ESSENCIAL

Escolha de músicas que tocam em um restaurante é tão vital quanto a criação das receitas

Chefs criam playlists especiais para tocarem no ambiente como um dos pilares da experiência gastronômia

Por Lorena K. Martins
Publicado em 20 de maio de 2024 | 08:18 - Atualizado em 20 de maio de 2024 | 12:00
 
 
 

Imagina uma cena do filme “O Guarda-Costas” (1993) sem “I Will Always Love You”, da Whitney Houston. Ou Julia Roberts em “Uma Linda Mulher” sem associá-la imediatamente com a clássica canção “Oh! Pretty Woman” (1990), de Roy Orbison. Faria sentido? E quando você ouve “My Heart Will Go On”, de Céline Dion, imediatamente seu cérebro o leva para “Titanic” (1997), não é verdade? 


Desligar uma trilha sonora à uma lembrança é quase impossível quando falamos de clássicos do cinema. A mesma conexão acontece com a comida. Agora, pensar na trilha sonora entra em uma das principais funções a serem definidas por donos de restaurantes e chefs pelo Brasil.


Muitas das experiências oferecidas pelo professor de gastronomia e chef Renato Quintino são acompanhadas de música. A relação, de acordo com ele, é recíproca. “A música é parte fundamental do meu trabalho. Uma canção, às vezes, inspira uma receita ou até uma aula que ensino. É quase tão importante como criar as minhas receitas; música é o que vai estar na atmosfera”, conta. 

Em uma de suas confrarias, Renato mergulhou no universo da língua Tupi. Todos as receitas elaboradas foram feitas com ingredientes nativos do Brasil acompanhadas de uma playlist criada por ele com músicas como “Maracatu Atômico”, de Claudya Costta, “Uirapuru”, de Zizi Possi, e “Reconvexo”, de Maria Bethânia. 

 


Paz

Na época das eleições presidenciais e da polarização do Brasil, ele criou uma playlist que teve como norte “A Paz”, de Gilberto Gil, e pratos feitos com ingredientes calmantes e liberadores de serotonina, como camomila, maracujá, abacate e gengibre. 

“A playlist precisa ter uma ordem das canções. Ela vai seguindo uma evolução de humores, de momentos… assim é um menu-degustação, repleto de altos e baixos, em vários timbres. E a última música, quando tudo acaba, também é importante”, acredita. 


A chef Bruna Martins, à frente dos restaurantes Birosca e Florestal, em Belo Horizonte, estudou saxofone popular na UFMG e se especializou em música brasileira. É claro que a musicalidade sempre foi um pilar definidor de suas criações, a começar pela escolha de Santa Tereza para abrigar seu primeiro restaurante, há 12 anos. O Birosca surgiu mesmo bairro em que nasceu o movimento do Clube da Esquina. Não por acaso, a música brasileira faz parte da trilha sonora do restaurante, muitas vezes executadas por um pianista ao vivo, todas quintas e sextas-feiras. “Aqui não toca batida eletrônica de jeito nenhum; acho cafonérrimo”, diverte-se. 


No ano passado, suas pesquisas sobre os peixes de rio resultaram em pratos de valorização do ingrediente e em um menu-degustação batizado de “O Milagre dos Peixes”, disco de Milton Nascimento, lançado em 1973, em que várias canções tiveram suas letras censuradas pelo regime militar no Brasil.