Trânsito

Usuários migram dos ônibus para os engarrafamentos

Migração para aplicativos pode fazer cidade ter que lidar com até mais 50,6 km de tráfego ao ano

Dom, 25/08/19 - 03h00
Migração para aplicativos pode fazer cidade ter que lidar com até mais 50,6 km de tráfego ao ano; Estudo mostra que coletivos perderam 50% dos passageiros, de 1994 até 2017

Ao mesmo tempo em que as companhias de ônibus perderam metade da demanda de passageiros no país em 20 anos, as empresas de viagens por aplicativos vêm ganhando mais espaço, com cada vez mais motoristas cadastrados. Essa possível transferência de usuários pode colapsar o trânsito no país. Em Belo Horizonte, bastaria que 10% dos quase 1 milhão de passageiros diários migrassem para serviços de motoristas sob demanda para a cidade ter que lidar com até 50,6 km adicionais de engarrafamento por ano, segundo estudo divulgado na última semana pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU). É o equivalente a quatro avenidas do Contorno, que tem uma extensão de 11,86 km.

Ainda segundo o órgão, as empresas de coletivos perderam 50,3% dos passageiros, de 1994 a 2017. Além do congestionamento, a possível mudança na forma de locomoção poderia gerar até R$ 1,08 bilhão de custos para Belo Horizonte, considerando acidentes de trânsito e mortes em decorrência do alto fluxo de veículos, doenças pulmonares e outros fatores. Uber e 99, entretanto, questionam o levantamento.

Decrescente

Dados da Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans) dão conta de uma redução da ordem de 19,1% no número de passageiros dos ônibus em uma década, passando de 216,9 milhões para 175,48 milhões, numa comparação entre o primeiro semestre de 2009 e o mesmo período deste ano. 

O presidente executivo da NTU, Otávio Cunha, atribui uma parte dessa queda a uma possível perda de passageiros para os motoristas de aplicativos. “O nosso setor vem perdendo demanda já há algum tempo, uma perda marginal a cada ano, que era compensada com o aumento do valor da tarifa, que, por sua vez, afastou mais usuários”, comenta.

Para o presidente executivo da NTU, Otávio Cunha, os preços também justificam a menor demanda nos coletivos. Em 2013, aliás, o aumento tarifário que aconteceria em São Paulo mobilizou uma série de manifestações por todo país. “Essa perda é impossível de recuperar via tarifa, porque ela já está alta. A gente não conseguiu reequilibrar o sistema”, reconhece.

Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de 2011, demonstra que o aumento nas tarifas de ônibus e um declínio na renda levaram a uma redução de 30% da demanda por serviços de ônibus. E existem outras explicações como “o desemprego e até mesmo os congestionamentos, que tornam as viagens mais demoradas”, afirma Cunha.

Segundo a BHTrans, a menor demanda por coletivos em BH se tornou mais acentuada a partir de 2014. De lá para cá, a redução foi de 22,58%. Isso coincide tanto com a chegada do Uber quanto com a crise econômica. Somente essa empresa de apps avançou de uma base de 500 viagens em agosto de 2017, para 2,6 bilhões em julho deste ano em todo país. Números regionais não são divulgados por eles.

Complementar

As principais empresas de transporte por aplicativo defendem que não existe uma competição entre elas e as empresas de ônibus. Em nota, a Uber diz que “diversas pesquisas e dados de viagens vêm demonstrando que o serviço complementa e incentiva o uso do transporte público por facilitar o acesso às linhas de ônibus ou metrô”. 

A empresa acredita que, ao contrário do que diz o anuário, a presença do serviço tornou as ruas e avenidas mais seguras para pedestres e motoristas. Pesquisa Datafolha feita neste ano corrobora para a afirmativa, indicando que 83% da população da região metropolitana da capital que consome bebida alcoólica passou a usar aplicativos de mobilidade em vez de dirigir.

O mesmo levantamento apurou que 87% dessa população já usou aplicativos como complemento ao transporte público.

