Carlos Francisco não para. Desde que foi chamado de última hora para fazer uma cena no filme “Bacurau” (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o ator mineiro não tem saído dos sets. “Estou em Recife agora, para o novo longa do Kleber”, avisa, ao atender o telefone, sem negar que o cinema lhe tem levado a vários lugares e estilos de produção – e também a muitos prêmios, no Brasil e no exterior.

Com o filme “Estranho Caminho”, que estreia nesta quinta-feira (1º) nos cinemas, ele recebeu o troféu de melhor ator no Festival de Tribeca (criado por Robert De Niro), nos Estados Unidos. É uma produção cearense, assinada por Guto Parente, em que interpreta o pai sistemático de um cineasta que volta de Portugal para uma mostra de seu trabalho e acaba ficando em Fortaleza, sendo pego de surpresa pelo início da pandemia.

Não seria exagerado dizer que Francisco virou o pai preferido do cinema brasileiro atual. Também é, nesta condição, como o zelador que tenta fazer o filho jogar bola, que ele teve uma atuação elogiada em “Marte Um”, do mineiro Gabriel Martins. A escolha se deve à idade (tem 62 anos) e também ao perfil. “Venho tendo a felicidade fazer papéis no meu perfil, com a minha idade e cara. Cinema tem muito a ver com perfil", salienta.

No currículo, ele já contabiliza “Arábia” (2017), de Affonso Uchoa e João Dumans, “No Coração do Mundo” (2019), de Gabriel Martins e Maurílio Martins, “Rio Doce” (2021), de Fellipe Fernandes, “Rua Guaicurus” (2021), de João Borges, e “Canção ao Longe” (2022), De Clarissa Campolina. “Graças a Deus a carreira está indo bem, com os ventos me levando para todo lado”, celebra esse ex-vendedor de caminhões.

Com vários filmes para serem lançados nos próximos anos, Francisco ganhou um papel afetivo em “O Agente Secreto”, quarto longa de Kleber Mendonça, protagonizado por Wagner Moura. “Ainda está cercado de mistério e não posso falar muito, mas meu personagem é o Alexandre, um projecionista antigo de cinema de Recife, que apareceu no filme anterior, ‘Retratos Fantasmas’. É uma espécie de homenagem que o Kleber está fazendo para ele”, revela.

Foi justamente pelas mãos de Kleber que o ator originário do bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, que as portas se abriram para ele.  O reconhecimento não demorou a chegar, ganhando prêmios por sua atuação em “Canção ao Longe”, no Festival de Brasília, e por “Marte Um”, concedido pela Academia Brasileira de Cinema. Além da conquista em Tribeca, em Nova York.

“É bacana saber que o trabalho da gente está sendo reconhecido. Sobretudo, sendo um ator negro de idade”, destaca Francisco, que, frisa, só havia recebido um prêmio quando se dedicou mais ao teatro. A láurea, no Festival de São José do Rio Preto, foi pelo trabalho na peça “O Assassinato do Anão de Caralho Grande”, do grupo Folias, fundado por ele e outros artistas em 1997, quando residiu em São Paulo.

Ao retornar da capital paulista é  que os ventos começaram a soprar para o lado do cinema. Ele já tinha feito alguns filmes, com Thiago B. Mendonça, mas foi em BH que passou a ser chamado com frequência com diretores de destaque da cena contemporânea. “Este ano eu já filmei muito, estou filmando e ainda tenho alguns trabalhos pela frente. Espero que continue assim. Geralmente, não sou o protagonista, mas são bons papéis”, avalia.

A parceria com os cineastas tem se repetido, mostrando que um ator que todos gostam de ter por perto. “Também estou no novo filme do Guto Parente. Nem tenho personagem. Faço duas participações, mas fui fazer porque  fizeram questão. Tem essa coisa da relação que fica, costurando uma espécie de teia. É muito bacana poder reencontrar as pessoas, não só diretores como técnicos e atores também”.

Pai sistemático, mas capaz de gerar simpatia

O fato de “Estranho Caminho” ter sido filmado durante a pandemia foi importante para Carlos Francisco compor o personagem do pai que evita ao máximo o contato com o outro – até mesmo com o filho que não vê há dez anos, depois que este foi morar em Portugal.

“Nós filmamos durante a pandemia, um período delicado, em que todos usavam máscara. Eu já tinha tomado minha terceira vacina, pela idade e por ser quilombola, e a equipe inteira não tinha sido ainda. Ao longo das filmagens é que as pessoas foram sendo vacinadas”, lembra.

“Eu optei por não ficar em hotel, ficando sozinho num flat de Guto Parente. Eu mesmo fazia as coisas ou então comia no set com o pessoal, mas tudo sempre foi muito ritualístico”, conta. Um momento de isolamento que casou bem à ideia de um personagem preso ao seu mundo.

“É um cara meio sistemático, que não consegue se aprofundar nas questões. Quando querem saber alguma coisa, ele foge com uma palavra ou comportamento. Ao mesmo tempo, é engraçado, um pouco patético. Tem algo de simpático e acabamos não odiando completamente”, analisa.

Como a relação dele se restringe, no filme, ao filho recém-chegado, não seria difícil de imaginar que Carlos Francisco preferisse manter uma certa distância do companheiro de set, em prol de maior realismo. Mas não foi preciso.

“A primeira coisa que nossa preparadora Noá Bonoma fez com a gente foi um exercício básico. Podíamos fazer tudo, mas sem tirar o olho um do outro. Podíamos nos movimentar pela cena sem quebrar o olhar. Foi uma coisa incrível. Tão rico que a gente aproveitou isso depois para aquecimento de filmagem. Todo dia, antes de filmar, a gente achava um tempinho para fazer”, registra.