Qual é a relevância de um simples comentário numa rede social? Para o influencer e advogado Fernando Bruzzi, o peso é enorme, independentemente de quem está escrevendo. “Hoje em dia, se tem um perfil, você é protagonista, podendo contribuir ou atrapalhar. Mas ainda não viraram a chave. Acham que ainda estão no sofá vendo TV e fazendo comentários para as pessoas do lado”, registra.

Essa falta de responsabilidade chamou a atenção do influencer quando a dançarina Vanessa Lopes apertou o temido botão vermelho do “Big Brother Brasil”, em 19 de janeiro. A saída do programa aconteceu após grandes oscilações de humor, em que chegou a acusar os brothers e sisters de serem atores e estarem armando um complô contra ela. Foi o suficiente para atiçar o “tribunal” da internet.

“Estavam batendo na menina, sem qualquer responsabilidade, sobre uma situação (a confusão mental) que é crítica. Esqueceram que não é igual quando está diante da TV, em que você faz um comentário e morre ali. Quando se comenta nas redes sociais, você dá visibilidade. Ele não é anônimo, mas sim público”, analisa Bruzzi, que já sentiu na pele, por algumas vezes, o poder ofensivo dos internautas.

“Nesses casos, eu procuro a pessoa e proponho fazer um reel com ela, para dar uma visibilidade ainda maior ao comentário dela. Aí não querem, não fazem... Tiram a responsabilidade delas. Se deram opinião, estão dentro do jogo, participando da brincadeira. Mas têm medo de fazerem com ela o que fez com o outro”, avalia o influencer, que lamenta a falta de percepção dos internautas sobre o que é interação digital.

Como já é algo tão corriqueiro no mundo virtual, Bruzzi só vê solução numa legislação mais rígida. “Quando ela chegar na pessoa, quando pegar tudo isso, olhando as contas vinculadas ao perfil, com uma consequência imediata, as pessoas vão repensar. Elas já estão com medo, com identificação do computador e identificando os casos de casos de racismo e homofobia”, salienta.

O influencer não é formado em psicologia, mas se vale de alguns estudos da área para tentar explicar as razões de o ser humano promover reações maldosas na internet. Bruzzi não tem dúvida de que estão relacionadas a uma alteração no sentido de valor das pessoas, que está “bem desestabilizado, com as pessoas completamente superficiais, moldadas numa sociedade que é supercompetitiva”.

Ele deixa bem claro que o “inimigo” não é propriamente a tecnologia. “Independente do que é novo. É algo seu, de seu caráter. A gente não precisa jogar pedra em que está no fundo do poço. É melhor dar a mão do que jogar a pedra. A gente não precisa ensinar os outros a brincar de internet, mas sim ensinar valores, o apreço pela vida do outro. Se, na internet, você tem atitude agressiva, na vida real também tem”.

Aprovação

Outra consequência do peso dos comentários é se deixar levar desmedidamente, como dono de um perfil, pela busca de aprovação. “Isso de querer ter visibilidade massiva, o que pode acontecer, imagino, com pessoas que estão começando, tem um preço. O que elas fazem? Geralmente vão para um lugar de aprovação. Aí, no final das contas, não vão saber mais quem são, negando suas singularidades e apagando sua história”, critica Fernando Bruzzi.

Com seus comentários de cunho filosófico no Instagram, Bruzzi tem hoje 52 mil seguidores. Entre eles, nomes como a apresentadora Eliana, o autor de novelas Walcyr Carrasco e a atriz Isis Valverde. “O engraçado é que são pessoas que jamais teria contato na minha vida. O que faço, por gostar da área de humanas, é construir um texto lógico que possa ajudar as pessoas de alguma forma”.

Mas ele salienta que, “antes de mais nada, faz para se ajudar, como uma sessão aberta de terapia”. Ele recorre a uma mistura que envolve textos já lidos ao seu processo de vida. “É uma maneira de dar mais leveza a algo tão complexo como o ser humano”, explica. No início, eram textos escritos no Facebook. Mais recentemente passou para os reels, mudança que levou a um aumento de engajamento.

“As pessoas gostam dessa relação de identificação, acessando textos que dão sentido a um pensamento delas e dando um norte para a vida. Busco falar que são protagonistas das vidas delas. Eu não sou pastor ou guru. Quem vai ao meu Instagram procurando isso está no lugar errado. Não tenho a menor vontade de ir para esse lado. Não sou alguém que irá dizer o que é certo ou errado. Não existe semideus”, avisa.

Na internet, as pessoas põem para fora o que realmente são

Especialista em análise do discurso, a professora de Comunicação Rafaela Lôbo assinala que a etiqueta digital existe antes mesmo de a internet ser criada. “Ela não é tão diferente daquilo que a gente fazia antes do digital. (O fato de não seguir) Não é porque simplesmente a pessoa pensa que a internet é terra sem lei. O que acontece é que, no digital, ela não se sente tão exposta”, observa.

À frente do podcast “Comunique-se Bem”, do portal O TEMPO, ela salienta que o suposto anonimato das redes sociais se torna um estimulador para se escrever o que não deve nos perfis dos outros. “Se eu colocar essas pessoas num debate presencial, com todo mundo conversando, ela não fará isso. Por que? Porque elas sentem que podem ser criticadas na hora”, ressalta.

É por isso que existe tanto medo em falar em público. (Elas sentem que) O telhado é de vidro. A sensação é de que, ao fazer um comentário em público, a sociedade vai me olhar de lado. Então, ‘eu não faço’. Já quando se está numa rede social, ela sente que está blindada desse olhar dos outros”, comenta Rafaela.

A professora pontua que, na internet, as pessoas põem para fora o que realmente são. “Muitas vezes, elas entram e comentam por impulso. Mas tem gente que faz para agredir o outro. E por que ela faz isso? Às vezes, ela queria agredir alguém que estava do lado dela e não faz porque tem as amarras sociais”, analisa.

“Quando ele vê um grupo que pensa do jeito dele, isso o faz ganhar poder. Já perceberam que, após uma primeira pessoa fazer um comentário maldoso, vem vários outros em sequência. O primeiro fez por impulso, mostrando realmente o que tem dentro dele. E os outros, que também são preconceituosos, se sentem num grupo seguro”, registra.

Dentro da Comunicação, esse tipo de reação é abordada na teoria da “espiral do silêncio”. “Se penso uma coisa, mas ninguém no grupo pensa a mesma coisa, o que eu faço? Eu silencio. Na internet, eu não tenho ninguém para segurar os meus anseios, sentindo-me livre para colocar as barbaridades que estão dentro de mim”.

Rafaela Lôbo também destaca que, do lado de quem é bombardeado nas redes sociais, geralmente estão pessoas sem uma autoestima elevada para suportar as críticas. “Nós somos seres sociáveis. É o que nos faz querer comunicar. O que ele quer é aprovação, o faz da rejeição o maior de seus medos”.

“Quando eu publico alguma coisa, eu quero ser aceita, eu quero o like. O lke tem esse significado: eu sou aceito na sociedade. Mas ter a aprovação de um círculo físico é uma coisa, mas na rede social você quer a aprovação de pessoas que, muitas vezes, nunca viu. É preciso ter um trabalho emocional para avaliar que essa opinião não faz diferença para mim”, conclui.