Em cartaz nos cinemas, "Ladrões" nos faz colocar no mesmo liquidificador "Repo Man - A Onda Punk" (1984), de Alex Cox, e os filmes do diretor inglês Guy Ritchie. Há um divertimento tipicamente britânico, baseado no exagero da violência a partir de personagens fracassados, como no trabalho do ex-marido de Madonna, mas percorre em toda a narrativa uma atitude punk, no bom sentido, ao enxergar neste submundo mais uma escolha do que uma punição. É o que nos leva a "Repo Man".
O longa de Cox (outro cineasta inglês) é um trabalho cult, enxergando naquele universo decadente povoado por seres à margem da sociedade uma crítica ao consumismo americano. Em "Ladrões", Darren Aronofsky mira numa situação de perda de valores, em que um protagonista de bom coração terá que aprender a ser ruinzinho para sobreviver. Ele é levado a pensar somente em si, além de ganhar algum dinheiro de forma ilícita. Nada mais Tio Sam.
O bartender Hank, vivido por Austin Butler, é primo de Otto Maddox (Emilio Estevez), o recuperador de carros de "Repo Man". Os dois veem suas vidas transformadas após serem envolvidos numa trama misteriosa que eles só darão conta ao final. Ao aceitar tomar conta, a contragosto, do gato do vizinho, Hank passa a ser visitado por bandidos violentos, apanhando miseravelmente, como um joão-bobo em que a gente bate sem receber nenhuma resistência.
A trilha sonora destila música pesada e acelerada enquanto cresce em Hank um sentimento de rebeldia, de completa desconfiança sobre instituições (polícia) e religiões (uma das gangues é de judeus ortodoxos). Essa é a alma punk que "Ladrões" faz brotar em sua narrativa, desmistificando a Nova York incrivelmente cosmopolita e sofisticada. A multiplicidade de línguas faz da Big Apple uma Babel que vive no pecado. Hanks, definitivamente, não é o bartender de "Cocktail", com Tom Cruise.
Na ausência de proatividade do protagonista, o filme faz dele um homem ingênuo, o último a saber do que acontece à sua volta. Essa benignidade se constrói na relação com uma mãe distante (voz de Laura Dern, que só aparece no finalizinho). Hank não tem muitos objetivos de vida, após se martirizar por conta de um acidente ocorrido no passado, mas exibe uma forte lealdade ao vínculo materno, como demonstração da importância da permanência de nossas raízes.
"Ladrões" é, basicamente, sobre isso: a tentativa do jovem interiorano em sobreviver na metrópole, conhecendo um mundo às avessas, em que um arisco gato é o único digno de confiança. Em torno disso surge muito humor calcado no uso extremo da violência e da falta de sorte de Hank, que só queria ser legal com seu vizinho. É um mundo sem regras, sem um Estado para lhe proteger. É onde se dá o ponto de identificação com o personagem, em sua assumida insignificância no mundo.
É o filme mais diferente de Aronofsky, diretor de filmes densos e estilosos, como "Réquiem para um Sonho" (2000) e "Mãe" (2017). Ele se aproxima mais de "O Lutador" (2008), porque ambos carregam um quê redentor que os outros não têm. Os protagonistas são levados a abandonar a carreira esportiva promissora e trabalhar como atendentes, mas acabam, apesar de todas as ressalvas, tendo que retomar o passado. Há una certa satisfação nisso, mas a decisão envolve perdas.
A filmografia de Arofsky trata de pessoas que, por algum impulso pessoal ou sobrenatural, precisam seguir uma determinada trajetória, mesmo contra a vontade. No caso de Hank, que precisava fazer um acerto de contas consigo mesmo, o destino vai literalmente à sua casa e o põe para fora. As coisas só caminham para ele quando percebe que não poderá voltar a usufruir da rotina que tinha - sempre quando tenta, sofre um solavanco, a colocá-lo novamente em ação.
Apesar dessa interessante construção dramática e dos pontos de identificação (humor corrosivo e doses de crítica política), o filme escorrega em sua previsibilidade, na comicidade calculada e no retrato simplista dos bandidões. Está mais para um filme de Ritchie, como "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes" (1998), "Snatch - Porcos e Diamantes" (2000) e "RocknRolla" (2008), em sua abordagem mais despretensiosa sobre as consequências da violência.