Outro argumento a que a Uber recorre diz respeito ao horário em que o serviço é usado. Em Belo Horizonte, a faixa a partir das 20h na sexta-feira é o período com maior número de viagens, “justamente quando o trânsito está menos congestionado e a oferta de transporte público é menor”.

A 99 também sustenta que as viagens são usadas, muitas vezes, visando a “multimodalidade”. Exemplo disso é que 10% das viagens em São Paulo e no Rio de Janeiro começam ou terminam em estações de metrô e trem. A empresa ainda indica que um estudo feito junto com a USP “estimou que 85% dos passageiros são do transporte individual”.

Qualidade do serviço pode ser afetada por menor demanda

“A oferta de viagens é programada conforme a demanda. Se uma diminui, a outra também vai ser reduzida. Assim, o intervalo começa a ficar maior, a qualidade do serviço cai. Levando menos pessoas, o custo aumenta... É uma equação difícil”, avalia o superintendente de transporte público da BHTrans, Sérgio Carvalho. 

Para ele, a exemplo de gestores de todo o mundo, o transporte coletivo deve ser priorizado. Por isso, Carvalho indica projetos que visam melhorar a infraestrutura para transporte público na capital, sem apontar para data de conclusão.

“Temos, em andamento, uma licitação para contratar 80 Km de faixas exclusivas. Temos financiamento previsto do Banco Mundial para a construção do expresso Amazonas. A ideia é criar um corredor na avenida Amazonas, com operação à direita da via. Um outro estudo diz respeito à ampliação das estações do sistema tronco alimentado, na avenida Pedro II, criando uma estação para troncalizar linhas”.

Pesquisador aponta saídas

Embora concorde que há migração de usuários do transporte coletivo para os serviços sob demanda ofertados via aplicativo, o arquiteto e urbanista Roberto Andrés lembra que, antes disso, essa transferência já acontecia. “Muitas pessoas optavam por deixar de usar ônibus e se tornavam proprietárias de automóveis”, indica.

De fato, se entre 1994 e 2017 o volume de passageiros caiu 50,3%, dados da Denatran (2019) revelam que a frota de automóveis aumentou 175% desde o ano 2000, passando de 20 milhões para 55 milhões. Em relação às motocicletas, o acréscimo foi de 570%, indo de 6 milhões para 27 milhões.

Andrés, que estuda o transporte público desde 2011, aponta que a baixa qualidade do serviço e o crescente aumento tarifário são elementos que ajudam a entender o fenômeno.

O pesquisador concorda com a premissa das soluções propostas pelo anuário 2019 da NTU. “Temos que ter subsídio tarifário, temos que ter investimento em infraestrutura que priorize o transporte coletivo”, diz. “Mas, isso não pode ficar na mão dos empresários do setor. É importante que exista transparência e órgãos que controlem o funcionamento dessas políticas”, indica.

