insatisfação e de dificuldade, próprios do processo de leitura”, diz, citando a literatura como exemplo.

“Eu achei os memes do trecho do ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, de Machado de Assis, muito divertidos, mas tenho minhas dúvidas se, de fato, eles vão converter na leitura da obra”, observa.


Isso não significa, no entanto, que as redes não tenham capacidade de provocar os usuários para o consumo no off-line. “Não podemos ler isso como um efeito de causa e consequência, do tipo: ‘se eu postar ou se esse vídeo viralizar sobre esse livro, necessariamente isso vai gerar maior leitura.’ Mas acredito que há, sim, potencial. Temos, inclusive, dois exemplos mais recentes para além da obra do Machado, que são o livro ‘Torto Arado’, do Itamar Vieira Jr., e ‘Tudo É Rio’, da Carla Madeira”, diz, ressaltando que houve aumento no número de vendas após publicação de resenhas das obras nas redes.

 

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