Se na vigília buscamos o comando de tudo, inclusive dos nossos pensamentos, durante o sono é o nosso inconsciente que reina, derramando sobre as nossas mentes adormecidas tudo aquilo que não conseguimos (ou não queremos) acessar, principalmente de forma simbólica.

Tornamo-nos vulneráveis, não há controle de nada, muito menos dos nossos sonhos, que podem vir em formato erótico. Quem nunca sonhou que estava transando com o companheiro, com aquela pessoa que deseja ou mesmo com quem alguém que sequer imaginou um dia ter algum tipo de relação? Ao acordar, é comum virem sensações diversas, da curiosidade à angústia, do prazer à culpa.

Antes de tudo, é preciso entender que os sonhos são manifestações naturais da psique e têm funções importantes tanto para o corpo quanto para a mente. Do ponto de vista neurobiológico, eles acontecem principalmente durante a fase do sono REM, quando há intensa atividade cerebral, com as funções de reorganizar a memória e de processar emoções.

Já na perspectiva psicológica, especialmente dentro da visão junguiana, os sonhos funcionam como uma linguagem simbólica do inconsciente. “Jung dizia que os sonhos não são aleatórios, mas sim tentativas de autorregulação da psique, uma forma da mente tentar integrar e trazer à luz da consciência conteúdos reprimidos no Inconsciente”, diz Fernanda Araújo, psiquiatra, sexóloga e psicanalista junguiana. 

Em seu livro “A Interpretação dos Sonhos” (1900), Sigmund Freud descreve que os sonhos constituem uma realização disfarçada de um desejo reprimido. A análise do Pai da Psicanálise perpetuou a ideia de que sonhamos com aquilo que desejamos, mas não temos coragem de realizar.

O psicólogo e psicanalista Eduardo Oliveira confirma essa lógica, mas pondera que não se trata somente disso. “É também um processo de elaboração de conflitos psíquicos, de tentativas de elaboração inconsciente. No entanto, esses desejos são frequentemente de natureza tão crua, proibida ou socialmente inaceitável que, se aparecessem de forma clara em nossa consciência, nos causariam angústia e nos acordariam. Por isso, a mente precisa ‘disfarçá-los’”, analisa.

Na perspectiva junguiana, os sonhos têm uma função ainda mais ampla: funcionam como uma via de comunicação entre o consciente e o inconsciente, uma ferramenta de autoconhecimento e autorregulação psíquica.

“Sonhar é receber mensagens simbólicas que podem tanto apontar para nossas sombras (aquilo que não aceitamos em nós) quanto para recursos internos adormecidos, que podem nos ajudar a crescer e encontrar mais equilíbrio na vida”, explica Fernanda Araújo. Dessa maneira, o sonho pode, sim, revelar impulsos e instintos que nosso senso crítico, moral ou social tenta reprimir. “Mas reduzir os sonhos apenas a desejos escondidos é muito limitador”, pondera.

Também é importante ter em mente que mergulhar no universo onírico do sexo não significa, necessariamente, um reflexo da vida entre quatro paredes.

“Do ponto de vista da psicanálise, os sonhos raramente são apenas a expressão literal de um desejo sexual. Embora possam, sim, ser uma válvula de escape para uma libido reprimida, o erotismo no sonho é frequentemente uma linguagem simbólica para expressar outras necessidades e desejos intensos como de união e intimidade, de poder e domínio, de criatividade e de busca por partes de si mesmo”, explica Eduardo Oliveira.

Significado dos sonhos eróticos

É bem provável que, em algum momento, ao acordar, você tenha corrido para a internet pesquisar o significado de um sonho erótico. Mas as chances de acerto são praticamente nulas. Isso porque a análise de um sonho tem a ver com um processo individualizado e em um contexto. Então, não se fique horrorizado se você sonhou, por exemplo, que estava transando com parente.

“O grande equívoco é acreditar em interpretações fixas ou literais, como aquelas listas prontas que dizem ‘se você sonhou com tal coisa, significa isso ou aquilo’. A mente humana é muito mais complexa e individualizada do que isso. Na prática, um sonho erótico pode estar ligado tanto a desejos e conflitos íntimos quanto a fatores biológicos, como a própria atividade cerebral durante o sono REM”, pondera a psiquiatra e psicanalista Fernanda Araújo. 

Sonhos eróticos são, ainda, um terreno fértil para a manifestação de conflitos internos, como repressão sexual ou dificuldade de intimidade. “A forma como o sonho se desenrola diz muito. Sonhar com parceiros anônimos ou sem rosto, ou sentir uma desconexão emocional durante o ato no sonho, pode apontar para um medo profundo de vulnerabilidade, de entrega e de intimidade real na vida desperta. O sonho realiza o desejo pelo ato físico, mas mantém a ‘distância segura’ emocional”, explica a psicanalista e psicólogo Eduardo Oliveira.

O que as pessoas falam sobre sonhos eróticos

A reportagem de O TEMPO foi às ruas saber das pessoas quais significados elas atribuem aos sonhos eróticos. Para a empresária Rafaela Martelli, de 27 anos, ter esse tipo de sonho tem a “ver com a liberdade que você se dá no relacionamento.” Já para a terapeuta capilar Sara Cristina, de 48 anos, sonhar com sexo pode “reativar algo no relacionamento.” O empresário Matheus Augusto Felipe, de 30 anos, levou algumas dessas fantasias noturnas para a terapia. “Existe uma necessidade fisiológica, então o corpo libera até nos sonhos”, analisa. O também empresário Érico de Magalhães, de 49 anos, é mais racional. “É só ereção que provoca o sonho”, determina.

O importante, salienta Eduardo Oliveira, é enxergar os sonhos eróticos mais com um olhar de curiosidade que de julgamento, sem medo de cair nos braços de Morfeu e ser acertado pela flecha voluptuosa de Eros. 

E quando o orgasmo vem no sono?

Muitas pessoas relatam também ter orgasmos involuntários enquanto estão sonhando. Isso acontece porque, durante o sono REM, ocorrem alterações naturais no corpo: aumento do fluxo sanguíneo nos genitais, ereções no pênis e lubrificação vaginal, processos importantes para a saúde sexual.

"Esses fenômenos fazem parte do funcionamento normal do organismo e não dependem necessariamente de sonhos eróticos. O sonho entra nesse processo de duas formas. Primeiro, o corpo pode enviar sinais fisiológicos de excitação espontânea ao cérebro, que os incorpora ao enredo do sonho, transformando-os em imagens eróticas", explica a sexóloga Fernanda Araújo. 

Além disso, o sonho pode atuar como gatilho, intensificando a excitação já presente no corpo. "Nesse caso, a imaginação erótica aumenta ainda mais o fluxo sanguíneo e a sensibilidade genital, que pode ser reforçada por pequenos movimentos durante o sono ou pelo atrito com o lençol. A soma desses fatores pode culminar em um orgasmo involuntário, mesmo sem estímulo físico direto. Em outras palavras, o sonho erótico funciona como um 'gatilho interno' capaz de levar o corpo ao clímax sexual", explica.

A diferença é que, durante o sono, os orgasmos geralmente surgem a partir de estímulos internos, como excitação genital espontânea ou sonhos eróticos, e acontecem de forma inconsciente e involuntária, sem controle da pessoa. "Já no orgasmo desperto, os estímulos são em grande parte externos, envolvendo os sentidos e a imaginação, e a pessoa tem controle consciente sobre o ato, podendo decidir o momento, a intensidade e os toques", finaliza a especialista.