GRAMADO - Para viver um comissário de bordo dos anos de 1980 na série "Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente", com estreia neste domingo (31), na plataforma HBO Max, Johnny Massaro realizou muita pesquisa. Conversou com profissionais da época e participou até mesmo de simulador, um sala que reproduz os movimentos de uma cabine de avião. A experiência serviu muito bem ao personagem Nando, protagonista da história, mas foi a visão de um passageiro dos tempos atuais que fez arrancar risadas da plateia de jornalistas que acompanhou o lançamento no Festival de de Cinema de Gramado, onde o primeiro episódio foi exibido no tradicional Palácio dos Festivais.

"Acho uma pena que os serviços de bordo tenham ficado tão aquém dos anos 80. Antes serviam camarão e agora dão amendoim...", dispara Massaro. Sua companheira de cena, Bruna Lizmeyer, foi no mesmo caminho, traçando comparações entre as épocas. "A gente está falando dos anos dourados da aviação, né? Ela estava no auge e lembro de conversar muito, durante a pesquisa, com uma comissária de bordo que trabalhava na Varig, entendendo o que era a lógica do serviço. Tinha uma coisa de antecipar as necessidades do cliente. Se ele abria a bolsa para pegar um livro, você já acendia a luz. Se ele coçava a nuca, dava uma água, pois poderia estar sentindo calor", destaca a atriz.

"Tem um lugar de um serviço que pode ser exploratório, mas tem também um lugar de prazer de servir, um prazer de estar ali para o outro. Eram pouquíssimas pessoas que tinham o privilégio de viajar de avião e era uma oportunidade muito grande de se desconectar  da vida naquelas horas", comenta Bruna, que levou essas observações para a personagem Léa. Ao lado de Nando, ela assume uma responsabilidade que não está nos manuais, ao contrabandearem AZT dos Estados Unidos para o Brasil, numa época em que a Aids sofria um grande estigma, matando milhares de pessoas, e o principal remédio contra a doença ainda não estava autorizado a ser comercializado.

"Como um homem gay que nasceu nos anos 80, nasci com um atestado de morte, achando que morreria de Aids. Isso percorreu toda a minha trajetória de vida, a minha aceitação e o momento em que eu tive para assumir - para mim mesmo - que era gay e me entendercomo gay", assinala o roteirista e idealizador da série, Thiago Pimentel. "Durante a pandemia de Covid, o que pensei foi: é a segunda pandemia que estou passando e porquê essa é 'a minha pandemia' e a dos anos 80 era 'a do outro'. Por que a imprensa tem esse ponto de vista, não tratando como uma coisa nossa?", afirma Pimentel, ao falar do grande tema de "Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente".

O roteirista sublinha que, hoje, no Brasil, dez mil pessoas morrem de Aids por ano. "Porquê, se temos todo um sistema de prevenção e tratamentos? Isso se chama preconceito. E é por isso que a gente está contando essa história", pondera. "É preciso falar sobre preconceito, sobre heróis que, naquela época, contrariaram a lei e o que todo mundo dizia, principalmente o Ministério da Saúde, para quem iríamos todos morrer se tivéssemos Aids.  Esses comissários são personagens apagados de nossa história, porque a gente não os vê como heróis. E agora a gente está dando luz para eles", defende Pimentel, ao apontar a origem da história, baseada em fatos reais.

Ele recorda que a série surgiu após ler uma matéria de Leandro Machado para a BBC, que trazia o título "Contrabando do bem", publicada em 2020. "Os comissários verdadeiros odiaram, porque acharam que estavam sendo tratados como contrabandistas. Quem conhece um comissário de bordo dos anos 80 sabe que ele tinha VHS, calça da Lee... eles traziam tudo e o nosso conceito de contrabando  era diferente do que é hoje", diferencia Pimentel. A reportagem foca na criação de uma rede de solidariedade de funcionários da Variga - uma das importantes da época e que fecho as portas em 2006 - que ajudou centenas de pessoas.

Para o elenco, que tem ainda Ícaro Silva, Igor Fernandez, Hermila Guedes e Andréia Horta, a participação na série significou um mergulho profundo numa história sobre preconceito. Um serviço que essa série presta é atualizar o que é viver com HIV hoje em dia. Contar essa história com essas pessoas foi um processo muito amoroso e harmônico, com todos mostrando muita consciência da responsabilidade. Na época, era uma sentença de morte, mas hoje é uma sentença de vida. É um ponto pacífico na medicina que, quem vive com HIV hoje em dia  tem uma expectativa de vida igual ou maior das pessoas que não tem, justamente devido ao acompanhamento médico", diz Massaro.

Mineiro de Cataguases, Igor Fernandez expõe que o projeto serviu para mostrar o quanto ele era ignorante sobre o assunto. "Eu venho do interior de Minas e lembro que tinha uma pessoa chamada Dino, que era homossexual e vivia com HIV/Aids. As pessoas tinham medo dele. Eu era uma criança e não sabia a razão de ter medo dele. As pessoas com HIV sofreram muita pressão, muito preconceito, de todos os lados possíveis. O amor era um risco naquela época. Eu, como jovem hoje, vivendo uma coisa completamente diferente dos anos 80, vejo que é algo que precisa ser contado, porque estamos esquecendo de ter cuidado com o outro", avisa.

Para Fernandez, a HBO foi muito corajosa ao dar sinal verde para a produção. "É uma série que trata esse assunto com muito amor. Vocês irão ver que é uma série que sempre termina com uma frase para cima, com esperança. E é isso que agente quer passar para vocês", detalha. Para Carol Minêm, diretora ao lado de Marcelo Gomes, a série é uma homenagem a todas pessoas que lutaram na época e lutam até hoje contra essa epidemia, o preconceito e a desinformação. "Também é uma forma de homenagear as milhares de pessoas que já morreram pela Aids no Brasil e mundo e as pessoas que vivem com HIV e até hoje sofrem com o estigma".

(*) O repórter viajou a convite da organização do Festival de Gramado