(13) comentários

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Naim De Araújo 9:10 PM Aug 25, 2019
entender essa transformação implica em inter-relacionar diversos fatores. é inevitável que uma parcela da população que não aguentava mais andar de onibus e nao tinha dinheiro para adquirir um veículo passou a usar o transporte por aplicativo. mas, não podemos descnsiderar o que a própria materia aponta: o transporte por aplicativo também colabora com o transporte coletivo, pois muitas pessoas passaram a usar modalidas multiplas.
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Naim De Araújo 9:12 PM Aug 25, 2019
Na contra mão temos os antigos proprietarios de veículos que venderam para andar no transporte por aplicativo - esses colaboram por menos veículos nas ruas. ASSIM, FICA CLARO QUE É PRECISO CONSIDERAR VÁRIOS FATORES. conclusoes como as ditas acima são superficieis e frágeis no sentido científico-metodologia. Suponho que em breve teremos pesquisas empiracas e estatísticas mais estruturadas.
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Diego Augusto Queiroz 8:48 PM Aug 25, 2019
Quem não tem competência não se estabelece
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André Rosenweiss 7:15 PM Aug 25, 2019
A tendência é que o número de passageiros caia ainda mais! Serviço péssimo: não cumpre os horários, não há conforto algum para os usuários e a passagem é caríssima! Quem pode, faz qualquer coisa para evitar essa porcaria que é o sistema de ônibus metropolitano de BH
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Jairo O. S. 5:31 PM Aug 25, 2019
Transporte ruim significa aumento de veículos menores nas ruas e consequentemente atrapalha o próprio transporte público.Como disse o especialista aí na reportagem estamos em 2019 com ônibus ainda em chassis de caminhão com o famigerado motor dianteiro que atrapalha a entrada dos passageiros e prejudica a saúde do motorista com calor e barulho ao lado além como já disse de fazer dupla função recebendo só 20% a mais no salário.Cobrador fica muito mais caro.Só querem faturar + estão se dando mal.
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Jairo O. S. 5:20 PM Aug 25, 2019
Alguém tem que avisar pra esses empresários do setor de ônibus que se não investirem em qualidade estarão dando um tiro no próprio pé.Colocar caminhões pra transportar pessoas com conivência da prefeitura é atraso.Puseram o mesmo de sempre com ar condicionado e suspensão a ar que não tem nada de moderno.Esse tipo de veículo só é usado aqui no Brasil porque é o mais barato.Ainda pra piorar puseram os motoristas pra cobrar passagem e controlar elevador pra cadeirantes aguentando motor ali do lado.
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Christian Haagensen Gontijo 1:41 PM Aug 25, 2019
Enquanto os ônibus estiverem nas mãos da BHTrans, vamos ver passagens cada vez mais caras e qualidade cada vez pior. BHTrans é um CARTEL que mantém as empresas de transporte sem concorrência, portanto sem nenhum motivo para melhorar.
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pedro mito 11:37 AM Aug 25, 2019
Isso chama se progresso é irreversível. Ônibus ruins e passagens caras. O povo desistiu do transporte. Como não temos metrô. O sistema morreu. Isso é irreversivel
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Cesar 10:45 AM Aug 25, 2019
Ônibus você fica esperando em um ponto, espera longa, ônibus desconfortável, motorista tratado com desuminadade, o que não lhe permite prestar um ótimo serviço aos passageiros. Tiraram os trocadores e piorou muito, valor da passagem muito caro. Se você faz um pequeno deslocamento paga o mesmo valor para deslocamento maior. Uma tarifa proporcional seria mais interessante. Os ônibus são verdadeiras sucatas. Transporte defasado e ruim. O aplicativo te proporciona um valor justo, há concorrência e o conforto é maior. Em muitos casos o aplicativo é melhor. Se as empresas de ônibus não apresentarem melhoras perderão de vez os clientes.
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eduardo mello 10:22 AM Aug 25, 2019
Ja andei muito de onibus e finalmente agora posso escolher. Onibus e' caro e mal planejado em BH. Se funcionasse, fosse confortavel e barato, ai sim - mas e' o contrario.
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Victor Silva 9:08 AM Aug 25, 2019
Ótima reportagem. Sou usuário de transporte público e passei a usar aplicativos em vários dos meus deslocamentos. Muitas vezes o preço, pra duas pessoas, equivale aou é menor do que duas passagens de ônibus. E nem vou falar da qualidade do serviço. Só usa ônibus quem não tem outra opção: é caro, desconfortável, lento e ruim. Aos empresários do setor: vocês estão vendo há anos a diminuição do uso do ônibus e não melhorarm o serviço. Mataram a galinha dos ovos de ouro. A conta chegou.
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WANDERSON CANUTO 8:46 AM Aug 25, 2019
Nós usuários de Belo Horizonte somos reféns das empresas de ónibus de um sistema de transporte publico que se encontra e estar falido defasado estamos no ano de 2019 e ainda vivemos na era passada nos anos de 1930 e 1950 quando Belo Horizonte ainda era um arraial e a sua população ara um décimo do que é hoje e mesmo com toda tecnologia presente ainda nao temos transporte publico capaz de superar as necessidades de uma população !!!
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Guaxinim do Sri Lanka 7:48 AM Aug 25, 2019
Mas quem pode acaba abandonando esse péssimo transporte publico que temos mesmo... Péssimo. E o prefeito não teve pulso e coragem para fazer voltar os cobradores...
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